Com sede em Medianeira - importante pólo do agronegócio do Oeste do Estado localizado no meio do caminho entre Cascavel e Foz do Iguaçu, a Frimesa é uma gigante que reúne cinco cooperativas associadas: a local Lar (entorno da qual o primeiro bairro da cidade se formou); a Copagril, de Marechal Cândido Rondon; a Copacol, de Cafelândia; a Primato, de Toledo; e a C.Vale, de Palotina.

Esta liga que funciona sob um mesmo guarda-chuva tem um faturamento diário médio de mais de R$ 20 milhões, de acordo com as últimas estimativas do mercado.

“Vamos dizer assim, os noivos trocaram as alianças, mas ainda não sabem qual é o contrato do casamento”, diz Elias José Zyde, presidente do Sindileite
“Vamos dizer assim, os noivos trocaram as alianças, mas ainda não sabem qual é o contrato do casamento”, diz Elias José Zyde, presidente do Sindileite | Foto: Divulgação/Sindileite

Quando o assunto é leite, é difícil desconsiderá-la. Sua capacidade de processamento é de 1 milhão de litros por dia. De acordo com o relatório anual de 2024, a Frimesa recebeu 258 milhões de litros, vendidos nos supermercados em caixas de longa-vida, condensado, como iogurtes, queijos e doce de leite, uma atividade que gera mais de R$ 1,5 bilhão por ano para a marca.

Mas mesmo quem lida com este mar de leite, capaz de encher mais de 100 piscinas olímpicas, não se sente forte o suficiente para competir com a concorrência estrangeira, uma ameaça real desde que o custo de produção no Brasil cresceu após a pandemia, abrindo espaço para que as importações da Argentina e do Uruguai, especialmente de leite em pó, com pico de 1 bilhão de litros (equivalente) no primeiro semestre de 2024. Em 2025, apesar de uma ligeira queda nas importações, o fluxo aponta uma desvantagem de mais de 2 bilhões de litros-equivalentes para o País.

Com importações abundantes, produção nacional em alta e desempenho fraco no consumo, os preços apresentaram quedas insistentes durante 2025 - em 12 meses o tombo foi de 22%, de acordo com dados do Centro de Inteligência do Leite da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, ameaçando a viabilidade econômica da atividade na base.

CASAMENTO SEM CONTRATO

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, aprovado mas ainda em fase de consolidação legal, tornou o limo ainda mais viscoso neste pedregulho formado por dados negativos. Uma travessia às cegas, conforme o cenário descrito pelo líder da Frimesa, Elias José Zydek, presidente desde agosto do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Leite do Paraná (o Sindileite congrega 42 empresas, responsáveis por 80% do processamento de leite produzido no Estado). Ele avalia que o setor pouco foi ouvido e está desinformado do que vem pela frente. “Vamos dizer assim, os noivos trocaram as alianças, mas ainda não sabem qual é o contrato do casamento”.

No próximo dia 3 de março, em Curitiba, o tema será um dos mais discutidos na reunião da Aliança Láctea Sul Brasileira, um fórum estratégico para ampliar a competitividade externa da cadeia que reúne entidades governamentais, líderes de grandes laticínios e associações de produtores dos três estados do Sul. Desta conversa de interlocutores apreensivos, o setor do leite deve começar a desenhar seu plano de resistência contra os europeus, assim como faz contra argentinos e uruguaios, acusados de usar de artimanhas para enfraquecer os fornecedores nacionais. “Queremos as proteções mais naturais neste tipo de negociação, que é o estabelecimento de tarifas de importação no setor ou a limitação do volume importado em cotas”, adianta Zydek. “Não temos nem a produtividade nem a tecnologia deles. Esta tecnologia europeia nós usamos aqui para produzir. Estamos em desvantagem porque não temos tecnologia para oferecer a eles. Talvez o acordo possa ser vantajoso para que a gente aprenda a fazer o fermento para o queijo, aprenda sobre fungos, esta tecnologia microbiológica que a gente importa deles”, admite.

DE BERMUDA NO BAILE DE GALA

Zydek reclama que as longas negociações com a União Europeia não foram detalhadas para o setor. Segundo ele, ficaram estritamente no campo diplomático. “É como se estivéssemos entrando num baile de gala de bermuda”, compara, referindo-se ao desconhecimento sobre a regulamentação que irá reger o acordo. “Sem isso, não podemos medir os efeitos. A única coisa que sabemos é que não temos competitividade para entrar lá e eles vão entrar com muito queijo aqui, caso não haja regras de proteção.”

Na interpretação do líder do segmento, o Mercosul já é um acordo que “provoca mais preocupação do que emoção” e que o câmbio atual favorece a “invasão” dos argentinos e uruguaios. “Outro problema é que estamos vivendo um período de baixo poder aquisitivo, com o consumo estagnado de produtos de alto valor agregado”.

A movimentação do setor contra os importados tem surtido efeito. No Paraná, foi regulamentada uma lei que proíbe a reconstituição de leite em pó e outros derivados com produto importado na indústria, o que foi celebrado pelo Sistema Faep “como uma vitória dos produtores paranaenses”. O lobby que atuou junto ao Palácio Iguaçu e à Assembleia Legislativa sustentou que os preços estavam tão baixos que não cobriam o custo de produção, com déficit da ordem de 30%, e que o consumo estagnado no País gerou um excedente indesejado.

Quem estuda e monitora a cadeia do leite permanentemente, como faz o Departamento de Economia Rural (Deral), divisão da Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento, tem outras explicações sobre a crise, que vão além da “invasão” estrangeira. “Embora o rebanho tenha sofrido uma redução ao longo desta década, a produtividade por animal cresceu muito. Com a produção em alta, o preço cai”, explica o veterinário Thiago De Marchi da Silva, responsável técnico pelas análises conjunturais do setor.

DEPENDÊNCIA DO MERCADO INTERNO GERA INSTABILIDADE

“Enquanto a demanda não for suficiente, enquanto o setor não conseguir produzir com qualidade e custo mais baixo, com a eficiência necessária para competir no mercado externo, a instabilidade vai persistir. Depender apenas do mercado interno é ficar refém da conjuntura econômica que afeta o consumo”, explica. Esta falta de competitividade é explicada pelo baixo nível de investimento na base. “A tecnologia é cara e as características do setor, baseado majoritariamente na produção em pequenas propriedades, não favorecem este potencial de investimento”, prossegue. “Temos que lembrar que desde a pandemia houve os preços dos alimentos subiram significativamente e o consumo de lácteos foi afetado porque quem vai ao supermercado precisa optar entre uma coisa ou outra. Então você soma uma superprodução a um consumo retraído, os preços acabam desabando”, analisa.

Em reportagem publicada no site da Embrapa Gado de Leite, o pesquisador Glauco Carvalho concorda com o analista do Deral e avalia que o cenário atual expõe uma fragilidade estrutural da cadeia produtiva. Segundo ele, o Brasil está produzindo mais leite do que o mercado doméstico consegue absorver, mas ainda não é competitivo o suficiente para exportar. “Se o mercado interno não cresce, a produção também não pode crescer, pois gera excesso de oferta e o preço piora. Então para sairmos desse ciclo, precisamos melhorar a competitividade, reduzir custos e começar a exportar.” Ele sugere reduzir a assimetria nos níveis de gestão e tecnologia que impera entre os mais de 500 mil produtores do País e gerar a competitividade necessária para exportar quando houver excedente.

MENOS RAÇÃO CONCENTRADA PODE SER O CAMINHO

“O leite não é uma commodity, mas lida diretamente com as oscilações do preço das commodities, justamente pelo uso intensivo de ração concentrada, que pode alcançar 60% do total do custo de produção. Esta é a fragilidade estrutural da cadeia”, avalia Rafael Fagnani, professor do curso de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Londrina, doutor em Ciência Animal e pesquisador na área de inspeção de leite e derivados. “Os grandes produtores atravessam as crises porque tem uma musculatura maior para o enfrentamento já que aprimoraram a gestão de custos e são mais tecnificados. Os pequenos devem trabalhar para depender menos da ração concentrada e produzir a própria silagem, usar mais pastagem, por exemplo. O governo poderia ajudar com a instituição de estoques reguladores, que é um recurso que vem sendo relegado nos últimos tempos, além de incentivar a organização coletiva e o cooperativismo. Acredito também que a articulação do mercado em torno de contratos mais estáveis protegeria os pequenos”, sugere.

PRODUTOR VERTICALIZADO COBRA MARKETING PARA AUMENTAR CONSUMO

Para Valdeir Martins, há uma enxurrada de produtos no mercado, com uma oferta maior que a procura: “Todo mundo está vendendo pouco e ganhando pouco”
Para Valdeir Martins, há uma enxurrada de produtos no mercado, com uma oferta maior que a procura: “Todo mundo está vendendo pouco e ganhando pouco” | Foto: Sergio Ranalli

Valdeir Martins brinca que é um “presidiário da cadeia do leite há 32 anos”. Mas quando ele conta sua história, descobre-se que, no fundo, é um privilegiado em meio ao desânimo que tomou conta do setor nos últimos tempos. Este status está relacionado às decisões estratégicas que tomou ao longo da sua trajetória, quando ele ainda era proprietário de uma padaria e queria oferecer um leite de qualidade para os clientes.

Ele apostou na verticalização e sofre menos com as oscilações do mercado. O trabalho é duro mas lhe dá segurança: ele mesmo tira o leite da vaca (sem contato manual), pasteuriza, embala e distribui o produto no comércio. Atualmente tem 100 cabeças em lactação numa propriedade de 14 hectares próximo ao Distrito da Warta em Londrina, onde também produz queijos premiados. Seu plantel é composto pelas raças holandesa e jersey, além da jersolanda, que é a combinação das duas. Seu produto que tem a marca De Leite no rótulo é considerado premium, vendido em saquinho (barriga mole) com a certificação A, distribuído em padarias, pequenos mercados e algumas lojas da rede Muffato. “A qualidade do leite faz ele ter uma durabilidade de 14 dias em ambiente refrigerado”, diz, orgulhoso, frisando que o único produtor do Norte do Estado que oferece este produto ao mercado. “Uso mais pastagem e silagem de milho e a ração concentrada é colocada na alimentação do plantel de forma pontual.”

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Para Martins, “há uma enxurrada de produtos no mercado, com uma oferta maior que a procura e assim o preço cai. Todo mundo está vendendo pouco e ganhando pouco”. Para ele, o predomínio do leite esterilizado em caixinha (UHT) no Brasil afeta a imagem do produto porque o sabor e o ganho nutricional não é o mesmo de outros mercados. “Nos Estados Unidos este tipo de leite foi banido faz tempo. As pessoas veem eles bebendo leite de caixinha em séries de TV ou em filmes, mas não se atentam que este produto não é o mesmo daqui, inclusive no supermercado fica em ambiente refrigerado. Lá predomina o pasteurizado.”

“PORQUE SOMOS MAMÍFEROS”

O produtor lembra que o último marketing importante para o consumo de leite no Brasil foi feito por uma empresa e não pelos sindicatos patronais ou pelo governo. Ele se refere ao célebre filme publicitário da Parmalat “Porque Somos Mamíferos”, exatamente 30 anos atrás, no qual crianças se vestiam de bichinho de pelúcia com um copo de leite na mão. “Faz muito tempo. É preciso haver uma campanha na mídia permanente para estimular o consumo de leite”, defende. A ideia parece fazer sentido num país que tem um consumo abaixo dos países vizinhos e muito abaixo dos Estados Unidos e da Europa.

Sobre a futura concorrência com produtos europeus sem tarifa, Martins prevê um “bombardeio sem resposta”, lembrando que o Brasil, mesmo sem tarifa, não vai conseguir criar um fluxo de exportação para o Velho Continente. “Eles pagam menos impostos e têm um custo de produção menor. Além disso, produtos estrangeiros causam fascínio nos brasileiros. Temos queijos muito melhores, porém não temos a fama dos queijos franceses, por exemplo. Será péssimo”, diz, sem esconder a preocupação com a livre concorrência.

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