Enquanto o Brasil perde propriedades rurais familiares para grandes grupos, cooperativas paranaenses investem em sucessão, tecnologia e união para manter o campo vivo — e nas mãos de quem produz.

No coração do agronegócio brasileiro, o Paraná é referência quando o assunto é cooperativismo. O estado movimentou R$ 194,73 bilhões em 2024, conforme dados do Balanço Anual do Sistema Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná) 2025, que também indica que o Paraná abriga a maior cooperativa do Brasil em faturamento (Coamo) e o maior empregador do setor (Lar), segundo o governo do Paraná. Esse desempenho consolidou o estado como bastião do modelo cooperativista.

Esse protagonismo também é reconhecido globalmente. De acordo com o estudo World Cooperative Monitor, 11 cooperativas agroindustriais paranaenses figuram entre as maiores do mundo, incluindo Agrária, Castrolanda, Coamo, Cocamar, Coopavel, Lar, Copacol, C.Vale, Frimesa, Frísia e Integrada. Em 2022, essas cooperativas faturaram R$ 186 bilhões — quase um terço do total brasileiro — com crescimento médio anual de 20%, segundo a Secretaria de Estado da Agricultura. A Ocepar projeta alcançar R$ 200 bilhões ainda em 2023, com possibilidade de dobrar esse valor em cinco anos.

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Os desafios da sucessão rural

Mas, por trás dos recordes de safra e das cifras bilionárias, existe um desafio silencioso e urgente: a sucessão familiar nas propriedades rurais. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e do Censo Agropecuário do IBGE, cerca de 90% das propriedades rurais brasileiras são familiares, mas apenas 30% chegam à segunda geração e entre 5% e 10% resistem até a terceira. É uma verdadeira hemorragia de capital humano que ameaça tanto o legado das famílias quanto a sustentabilidade do sistema cooperativista.

“A gente fala muito nessa mudança de cultura, voltada principalmente à mudança de faixa etária. Sucessão é um tema que enfrentamos dentro de casa também”, afirma Luiz Gustavo de Oliveira Alcides, representante da Cocari.

Por que o bastão cai antes da linha de chegada?

A resistência do patriarca em “passar o bastão”, o desejo da nova geração por mais autonomia e remuneração justa, a precariedade da infraestrutura — especialmente a falta de internet de qualidade — e a ausência de diálogo sobre patrimônio e expectativas formam um ambiente de alta tensão e incerteza no campo.

Quando a sucessão ocorre sem preparo, as consequências podem ser drásticas: algumas famílias são obrigadas a vender parte da propriedade para cobrir custos de inventário ou lidar com disputas patrimoniais.

Além disso, um aspecto ainda pouco discutido, mas crítico, é a saúde mental dos envolvidos na sucessão. A troca de liderança pode gerar incertezas. O patriarca, com décadas de vivência no campo e profundo conhecimento do negócio, pode sentir a necessidade de redefinir seu papel — não como alguém que “perde espaço”, mas como mentor e guardião da história e dos valores familiares. O sucessor, por sua vez, encara a responsabilidade de honrar esse legado e, ao mesmo tempo, inovar; já os herdeiros que não assumem o negócio podem sentir-se distantes da tomada de decisões.

Estudo sobre a transformação da família rural mostra que o afastamento dos jovens estimula um clima de desmotivação para permanecer no campo, aprofundando o risco de rupturas emocionais e patrimoniais.

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Como a sucessão impacta diretamente as cooperativas?

A sucessão familiar não é apenas uma questão interna de cada propriedade — ela tem efeito direto na estrutura e na sustentabilidade das cooperativas. Quando uma fazenda deixa de ser conduzida por membros engajados no modelo cooperativista, não é apenas uma história familiar que chega ao fim, mas também de uma relação de parceria construída ao longo de décadas.

A primeira consequência é a erosão da base social. Ao vender a terra para grandes grupos ou investidores, a cooperativa perde não apenas um cooperado, mas um elo ativo na cadeia de produção e participação.

Outro efeito preocupante é a ruptura no pipeline de liderança, lembra Eder Vriesman, da Frísia, cooperativa da região dos Campos Gerais, que completa 100 anos em 2025. “O jovem agricultor que assume o negócio nem sempre participou de toda a vida da cooperativa. O desafio é conectá-lo aos valores do cooperativismo, mostrando que a cooperativa é mais do que uma relação comercial — é uma rede de apoio e crescimento conjunto”, analisa.

Além disso, há impacto na identidade e nos valores. O cooperativismo é construído sobre princípios de solidariedade, intercooperação e participação democrática. Sem o envolvimento da nova geração, esses valores podem se enfraquecer.

Gustavo Bastos Alves, gerente sênior de Acesso ao Mercado da Basf — empresa parceira das cooperativas —, explica que o processo sucessório no campo enfrenta um desafio particular: muitos jovens que hoje assumem a gestão das propriedades não vivenciaram plenamente a rotina e a cultura da cooperativa.

“A questão é como podemos aproximar essa nova geração da agricultura dos valores que sustentam o cooperativismo, garantindo que eles se sintam parte ativa dessa rede e compreendam seu papel estratégico”, afirma.

Marcelo Bastistela, VP Brasil Soluções para Agricultura da Basf, acrescenta que tecnologias já permitem reduzir defensivos em até 60% e consumo de água em 25%, tornando a digitalização não apenas tendência, mas necessidade para manter competitividade e sustentabilidade.

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Quais soluções as cooperativas do Paraná estão criando?

A RESPOSTA PARANAENSE

Diante da crise, as cooperativas do Paraná não atuam como espectadoras passivas, mas como agentes proativos, criando um roteiro de soluções para o Brasil. No Estado, as cooperativas trabalham para criar um modelo replicável para o Brasil, de ações de sucesso com relação a essa aproximação do jovem no campo e a mitigação do êxodo rural. A fórmula combina capacitação, inovação e união entre entidades.

A primeira linha de defesa é o investimento em formação de lideranças jovens. Programas como o "Jovens Líderes Cooperativistas" da Coamo, o "Legado do Agro" da Copagril (com módulos por idade) e o "Herdeiros do Campo" do Senar-PR são exemplos relevantes. Eles funcionam como um espaço neutro, onde famílias, mediadas por especialistas, podem ter conversas difíceis sobre governança e patrimônio, estruturando um plano de ação concreto. A tecnologia funciona como ponte para essa nova geração. “A digitalização é um tema que atrai mais esse jovem que está no campo. Então essa tem sido uma porta de entrada para gerar essa conexão do jovem agricultor com a cooperativa”, analisa Bastos.

A segunda resposta estratégica é a união e a industrialização. Cooperativas como a Agrária lideram pelo exemplo, formando parcerias com Frísia, Castrolanda e Bom Jesus para ampliar sua maltaria, a maior da América Latina. Valdomiro Nesi, gerente Coamo anuncia, de encontro a esse fim, que a cooperativa está investindo R$ 1,8 bilhão em sua 12ª indústria, uma usina de etanol de milho. O objetivo é agregar valor, remunerar melhor o cooperado e reduzir a dependência da venda de commodities. Luiz Gustavo De Oliveira Alcides, da Cocari, reforça essa visão: “Não é cooperativa contra cooperativa, é cooperativa com cooperativa. Elas precisam se juntar para industrializar. O que faltou dentro de algumas cooperativas foi essa industrialização.” A união entre Agrária, Frísia, Castrolanda, Bom Jesus e Copa Agrícola para expandir a maltaria — hoje a maior e mais tecnificada da América Latina — é exemplo de visão de futuro.

Para o presidente do Sistema Ocepar, José Roberto Ricken, “para os módulos rurais que temos no Sul, o melhor modelo é o cooperativista. Ele permite ganhar escala e equilibrar o econômico com o social. O Brasil será cada vez mais importante, tanto para comida quanto para energia. Se cooperarmos, seremos maiores."

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O que é o cooperativismo agrícola e por que ele é vital?

Em 2024, o cooperativismo movimentou R$ 757,9 bilhões, sendo R$ 438,2 bilhões apenas no ramo agropecuário. O setor conta com mais de 1 milhão de cooperados e gera 268.279 empregos diretos, sendo responsável por 53% da originação de grãos do país. Gigantes como Copersucar, Coamo, C.Vale e Aurora Coop figuram entre as maiores empresas do agronegócio nacional, com receitas que ultrapassam dezenas de bilhões de reais.

O futuro deste modelo está ancorado na inovação e na tecnologia. As cooperativas são fundamentais para escalar novas tecnologias no campo. A parceria com a indústria é simbiótica. “As cooperativas representam hoje quase 30% do negócio que é feito em insumos agrícolas... Se a gente vai para Região Sul, esse percentual vai para casa dos 50%, 60%. E fazer agricultura em um país como o nosso, sem inovação, é impossível”, afirma Bastos.

A Basf prevê lançar uma biotecnologia para controle de nematoides que pode reduzir perdas de até R$ 16 bilhões na soja e aumentar a produtividade em mais de 90%. A inteligência artificial já é utilizada para prever vendas e otimizar decisões. "A base de tudo é a confiança. Em um mercado volátil, a cooperativa oferece segurança e tranquilidade ao produtor, destaca um Valdemiro Nesi, representante da Coamo. “O cooperado da Coamo hoje ele sabe que o risco dele é zero”.

FORTALECIMENTO DO COOPERATIVISMO

A Basf reforça essa agenda com o Programa Cooperar, criado para apoiar o desenvolvimento técnico e estratégico de cooperativas e cooperados. A iniciativa atenderá 100 cooperativas, envolvendo 400 mil cooperados e 100 mil colaboradores. Parte do investimento em produtos retorna em capacitação em temas como sustentabilidade, sucessão familiar, gestão e transformação digital.

Gustavo Bastos Alves debate soluções com representantes de mais de 71 cooperativas do Brasil; 40 somente do Paraná, em evento promovido pela Basf no dia 31 de Julho de 2025
Gustavo Bastos Alves debate soluções com representantes de mais de 71 cooperativas do Brasil; 40 somente do Paraná, em evento promovido pela Basf no dia 31 de Julho de 2025 | Foto: Divulgação

O programa é dividido em quatro trilhas de conhecimento: Conselho Cooperar (alta liderança), Lead Coop (diretores), Incoop (gestores) e Coopetec (técnicos e equipes de campo). Segundo Marcelo Batistela, VP Brasil para Soluções Agrícolas da Basf, "o cooperativismo sempre foi e continuará sendo muito forte. Não é possível falar em agricultura de forma isolada, porque ela é construída coletivamente. O modelo cooperativista não apenas foi decisivo até aqui, mas seguirá tendo um papel central no futuro do setor". Ele ressalta que ter a oportunidade de interagir com grande parte do sistema cooperativista da agricultura para compartilhar percepções, visões e alinhar desafios é extremamente valioso: “Tem valor para o agricultor, para a cooperativa, para a indústria e para o país como um todo.”

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Agrária: sucessão com raízes profundas e visão de futuro

Entre os exemplos de sucesso, a Cooperativa Agrária, sediada em Guarapuava (Centro-sul), mostra como tradição e inovação podem andar juntas para vencer o desafio da sucessão. Fundada há 75 anos por imigrantes da Suábia, região da Alemanha, a cooperativa transformou uma região de invernos rigorosos e solo desafiador em um polo agrícola de alta produtividade. Hoje, preserva um modelo singular: mantém as mesmas famílias fundadoras, cerca de 300, que somam aproximadamente 700 cooperados. A entrada de novos membros é restrita, garantindo coesão, preservação da cultura e um forte senso de pertencimento.

A união do agro com a indústria tornou a cooperativa um dos pilares da economia da região
A união do agro com a indústria tornou a cooperativa um dos pilares da economia da região | Foto: Divulgação

A Agrária representa cerca de 40% do PIB de Guarapuava, e sua influência vai muito além da produção. Atua como motor econômico e social, investindo em projetos comunitários, educação e desenvolvimento tecnológico. Sua força vem de uma industrialização diversificada: além da cevada e do trigo, cultiva soja, milho, feijão, batata e outras culturas de inverno. No setor industrial, transforma cevada em malte de alta qualidade, produz milho para flakes, processa aveia em flocos e mantém um portfólio robusto voltado a grandes clientes, como cervejarias e indústrias alimentícias.

A cooperativa também se destaca pela busca constante de tecnologia e inovação. Mantém parcerias com centros de excelência na Europa para aprimorar a produção de cerveja, queijo e pão, e opera uma escola interna para troca e desenvolvimento de know-how, onde conhecimentos aplicados no Paraná são adaptados para culturas como o café em outros estados. Esse espírito de intercooperação nacional fortalece não apenas a Agrária, mas todo o cooperativismo brasileiro.

Sede administrativa da Cooperativa Agrária, em Guarapuava, Centro-Sul
Sede administrativa da Cooperativa Agrária, em Guarapuava, Centro-Sul | Foto: Divulgação

A sucessão, para a cooperativa, não é apenas a troca de nomes no comando, mas parte de um projeto contínuo de crescimento e renovação. Com programas de capacitação e incentivo, prepara jovens herdeiros para verem no campo não um destino inevitável, mas um espaço de oportunidade, tecnologia e rentabilidade. “A cooperativa preza pela comunidade e pelo cooperado. Está sempre pensando em maneiras de ajudar a comunidade a crescer, ao mesmo tempo em que fortalece a cooperativa e o cooperativismo.”, conta o engenheiro agrônomo, Andre Manosso Correa Prestes, representante da Agrária.

Essa visão também está ligada aos planos de expansão. A Agrária participa do projeto de ampliação da maltaria em Ponta Grossa, iniciativa conjunta com outras cooperativas, que dobrará a capacidade de produção e incentivará o plantio de cevada no Paraná, abrindo novas frentes de renda e agregando valor à produção. “O cooperativismo está trazendo muita união. A Agrária soma nisso, trazendo mais industrialização, mais tecnologia e novas perspectivas para a agricultura”, completa.

Para as famílias da Agrária, o campo é um espaço de inovação, competitividade e orgulho, a cooperativa garante que o legado da terra permaneça firme nas mãos das novas gerações — e que o cooperativismo continue sendo motor de desenvolvimento econômico e social da região para o futuro.

O futuro do modelo cooperativista

O futuro do agro e o cooperativismo no Paraná caminham lado a lado. José Roberto Ricken, presidente da Ocepar, mostra que as cooperativas agrárias oferecem uma série de benefícios para seus membros, incluindo melhores preços na compra de insumos e na venda de produtos, acesso a crédito facilitado, assistência técnica especializada e participação nos resultados da cooperativa. Além disso, a união em cooperativas fortalece o poder de negociação dos produtores, reduz custos operacionais e promove o desenvolvimento sustentável do setor.

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Para a Ocepar, esse modelo tem se mostrado decisivo para que o Paraná lidere não apenas em produtividade, mas também em organização e competitividade. “O cooperativismo é uma ferramenta estratégica para que o agricultor permaneça no campo com rentabilidade e qualidade de vida”, destaca Ricken.

Valdemiro Nesi, da Coamo, reforça que a força das cooperativas está na capacidade de gerar escala e solidez para que o agricultor enfrente um mercado cada vez mais globalizado e competitivo. “Quando o produtor se une à cooperativa, ele deixa de ser um comprador e vendedor isolado e passa a integrar um sistema que negocia em grandes volumes, com mais força e melhores condições”. Para Nesi, esse diferencial explica por que cooperados conseguem enfrentar crises com mais resiliência e conquistar margens mais estáveis.

No horizonte apresenta-se o desafio de atrair e reter as novas gerações no campo, unidas no propósito de crescimento lucrativo do legado da terra, incorporando inovação sem perder de vista os valores que sustentam o cooperativismo.

* A jornalista viajou a Foz do Iguaçu a convite da Basf

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