DEDO DE PROSA| Pergunta pra mãe
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de março de 2021
Estela Maria Ferreira 
Na Bíblia, o Livro de Jonas fala, em suas entrelinhas, sobre um tempo, depois do exílio da Babilônia, na reconstrução de Jerusalém e do judaísmo, em que havia uma antiga tradição de mulheres contadoras de histórias. Através dessa tradição, mantinham a memória histórico-familiar e, de modo especial, contavam como muitas mulheres contribuíram para a trajetória do povo na Bíblia. Isso acontecia nas casas e nas pequenas situações do dia-a-dia.
Em nossas famílias, a mulher sempre teve um papel primordial e, geralmente, é a mãe aquela que se torna a guardiã da história. Quem nunca, no transcorrer da vida e no convívio familiar, correu para aquela que centraliza essa pequena sociedade para saber do paradeiro de qualquer coisa ou de uma informação? “Pergunta pra mãe “. É bem assim. Inúmeras vezes, enquanto procurava desesperadamente alguma coisa ou então estava com preguiça de procurar, tinha alguém que sabiamente sugeria: “ Não achou? Pergunta pra mãe. ”
Mãe sempre sabe onde procurar e.…acha!

Recordo certas coisas simples que aprendi com ela, como lavar roupas corretamente, fazer arroz, cuidar da higiene quando menstruei pela primeira vez, os primeiros cuidados no nascimento de minhas filhas, no início da vida de casada. As informações sobre a minha história familiar, os aniversários dos parentes, as mortes, as histórias engraçadas, as coisas boas e as não tão boas, tudo aprendi com ela; tudo que queria saber sobre os tios, os avós, os padrinhos, vizinhos e sobre as lacunas esquecidas da minha infância era a ela que recorria.
Quando adulta e achava que sabia tudo, continuei a ser dependente em muitas situações, por exemplo, desde o crescimento das filhas até na hora de fazer um bolo: “Mãe, como é que faz aquele bolo de fubá? ”
No momento em que vivemos, perdeu- se muito a oportunidade de conhecer nosso passado para reconhecer quem somos, porque somos e como somos. Faltam aquelas animadas conversas sobre o passado, certas bobagens, aquelas horas de “ jogar conversa fora em rodas familiares “. Ninguém mais tem tempo e, se quiser mais informações, melhor procurar no Google...Além do mais é cansativo ficar escutando as repetitivas histórias dos velhos, mesmo que relatem fatos referentes à nossa vida e história.
Mas como a história é dinâmica e cíclica, eis que, de repente, nos deparamos como os próprios guardiões e guardiãs da memória e história dos nossos antepassados. E concluímos que ainda temos muitas perguntas sem respostas.
Infelizmente não dá mais para perguntar para nossas mães porque muitas delas já partiram e levaram consigo as lembranças, os amores, as festas, as receitas, os aniversários, os casamentos, os velórios, os ensinamentos. Levaram consigo a sabedoria, a capacidade de unir, de organizar, de pensar no outro, de valorizar, de se doar sempre. Deixaram tantos presentes registrados em nossa mente e em nosso coração. Preservaram tantos sentimentos, valorizaram as pequenas coisas da vida, cumpriram sua missão de guardiãs de tantas histórias tecidas com tanto amor. Ainda temos dúvidas sobre os segredos da vida, sobre o passado e sobre o presente. Se ainda fosse possível saber alguma coisa que não aprendemos, com certeza perguntaríamos pra mãe: “ Mãe, por que será que a gente sente tanta saudade? ”
Estela Maria Ferreira é leitora da FOLHA.


