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DEDO DE PROSA -

Domingo à tarde


 

Domingo à tarde
Marco Jacobsen
 

"Fui para a cidade ( grande)

Pensando encontrar a felicidade.

Encontrei tristeza, encontrei saudade,

( alegrias também).

Na verdade, na verdade,  esperava encontrar você, ( minha terra) ,  na cidade! " 

  Era sempre assim. Como nunca tinha nada para fazer naquela cidadezinha, pacata demais para nossa jovial energia, a gente inventava: vamos fazer um encontro de jovens no Salão Paroquial?  Que tal realizar uma pesquisa nas casas e promover o presépio vivo neste Natal? E se fizermos um show de talentos com apresentações musicais, tipo...um festival? Ah, também seria interessante um concurso de música popular! Estamos em maio. Seria muito bacana fazer uma serenata no Dia das Mães! Quem canta? Quem toca violão?   Festas juninas!!!  Esse ano vamos arrebentar na Festa de São João!   

Vamos...fazer teatro!!! Tipo circense mesmo, de chorar de rir e rir até chorar.  E que tal promover uma gincana  entre grupos? O que vamos fazer hoje? Inventar qualquer coisa ou  ficar na praça fazendo bagunça mesmo...



Faltava tudo mas sobrava energia e nós próprios inventávamos e criávamos nosso lazer porque a necessidade gera criatividade, a alegria gera alegria e assim podíamos desfrutar de uma vida simples, bonita, movimentada e, principalmente, feliz.

No mês de junho a gente  fazia a festa! Desfilava de carroça, dançava quadrilha, fazia o casamento caipira, soltava fogos, espalhava muita música e envolvia a cidade inteira no clima alegre das festas juninas.  No verão  costumávamos organizar piqueniques e íamos a pé pelas estradas, na maior algazarra, até algum sítio onde houvesse um  riacho; lembro-me bem do sítio do nosso saudoso amigo Almelindo Maratti.

As gincanas eram  bem divertidas e movimentavam  a turma. Numa delas, acabei perdendo uma unha do dedão num jogo de futebol feminino, graças ao  tênis emprestado e apertado. Primeira e única vez que pensei ser jogadora de futebol! Essas ideias eram  colocadas em prática para preenchermos nossa falta de opção de lazer.

Além dos grupos de jovens nos quais colocávamos todo nosso ardor de jovens cristãos, como dizia o Manoel Rueda, " os jovens estão fazendo nossa Igreja tremer de alegria", enchíamos o salão para apresentar o Festival de Música Popular. Eram lindas apresentações e toda a cidade ia assistir, pagava ingresso e tudo! Ou então o concurso de música popular com jurados, notas e prêmios. Aí rolavam umas dancinhas, muita paquera, torcida, e nosso sábado ou domingo estava salvo!

Num destes concursos  a música Asa Branca foi a vencedora, muito bem executada pelo amigo Jaime que sonhava ser cantor! Quanto aos nossos teatros, valha-me Deus, não sei se eram para assistir chorando ou sorrindo. Os recursos eram todos caseiros, as tramas eram puro sofrimento, tal como o Coração Materno, baseada na música de Vicente Celestino, O Corcunda de Notre Dame e outras comédias tragicômicas, todas com flashes de humor ( bem ingênuo ) que faziam muito sucesso e até eram apresentadas nas cidades vizinhas.

O Luciano era o mentor  e diretor das peças teatrais, além  de ser ótimo palhaço e ainda  tocar violão muito bem, quando estava sóbrio. Os atores sentiam-se famosos e tudo! Aos domingos à tarde, o nosso ponto de encontro era a praça. Aí alguém perguntava: tem jogo hoje? Time de fora? Então as meninas já tinham um lugar para passear, enquanto os meninos faziam ou não parte do time local, que, aliás, teve seu dias de fama.

A gente subia a rua para ir ao campo. Lá chegando, sentávamos na grama para assistir...o ambiente! Gente nova, garotos de cidades vizinhas, papo com os amigos, tudo, menos futebol, mas era divertido e preenchia nosso domingo .Às vezes promoviam as brincadeiras dançantes no clube da cidade, geralmente iniciativas dos estudantes e que também eram gostosas, bem inocentes e ajudavam a alegrar nossas tardes.

Mas o tempo foi passando e  aquela vida despreocupada,  quando o único compromisso era  ser feliz, foi passando também. Os amigos espalharam-se pela vida, buscando novos rumos, principalmente outras cidades com mais oportunidades de trabalho.  Já não  havia mais lugar para aqueles jovens animados, cheios de esperança, ávidos por mudanças e realizações porque a  cidade tornou-se pequena demais para conter essa força que só a juventude pode impulsionar! Sairíamos  da calmaria para desvendar a vida em tantos outros lugares diferentes, levando empacotados nossos sonhos  e, principalmente,  a lembrança  e  a saudade de um tempo incomparavelmente feliz.

Partíamos em busca da tão sonhada felicidade... Em pensamento relembro esse  paraíso tendo a  sensação de estar novamente entre aqueles jovens  sorridentes, barulhentos, cheios de vida , no calor de uma tarde  de domingo que vai se escondendo,  assim como o sol da nossa juventude...Nossas tardes de domingo, hoje, são folheadas como um lindo álbum de recordações...




Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA

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