Na tarde da última quarta-feira (22), um homem comemorava a chuva forte que caiu em Londrina após vários dias de estiagem. Eliel dos Santos Silva, olericultor no Patrimônio Selva, agradeceu a Deus o aguaceiro que chegou do jeito que os trabalhadores da roça gostam, sem vento forte e sem estragos. "Chuva abençoada", diz. Enquanto fala com a reportagem da FOLHA, ele vê o filho mais velho, Matheus, de 30 anos, seu braço direito na lida, aproveitar a água que cai do céu para trabalhar na produção hidropônica, que usa água, ao invés de terra.

"É uma chuva que vem com fertilizante. Chega a mudar a cor da planta. Estávamos precisando de uma chuva. Tem os vizinhos que plantaram trigo e a gente fica até contente, vendo as plantações dos vizinhos também", comemora.

Eliel completará 56 anos na próxima quarta-feira, um dia depois de 28 de julho, Dia do Agricultor. Ele nasceu em Londrina e trabalhou toda a vida na roça, começando na propriedade do avô e do pai, próximo ao Conjunto Ernani Moura Lima, na zona leste, onde aprendeu o ofício, até conseguir a trilhar o próprio caminho. Quando isso aconteceu, o moço já estava casado com Luzia, uma predestinada à vida no campo, considerando o sobrenome da noiva, "Terra". "Os Terra vieram de Minas Gerais", conta Eliel.

O agricultor casou-se aos 16 anos e aos 17 começou a cuidar com a esposa de uma propriedade, onde começou a sua jornada profissional. Os três filhos, dois homens e uma mulher, ajudaram os pais nas tarefas da roça e um deles, Matheus, continua com o pai na agricultura. O filho do meio, Misael, é profissional de educação física em Londrina e a filha Cristiane foi morar com o marido e a filha nos Estados Unidos.

Eliel tem duas netas, Rebeca e Nicole, e fala emocionado da que está longe, nos Estados Unidos. "Arrancou um pedaço do meu coração. Eu busquei ela no hospital, ela ia para o Ceasa nenezinha, na caixa comigo, a minha netinha, cresceu aqui. Tenho muita saudade", confessa.

Ele também já sonhou em trabalhar no exterior para juntar dinheiro. "Muitos anos atrás, eu queria ir para os Estados Unidos, antes de 2011, para arrumar dinheiro. Fui para a Europa, não deu certo. Aí eu voltei e fui tocando aqui, fiz um consórcio e acabei sendo contemplado."

O consórcio foi o ponta pé necessário para comprar o sítio que havia arrendado anos atrás. "Estou aqui até hoje, até quando Deus quiser. Deus me deu aqui, fui abençoado aqui", afirma. E agradece aos filhos e à esposa pela ajuda na realização do sonho de produzir legumes e verduras e construir um patrimônio.

É Luzia quem prepara e separa as verduras para os clientes e também ajuda a plantar. "Tenho muito a agradecer a minha esposa, que sempre esteve ao meu lado e estamos juntos aqui, na chuva, no frio, no sol quente, estamos na luta. E eu gosto do meu serviço", frisa.

Hoje, na propriedade, a família planta 30 variedades de folhosas: repolho, couve, rabanete, cebolinha, salsinha, rúcula, alface do tipos americana, crespa, roxa, frisé, lisa, entre outras. "A única coisa que planto de caixa é abóbora itália", comenta.

A família vende sua produção para o Ceasa (Central de Abastecimento) de Londrina, supermercados, sacolões, restaurantes e para a merenda escolar. "Eu gosto muito do meu serviço", reconhecendo que não é um trabalho fácil: "Produtor é sofrido. Uma hora é chuva de pedra, chuva de granizo, frio, sol quente, as intempéries que têm acontecido aí, produtor sofre. Mas estamos aqui. Eu não penso em parar, vou continuar porque Deus me deu esse dom e estou aqui".

Eliel e o filho Matheus plantam 30 variedades de folhosas no sítio localizado no Patrimônio Selva, em Londrina
Eliel e o filho Matheus plantam 30 variedades de folhosas no sítio localizado no Patrimônio Selva, em Londrina | Foto: Sérgio Ranalli

Acordar de madrugada para trabalhar é comum. Às segundas, quartas e sextas-feiras, a família acorda à meia noite para levar mercadorias para o Ceasa. São produzidos cerca de quatro mil quilos de folhagens todos os meses.

Mas a principal dificuldade, atualmente, segundo o agricultor, é encontrar mão de obra para trabalhar no sítio, o que fez ele diminuir a área de plantio. Atualmente, ele conta apenas com um funcionário. Além da falta de mão de obra, Eliel ressalta como outra grande dificuldade, os preços baixos das verduras no mercado, que não acompanham os reajustes nos valores dos insumos.

VOCAÇÃO E DEDICAÇÃO

Para trabalhar na roça é preciso amar o que faz, diz Eliel: "Tem que ter vocação, dedicação. De manhã, no inverno, é muito frio. A gente vai ficando mais velho, vai ficando mais sensível, a gente sente aquele frio gelado, é complicado. Às vezes no sol quente, a gente está carpindo. São as intempéries. O produtor tem esses sofrimentos, principalmente a olericultura, que é horta, que é tudo quase manual, e é direto mexendo, plantando, irrigando, cultivando as plantas. A gente faz o melhor para atender os clientes".

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Na propriedade de 7,26 hectares, onde o dia começa quando a cidade ainda dorme, cada muda colocada na terra — ou na água, no caso da hidroponia — carrega a confiança de que a chuva virá na hora certa, de que o frio passará, de que o sol fará sua parte e de que haverá alimento na mesa de muitas famílias paranaenses.

No Dia do Agricultor, a história de Eliel lembra que, antes de chegar às feiras, supermercados, restaurantes e escolas, cada folha de alface, cada maço de couve e cada ramo de cheiro-verde passam pelas mãos de homens e mulheres que enfrentam as incertezas do clima, a falta de mão de obra e o trabalho pesado sem perder a esperança e a capacidade de agradecer pela chuva tão esperada. É dessa mistura de fé, perseverança e amor pela terra que nasce o alimento e uma das mais importantes profissões do Brasil.

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