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Quantos cheiros cabem na memória?

Das primeiras fragrâncias à vida madura, cada época guarda suas referências

Dedo de Prosa
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Falam que basta a mãe passar de fininho que o choro do bebê tem explicação: sente  de longe o cheiro do leite. A sabedoria popular também reconhece a chuva pelo cheiro. Vem pelo ar o aroma molhado da terra que anuncia aos olfatos mais apurados: São Pedro manda água. Cada um, com suas vivências, constrói suas memórias olfativas e também carregadas de afeto.



Quantos cheiros cabem na memória?
Marco Jacobsen
 

 

Muitas meninas, de certo, se desfizeram daquela sandália plástica que nunca sai da moda, mas o seu cheirinho, que lembra chiclete, fica até hoje guardado num compartimento da memória que é só seu. As bexigas estão para o aniversário, como o protetor solar, para o verão. Inconfundíveis.



 

Há quem faça careta só de sentir o cheiro de esterco, que para mim é como cheiro de mato, pasto e passado - um tempo de criança, em que passava mais horas no campo do que na cidade – e o cheirinho do café parecia ajustado com o relógio biológico. O gole amargo rompia o descanso e era impulso para meus avós cuidarem da vida. Lavar roupa na mina era uma das tarefas dela e alimentar os bichos era função dele.

 

 A pipoca do cinema, o perfume da loja de vestidos de festa, a pizza no forno à lenha - mais que características físicas, cada um desses lugares da cidade têm impregnados o seu próprio cheiro. O carro novo, a roupa bem lavada, a casa após a faxina. Pois é, até a limpeza cerca-se desses significantes e significados. Está ainda na lembrança o cheiro da cera no piso vermelho de cimento queimado, ainda que uma linha de tempo nos separe.



"A pipoca do cinema, o perfume da loja de vestidos de festa, a pizza no forno à lenha (...)"



 

A merenda da cantina, o caldo quente no inverno, o quentão da quermesse e até a grama recém-cortada. Representados por imagens concretas, os aromas têm identidade e se perpetuam feitos frascos prontos para serem abertos e provados. A prova feita no mimeógrafo, o carro na bomba de gasolina, o livro que veio de um sebo e o tempero da vizinha que ama dobradinha.

 

Antes de estrear no campinho, até a dente de leite tem seu cheiro peculiar - e de tanto correr pro mato, ganha outro. A molecada que ama futebol sabe disso. Agora em se tratando de profissional, ainda que sem registro em carteira, toda mãe é líder em uma função: analista olfativa. Pode acreditar, quando tem coisa errada no pedaço, a mãe da gente sente o cheiro da arte. Seja fósforo riscado ou criança rodeando o poço, o faro é fino. 




 Walkiria Vieira, repórter da FOLHA. 

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