Houve um tempo, nem faz muito tempo, pouco mais de meio século, talvez, que a vida era bem diferente de hoje, sem desmerecer o mundo atual, tão grande, tão cheio de coisas, tão desenvolvido... Cheio de gente, de conforto, de tecnologia, estonteante! Foi a sensação que tive, ao entrar, pela primeira vez, num supermercado, vindo de uma cidade pequena! Eram tantas gôndolas com tantas laranjas, tantas bananas, legumes, verduras... Senti uma estranheza muito grande ao constatar que seria dessa forma que a gente passaria a viver: apanhando facilmente o que precisasse e pudesse pagar, passando pelo caixa e armazenando em casa para a semana, o mês. Muito simples, fácil, como o é agora, até mesmo nas pequenas localidades.

E pensar que a gente, quando queria uma fruta, corria, subia no pé e apanhava. Quando queria fazer um frango tinha que pegar no quintal, matar, depenar, limpar, cortar; ou ia apanhar alfaces, colher tomatinhos, tirar água do poço... Apanhar lenha para acender o fogão, torrar café, moer, socar milho no pilão. Coisas assim que, se contadas hoje, parecem de séculos atrás! Sem contar que tínhamos um único par de sapatos, quando muito um chinelo velho pra ficar em casa e outro, mais novo, para sair. Que cuidado,que encanto por aquele calçado!

Se morássemos na roça, aos domingos saíamos descalços, sapatos na mão e só os colocávamos quando chegávamos à cidade, perto da igreja. Meu irmão, durante a missa, tirava o sapato de verniz do pé, cuspia nele e lustrava com a roupa, tanto era o seu zelo. Com uma única blusa de frio atravessávamos o inverno todo, calças compridas só para os homens. Cobertas? Poucas, a gente se esquentava mesmo com calor humano, tijolo quente na cama ou acocorados perto do fogão a lenha; tinha também alguns acolchoados de paina, que a Tia Lola e a Tia Maria faziam, e eram um luxo só!

A comida, ah! Essa era bem farta! Pães, bolos,doces, bolachas, tudo feito em casa, assim como linguiças, ovos de montão que recolhíamos pelos diversos ninhos no quintal e ainda sobrava para nascerem ninhadas de pintinhos. Mas maçã, por exemplo, só quando ficava doente! Bolachas compradas, com marmelada, uma delícia da nossa infância, só de vez em quando, ao receber visitas. Sem contar que refrigerante aparecia no Natal, Ano Novo e Páscoa.

Na casa a mobília era a mesma coisa: mesa com quatro cadeiras, porém, se fossem muitos os filhos, melhor bancos compridos. Nas camas os irmãos dormiam em três, quatro. Para brincar tínhamos o mundo maravilhoso do quintal, as ruas, as árvores, os cacos, os brinquedos que nós mesmos construíamos porque "comprados" eram poucos, caros, além de durarem a vida inteira pelo valor que dávamos.

Se o entorno era simples, o nosso interior era imenso. Tínhamos tempo de sobra para pensar, para sonhar e pouco com o que nos preocuparmos. Os mais velhos tinham lá suas preocupações mas, no geral, a vida parecia bem menos complicada.

Sem saudosismo, pelo contrário, tento acompanhar este tempo novo, evoluir na minha história e não ficar lamentando pelos cantos, vendo a vida passar, reclamando e suspirando pelos velhos tempos. Mas ainda não consegui entender a magia daquele tempo. Não havia sofrimento por não possuir tudo o que queríamos, como acontece hoje. E, ao mesmo tempo, também não se experimentava a dor de se ter muito, a ponto de não saber o que fazer com tanto e acabar sendo infeliz.

Era tão prazeroso, por exemplo, comprar uma roupa nova, um caderno, um sapato. Viajar, então , era o máximo. Coisas simples tinham um valor imensurável e eram capazes de nos fazer felizes e realizados. Éramos colecionadores de chaveiros, selos, postais, fotos de artistas! Estranho pensar isso hoje, quando tudo se compra aos montes, por isso, perdeu completamente a graça!

Desfilavam então os anos 1950, 60,70..., e iam surgindo grandiosas transformações. As mulheres, os homens, as máquinas, as cidades, as casas. O modo de brincar, de amar, de casar, de nascer, de pensar, de vestir (Mary Quant que o diga, com a minissaia), o modo de ser. O tempo parecia estar atrasado e começou a correr, vertiginosamente, atribuladamente, como se tivesse um prazo a cumprir. Chegamos ao ano dois mil que diziam que não passaríamos e atravessamos o milênio. Ufa! Pouco tempo e muitas mudanças! Mas a maior delas é o excesso, o exagero, o demais! Como se costuma dizer, "radicalizou"! Para um lado ou para outro, para a direita ou esquerda, para a pobreza e a miséria, para o consumismo e a necessidade, para pouco amor e muito ódio, com poucas, mas felizes exceções.

Não sei se pelos anos vividos, mas daquele tempo acumulei muita coisa! Para não transbordar, de vez em quando vou dar uma espiadinha lá no "antigamente" , tirar as lembranças devagarinho, olhar uma a uma, soprá-las aos quatro ventos, deixar que se espalhem por lugares e tempos que não voltarão mais. Então, vou abrindo os arquivos desse passado lindo só pra rever e reviver, por meio da saudade, essas lembranças inesquecíveis! Lembranças do tempo em que aquele pouco que a gente tinha era muito, muito bom!

icon-aspas "Coisas simples tinham um valor imensurável e eram capazes de nos fazer felizes e realizados"

Estela Maria Frederico Ferreira, leitora da FOLHA

MAIS:

- Empresário urbano descobre a pecuária

- Projeções americanas melhores para o corn belt

- Colheita de milho chega forte e traz alívio aos produtores

mockup