Polo bananeiro de Novo Itacolomi resiste com cooperativismo
União de produtores protege a atividade, considerada instável por ser vulnerável ao clima e pela falta de mão de obra
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de fevereiro de 2026
União de produtores protege a atividade, considerada instável por ser vulnerável ao clima e pela falta de mão de obra
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

A família Favorito é um exemplo de como é difícil segurar o agricultor familiar diretamente na lida do campo, ainda mais no plantio de banana, uma cultura que exige trato contínuo, com muitas etapas, quase todas manuais, ao relento e que exige grande esforço físico.
O pai Valmir, um ex-abanador de café como tantos outros no Vale do Ivaí, hoje prefere a comercialização da fruta, depois de passar anos na labuta pesada no bananal. Já sua jovem filha Kellen preferiu instalar uma fábrica de doces logo depois de sair da adolescência e oito anos depois celebra o crescimento da empresa, que processa em média seis toneladas da fruta todos os meses. “Banana sim, roça não” poderia ser o lema destas duas gerações de paranaenses que ganham a vida graças ao vigor improvável do único polo relevante de produção no Norte do Estado da fruta mais consumida na mesa do brasileiro.
Novo Itacolomi está no coração do Norte Novo e seus moradores circulam em poucas ruas nos dois lados de um trecho quase silencioso da PR-170. É um jovem município de 33 anos, emancipado de Cambira, 21 quilômetros à noroeste pela rodovia. Trinta anos atrás, a banana praticamente não existia no rincão, um dos 37 municípios do Estado com menos de 3,5 mil habitantes (um grupo de exatamente 3.227 pessoas, de acordo com a estimativa populacional do IBGE para 2025).
Quando a praga do bicudo provocou perdas traumáticas nas lavouras de algodão, a fruta surgiu com jeito de recomeço para as pequenas propriedades, predominantes nos fundos de vale. Era meados dos anos 1990. “As famílias se dividiram em dois grupos. O primeiro, que ocupava áreas mais planas e maiores, optou pela mecanização e pela soja. O segundo, com mais integrantes e com terras em áreas acidentadas onde o trator não entra, escolheram a banana”, recorda-se o economista Ovídio César Barbosa, que trabalha na extensão rural do Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR) há 44 anos, desde o escritório em Apucarana, e testemunhou a transformação.
A troca foi bem-sucedida e a renda da banana por hectare, expressivamente maior do que a da soja, foi fidelizando a produção e agregando novas áreas. Símbolo da solidez da cultura, a Festa do Frango e da Banana, realizada sempre em maio, tem a 13º edição garantida e reúne as duas atividades que sustentam a economia deste pequeno município de apenas 162 quilômetros quadrados. Atualmente, os bananais ocupam cerca de 560 hectares na região e a fruta figura na segunda posição no Valor Bruto de Produção local, inferior apenas à avicultura. Desde 2009, a Cooperativa dos Agricultores Familiares de Novo Itacolomi (Cofai) vem consolidando o polo e tentando proteger a atividade, considerada instável por ser vulnerável ao frio, ao excesso de chuvas e pela dificuldade em encontrar mão-de-obra pelo envelhecimento da população rural.
CÂMARAS FRIAS
O líder da Cofai é João Rodrigues Filho lembra que a opção pelo cooperativismo surgiu durante o duelo com as pragas em 2009. A “vaquinha” para a compra de um pulverizador de defensivos consagrou a ideia entre os agricultores de que os problemas poderiam ser vencidos coletivamente. Como a produção crescia, o escoamento se tornava cada vez mais complexo. Depois de centralizar a comercialização, o passo seguinte foi a construção de um barracão para armazenar a fruta, com duas câmaras frias. Por fim, a compra de um caminhão-baú climatizado foi importante para acessar a central de abastecimento de Maringá, o principal mercado da cooperativa há mais de uma década. “Hoje a cooperativa tem dois barracões, três caminhões e uma caminhonete”, conta Rodrigues. A Cofai representa os produtores em editais de financiamento federal e estadual e negocia emendas parlamentares para continuar incrementando sua estrutura. “Estamos viabilizando um novo pulverizador, um trator com um triturador de bananeiras, um novo caminhão-baú térmico e um gerador para estabilizar o fornecimento de eletricidade que mantém as câmaras frias em funcionamento”, explica.

No 17º ano de uma história que desafia a tendência de queda acentuada na produção de banana no Estado, os números que a Confai apresenta são animadores, ao menos neste recorte de 2026. A produtividade de 30 toneladas por hectare é o dobro da média nacional e bem acima das 19 ton/h do Estado, cuja produção está concentrada na faixa litorânea, responsável por cerca de 60% das 148 mil toneladas colhidas, segundo a última medição publicada, referente a 2023. “O faturamento bruto por hectare/ano é de cerca de R$45 mil, muito maior que um hectare de grãos. O custo é de 40% do faturamento, em média”, informa Rodrigues, que lembra que os resultados têm muito a ver com práticas como o ensacamento e a pulverização por drone. A Ceasa de Maringá absorve 30 toneladas de banana nanica por semana, com 15 clientes fixos. Em menor escala, há também clientes na Ceasa de Londrina, no Noroeste e no Oeste. O polo de Novo Itacolomi também fornece a fruta para merenda escolar participando das concorrências públicas tanto em nível estadual quanto municipal.
Além das ondas de frios e as geadas, os produtores se preocupam com as duas maiores ameaças sanitárias dos bananais, a broca da bananeira, uma lagarta que come o caule da planta, e a sigatoka-negra, uma doença fúngica que diminui a produtividade a partir da atrofia da massa foliar. “A situação está controlada, mas basta que um dos produtores não faça o manejo corretamente que toda a área pode ser afetada”, lembra Ovídio, do IDR.
SEM PROTEÇÃO
Mas o extensionista não tem dúvida de que o grande problema - que fez outras regiões promissoras no plantio de banana no Paraná sucumbirem com o tempo - é mesmo a falta de mão de obra e a concorrência direta dos grãos. Ele explica: “Vamos comparar. Um produtor de soja trabalha o dia inteiro num trator super moderno, com cabine, ar condicionado, ouvindo um modão sertanejo. Na banana, o cara soca a mão na terra, ensaca, pega o facão para desbastar. Enquanto na soja o cara tá lá colheitadeira top de linha, na colheita de banana, o cacho é pesado, pode estar chovendo ou um sol de rachar, ele vai estar desprotegido e colhendo do mesmo jeito”. Ovídio defende a contratação de equipes treinadas de trabalhadores jovens para contornar este problema. “É uma discussão que pode ser feita porque é muito viável”, acredita.
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O trabalho pesado também faz muita gente pensar em continuar no ramo, mas em outra função menos desgastante. Oito produtores já se tornaram também intermediários, como o pai de Kellen, e contam com estruturas de armazenagem. “Eles se destacaram como negociadores e agora se dedicam a localizar oportunidades de mercado”, diz Ovídio. Enquanto os frutos amadurecem no galpão, eles prospectam novos clientes, o que acaba mantendo a demanda sempre alta.

Kellen, por exemplo, faz cursos de capacitação e participa de eventos para demonstrar as qualidades dos produtos da sua pequena fábrica, onde seis trabalhadores com carteira assinada ganham a vida e outros tantos recebem diárias para descascar a fruta - normalmente aposentados - em períodos de pico de pedidos. A empreendedora tem se impressionado com as vendas da bananinha para o público fitness, que é uma barra banana pura sem adição de açúcar. “E não é só o pessoal de academia que consome. Quem faz trilha de bike e outros atletas de modo geral que levam para consumir durante os treinos. Tem muita gente que está cortando açúcar do cardápio também, ou porque são diabéticos ou porque querem ter uma alimentação mais saudável”, diz, classificando o status das vendas como “em forte expansão”.
BALA MOLE
As balas produzidas pela única fabricante de Novo Itacolomi são diferentes daquelas que os paranaenses consomem normalmente no veraneio em Guaratuba, Matinhos ou Caiobá e daquelas compradas em bares ou padarias. “A minha é pura fruta, sem adição de glicose e sem produtos químicos para aumentar a receita. No meu processo, a receita vai diminuindo porque enxuga toda a água da banana. Fica com uma textura mais mole. Minha estratégia é atingir todos os públicos, inclusive crianças e idosos”, revela a ex-agricultora e ex-costureira que decidiu ter como plano de vida viver da banana como o pai, mas numa rotina um pouco mais doce.




