O agronegócio paranaense atravessa um momento de exposição às turbulências do comércio internacional, mas as cooperativas têm funcionado como uma espécie de amortecedor diante de conflitos geopolíticos, oscilações cambiais e do tarifaço imposto pelos Estados Unidos. A avaliação é de Daniel Passinato, advogado especialista em direito empresarial e MBA internacional em administração de empresas, que vê o setor no Paraná em posição privilegiada justamente pela força do cooperativismo, aliada à diversificação produtiva.

“O agronegócio brasileiro está muito bem posicionado, porque já competimos, especialmente com os Estados Unidos, na venda de grãos no mercado mundial”, exemplifica. Para ele, a estabilidade institucional do país pesa a favor das exportações. “As pessoas só compram de quem está em paz, não de quem está em guerra. E isso facilita para nós. O Brasil acaba sendo um porto seguro nesse aspecto”, afirma.

Por outro lado, Passinato ressalta que conflitos internacionais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e a tensão no Oriente Médio, afetam diretamente a cadeia produtiva do agro, sobretudo no custo dos fertilizantes e do frete marítimo. “O Brasil sofre no setor de fertilizantes com a guerra, não só da Rússia, mas também pela rota marítima que traz esses fertilizantes para cá. Como o [Estreito de] Ormuz está fechado, os navios acabam disputando outras rotas. Isso tem encarecido o seguro e o frete fica mais caro”, aponta.

“As pessoas só compram de quem está em paz, não de quem está em guerra. E isso facilita para nós", diz o advogado Daniel Passinato
“As pessoas só compram de quem está em paz, não de quem está em guerra. E isso facilita para nós", diz o advogado Daniel Passinato | Foto: Divulgação

Ele também destaca que, mesmo com eventuais oscilações favoráveis no câmbio, a dependência brasileira de insumos importados continua sendo um fator de vulnerabilidade. “Infelizmente, o Brasil não consegue passar longe disso.”, disse.

Na avaliação dele, o problema não se resolverá apenas com vontade política, porque envolve indústria, tecnologia, capital e tempo. “É necessário muito tempo para montar uma indústria, investir, comprar maquinário e fazer com que ela rode. E, mesmo que o Brasil investisse em uma produção nacional, ainda seríamos dependentes do comércio internacional para alguns insumos.”

Tarifaço ‘setorizado’

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos a parte das exportações brasileiras, que passou a vigorar na última quarta (22), tem uma repercussão mais seletiva na economia paranaense, avalia o especialista. “O impacto não será muito grande como um todo, justamente por causa dessa diversificação que o Paraná possui”, afirma.

Leia mais:

Cooperativas ampliam atuação e agregam valor além da porteira

"Deus me deu esse dom", diz agricultor que dedicou a vida à terra

Ainda assim, ele ressalta a sensibilidade da indústria madeireira, como mostrou a FOLHA em reportagem na quarta-feira (22). “É o segmento mais afetado no Paraná e aqui, sim, tem uma preocupação muito grande”, diz. O direcionamento da manufatura para exportação exclusivamente para o mercado americano, com maquinário, mão de obra e especificações voltadas para aquele destino, limita os destinos para escoação da produção. “Tem uma madeira chamada ‘plywood’ (compensado), que tem especificações para o mercado americano adotadas apenas pela construção civil de lá. Ou seja, a extração da madeira aqui já é adequada para isso”, explica.

Passinato ressalta a atuação da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) para ajudar empresas afetadas a buscar novos mercados desde as primeiras sobretaxações, ainda em 2025. “A Apex começou a trabalhar com as indústrias mais impactadas para diversificar o mercado. E isso foi importante porque o trabalho que começou há um ano está fazendo um efeito muito interessante agora”, observa.

Em 17 de julho, cinco dias antes do início do novo tarifaço, a ApexBrasil anunciou novos investimentos de R$ 130 milhões para intensificar a estratégia de diversificar mercados para a produção brasileira. O valor será executado em conjunto com 57 entidades de diferentes setores produtivos. As primeiras iniciativas devem ser anunciadas no início de agosto.

Porém, para Passinato, embora sejam importantes, a abertura de novos destinos e a concessão de crédito auxiliam como frente de apoio, mas são insuficientes para resolver o problema de forma estrutural. “O cenário é muito mais complexo. Adaptar linhas de produção para novos mercados exige muito do que chamamos de ‘capex’, que é a quantidade de dinheiro necessária para aumentar uma fábrica, comprar maquinário novo. E, num cenário brasileiro de juros altos, fica muito difícil que uma expansão dessa seja efetivamente implementada.”

A força do cooperativismo

Ao avaliar o agronegócio paranaense, Passinato aponta que o modelo cooperativista consolidou-se como uma das principais fortalezas da economia estadual. “O cooperativismo paranaense é um dos mais maduros e mais pujantes do Brasil”, afirma. As cooperativas têm metas bastante ambiciosas: Sistema Ocepar projeta faturamento de R$ 500 bilhões até 2030, dentro do Plano Paraná Cooperativo, desenvolvido junto com o governo estadual.

O especialista destaca que a profissionalização das diretorias tem sido decisiva para dar estabilidade ao setor. “As diretorias estão, de uma maneira muito intensa, sendo profissionais de altíssima capacidade. As cooperativas têm se demonstrado muito robustas para segurar, em um ambiente de gestão, todas essas oscilações.”

Esse avanço ajuda a explicar por que o Paraná aparece entre os estados com maior capacidade de resistência às oscilações externas. Além do peso econômico, o cooperativismo é visto como uma estrutura de negociação mais robusta, capaz de ampliar o poder de barganha dos produtores e melhorar a inserção dos produtos paranaenses no comércio exterior.

Segundo o advogado, o cooperativismo ajuda pequenos produtores a ganhar escala e poder de negociação diante das grandes tradings globais, já que apenas três grandes grupos internacionais dominam a compra de commodities agrícolas no mundo. “Se os produtores rurais estivessem pulverizados, eles teriam muito menos poder de barganha”, afirmou.

mockup