Em um artigo publicado no site da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), os pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas, Gabriela Lotta e Roberto Olinto, resumiram o que significa o apoio estatístico para a governança pública. “Um país que não tem dados não se conhece. Um país que não se conhece não tem evidências para tomar boas decisões e não consegue planejar políticas públicas. (...) E um país que não lembra e não se conhece pode ser inventado e construído ao bel prazer dos governantes da vez”.

Graças sobretudo, ao trabalho inquieto de pesquisadores espalhados em universidades e repartições, o Brasil luta para preencher seus vazios estatísticos e instalar faróis que guiam a administração pública. Um destes pesquisadores é o economista do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), Tiago Telles, doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas e Mestre em Agronomia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Na próxima semana, ele entrega ao IDR o relatório final do seu trabalho de pesquisa “Agricultura Orgânica no Norte Pioneiro do Paraná”, uma espécie de censo realizado em todas as propriedades da região que se dedicam ao segmento, definido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) como “um sistema de manejo sustentável da unidade de produção com enfoque sistêmico que privilegia a preservação ambiental, a agrobiodiversidade, os ciclos biológicos e a qualidade de vida do homem”.

O trabalho inédito investiga com profundidade as informações socioeconômicas dos agricultores, a tecnologia de produção, os arranjos produtivos, as características de comercialização e o processo de certificação de 200 propriedades espalhadas nas regionais do instituto sediadas em Cornélio Procópio e Santo Antônio da Platina. O levantamento foi feito com recursos do Programa Universidade Sem Fronteira e do Fundo Paraná, sob responsabilidade da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti).

“O que motivou o trabalho foi o fato de que não existe uma base de dados oficiais que permita tomar decisões nesta área nem no Brasil nem no Paraná”, explica Telles, que pondera que este vazio estatístico impede investigações científicas mais específicas. “A gente não sabe o que pesquisar porque não sabe quanto se produz de cada item, por exemplo: qual que é a área e quanto se produz de tomate orgânico, qual que é a área e quanto se produz de folhas orgânicas…”, justifica. De acordo com o economista, os próprios extensionistas cobravam esta base de consulta para desenvolver seus projetos.

A princípio, o trabalho de coleta foi guiado pelas informações contidas no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO), criado há 15 anos pelo Ministério da Agricultura e que utiliza dados enviados pelas certificadoras credenciadas pelo governo federal.

De acordo com este cadastro, atualizado mensalmente, o Paraná é líder nacional, com 4.407 produtores, seguido do Rio Grande do Sul (3.157), Bahia (1.879), São Paulo (1.650) e Pará (1.582). “No caso do cadastro, uma unidade produtiva pode ter vários indivíduos produzindo. No nosso levantamento, o questionário foi aplicado por propriedade”, esclarece.

Outra base para a pesquisa poderia ser o último Censo Agropecuário do IBGE, realizado em 2017. “Os dados, contudo, estão em total desacordo com as informações que estão no CNPO, e o número de propriedades com produção orgânica está muito superestimado, o que descobrimos durante o período de preparação da pesquisa”. De acordo com o cruzamento de informações antigas e novas, o Paraná tem cerca de 1,6 mil propriedades com produção orgânica, com a maior fatia deste bolo localizada na Região Metropolitana de Curitiba, seguido pelo Norte Pioneiro.

“É um setor que requer dados atualizados para análises e planejamento porque os critérios para a certificação são muito rigorosos, o que acarreta a desistência de muitos produtores”, explica, lembrando também que há uma demanda aquecida pelos produtos, o que amplia o interesse e o ingresso na atividade.

Outro diferencial é que as entrevistas presenciais, feitas de abril de 2024 a março de 2025, colocavam frente a frente extensionistas e agricultores, enquanto o IBGE utiliza recenseadores leigos no seu levantamento. Familiarizados com o ambiente rural, os técnicos são capazes de identificar as eventuais inconsistências nas respostas, o que gera solidez e confiabilidade nas estatísticas.

MERENDA ESCOLAR

Telles adiantou alguns dados em um evento do governo do Estado que ocorreu em dezembro em Curitiba. O perfil dos agricultores orgânicos é masculino, morador da zona rural, tem mais de 50 anos e optou pelo segmento por causa da saúde da família.

Na ocasião, o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Aldo Bona, informou que a Seti vai liberar R$ 550 mil para o IDR-Paraná dobrar o número de bolsistas envolvidos no projeto, o que se junta aos R$300 mil investidos pelo instituto.

Graças a iniciativa de Telles e o apoio da diretoria do instituto, o trabalho de coleta foi ampliado e envolveu todas as regiões do Estado. Um levantamento amostral, feito por sorteio, percorreu 776 propriedades. “Em regiões como Apucarana, Londrina, Maringá e Francisco Beltrão, o IDR fez um censo completo, com o mesmo questionário usado no Norte Pioneiro. O que pretendemos agora é transformar esta montanha de dados em análise estatística e para termos um panorama estadual completo”, informa. A previsão da Seti é que o vazio informacional esteja preenchido ainda no terceiro trimestre deste ano.

Se os recursos de fato forem liberados, os bolsistas forem contratados e os dados forem processados ainda este ano, o mapa novo e detalhado do mundo da agricultura orgânica no território paranaense deve servir, por exemplo, para as estratégias de implantação da lei que obriga a merenda escolar a ser 100% orgânica na rede estadual já a partir de 2030. Um desafio que envolve 3 milhões de refeições por dia e que vai impactar o mercado na próxima década.

NORTE PIONEIRO É DESTAQUE

O braço direito do doutor Telles neste trabalho, o engenheiro agrônomo Felipe Alvares Spagnuolo, adiantou para a FOLHA outras informações que estarão disponíveis ao público em breve. No Norte Pioneiro, 90% das propriedades visitadas contavam com assistência técnica; a cultura de maior prevalência era o tomate (60% das áreas); o cultivo de legumes é muito comum, com destaque para abobrinha, pimentão e pepino; a comercialização para outras regiões é significativa, dois terços dos produtores garantem fornecimento permanente para empresários de Curitiba e de outros estados, como Santa Catarina, Rio de Janeiro e Minas Gerais; a modalidade ocupa 275 hectares da região; 35 hectares são de cultivo protegido (estufa); e as maiores influências para a escolha pela agricultura orgânica é a relação com os técnicos agrícolas e a presença da modalidade em propriedades vizinhas.

De acordo com os pesquisadores, o Norte Pioneiro deve se tornar o principal polo regional de orgânicos, ultrapassando o polo da capital. “É uma região onde a produção é mais comercial, mais tecnificada também. Em Curitiba, apesar de não termos os dados tabulados, é perceptível que o cultivo é feito sobretudo para a subsistência da família, com a comercialização da sobra”, afirma Telles.

Odemir Capello, consultor do Sebrae em Jacarezinho e com reconhecido trabalho na qualificação de produtores rurais, acredita que o perfil fundiário da região, marcada pelas pequenas propriedades, estimula a busca por alternativas mais rentáveis, o que leva naturalmente o agricultor a se interessar pela produção orgânica. “O mercado está aquecido porque os consumidores estão cada vez mais interessados em produtos de fato sustentáveis. Além disso, são produtos que duram mais na prateleira, o que tem atraído os supermercadistas da região”, avalia. Capello também lembra que a atividade tem sido um motor para a melhora da qualidade de vida das famílias que dispõem de poucos hectares para sobreviver, em especial nos municípios de Ibaiti, Ribeirão Claro, Japira, Ribeirão do Pinhal e Tomazina, de acordo com levantamento do Sebrae feito em 2022 com base no CNPO.

ASSENTAMENTO

O Paraná Mais Orgânico, da Seti, é um programa de orientação a agricultores familiares que querem produzir alimentos com status de orgânico e que são estruturados dentro das universidades estaduais, através dos núcleos de certificação e do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA).

Em Londrina, o professor doutor do Departamento de Agronomia do Centro de Ciências Agrárias da UEL e coordenador do Núcleo de Estudos de Agroecologia, Maurício Ursi Ventura, lidera o programa e diz que o número de certificações na região é crescente, principalmente na produção de hortaliças, também com predomínio de legumes. Ele lembra que o Assentamento Eli Vive, no sul do município, concentra a maior parte dos produtores. “Os outros estão bem espalhados”, conta.

Ventura frisa que a atração pela produção de orgânicos mesmo numa região de agricultura convencional dominante é porque está cada vez mais vantajosa a mudança. “Hoje é melhor você produzir orgânico pela estabilidade de produção. Os bioinsumos deixam o manejo equilibrado, não cria aquela bola de neve de ter que aplicar uma coisa e depois outra. Se você fizer uma análise global, vai concluir que é melhor que o convencional”.

Na regional da UEL do programa, são 70 produtores certificados, a maioria nos municípios de Londrina e Apucarana. “Temos a expectativa de dobrar este número nos próximos anos”, prevê.

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