Corte de gastos em Brasília afeta mercado de seguro rural
Entidades do agro reclamam do bloqueio de recursos destinados ao financiamento para aquisição das apólices
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de agosto de 2025
Entidades do agro reclamam do bloqueio de recursos destinados ao financiamento para aquisição das apólices
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

O fluxo de financiamento para a contratação de seguros que indenizam os agricultores em caso de perdas e danos relacionados à produtividade e à rentabilidade das lavouras vive um momento em forte baixa desde que o governo federal anunciou em junho o bloqueio de R$ 445 milhões de um total de R$ 1 bilhão previsto na Lei Orçamentária Anual para o Programa de Subvenção ao PSR (Prêmio do Seguro Rural).
O PSR abrange uma parceria com 17 seguradoras que comercializam este tipo de apólice. A subvenção ao prêmio (valor pago pelo segurado para ter direito à indenização) está fixada em 40%, exceto para a soja, que é de 20%.
Leia mais:
O chamado contingenciamento faz parte, de acordo com o governo, dos esforços para atingir a meta fiscal de 2025, na qual o volume de receitas e despesas da União deve ser o mesmo, com uma tolerância máxima de R$ 31 bilhões de saldo negativo.
As torneiras fechadas por Brasília estão provocando protestos de entidades do setor, que defendem o gasto como estratégico para o agronegócio, especialmente se o fenômeno climático La Niña se estabelecer a partir do fim do ano, alterando os padrões normais do regime de chuvas (relatório divulgado pelo Centro de Previsão do Clima dos Estados Unidos aponta que há 41% de chance do fenômeno se consumar entre novembro de 2025 e janeiro de 2026).
Esta semana, através de nota, o presidente da Sociedade Rural do Paraná, Marcelo Janene El-Kadre, disse que o bloqueio é “extremamente preocupante”. Para ele, “o seguro rural não é um custo supérfluo, é uma ferramenta estratégica de gestão de risco que garante a continuidade da produção, protege o investimento do produtor e reduz a necessidade das renegociações de dívidas em anos de perdas”.
O tom de reprovação da Rural é semelhante ao das declarações de líderes do setores de seguros, como Gláucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais, a FenSeg.
Em audiência pública no Congresso Nacional, ele lembrou que a redução dos valores destinados ao financiamento fez a área segurada no país cair pela metade entre 2023 e 2024, de 14 milhões para 7 milhões de hectares, o que mostra que mesmo antes mesmo do contingenciamento, o acesso dos produtores, principalmente dos pequenos, ao programa já estava aquém do considerado necessário pelos especialistas. Outro dado que corrobora a preocupação do agro é a queda de 3% da receita desta modalidade de seguro no primeiro quadrimestre do ano.
“Reduzir esse alcance para menos de 5 milhões de hectares no país significa expor milhares de produtores ao risco climático, num momento em que há previsão de La Niña em 2026, que pode afetar seriamente a colheita de verão”, alerta El-Kadre.
“Temos uma drástica redução da área segurada. Com milhares de produtores sem apólice, em regiões com alto risco de eventos climáticos extremos, a tendência é que as seguradoras aumentem o valor do prêmio e reduzam a oferta de produtos. O nível de investimento e o custo da produção também podem ser impactados, o que pode significar uma produção menor e o aumento do endividamento”, avalia Anderson Sartorelli, do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná). “Em uma realidade de mudanças climáticas, o seguro é uma ferramenta muito importante no planejamento porque deixa de ser um elemento opcional e passa a ser estratégico”, defende.
Salatiel Turra, economista e analista técnico de desenvolvimento do Sistema Ocepar, complementa que o Paraná é fortemente afetado pela desproteção porque o robusto sistema de cooperativas do Estado estimula a contratação do seguro rural através do programa federal de subvenção. “Nossas estimativas preliminares indicam que haverá uma retração significativa da área segurada.”
Sobre a possibilidade de descontingenciamento ventilada pelo Ministério da Agricultura nas últimas semanas, Turra pondera que a liberação de recursos precisa ocorrer antes da janela de contratação para as culturas de verão. “Após este limite, mesmo com a liberação, parte dos produtores já terá semeado sem cobertura, reduzindo o potencial de proteção.”
A Sociedade Rural menciona também em sua nota que “atrasos no pagamento de R$ 129 milhões referentes a apólices de 2024” comprometem o caixa das seguradoras e, por consequência, a oferta de produtos para o agricultor. “É uma situação que pode gerar um efeito em cadeia: menos seguro disponível, menos proteção para o produtor, maior vulnerabilidade do setor e mais instabilidade para toda a economia do agronegócio.”
O produtor rural Moyses Bahdur Neto disse à FOLHA que a fase de alta volatilidade nos preços dos produtos e dos insumos na cultura da soja, do milho e do sorgo (grãos que ele planta na sua propriedade em Lupionópolis) torna o seguro praticamente um instrumento de sobrevivência no setor. “A subvenção ajuda porque o valor do prêmio é muito expressivo, de cerca de 8% da receita, no caso do milho, e 10% no caso da soja”, calcula.
O economista Claudemir Rossetto, CEO da Prevent Corretora de Seguros, que atua há quase cinco décadas no setor, relata que muito produtores que contrataram o seguro e quitaram a sua parte do prêmio, recebem a cobrança da parte da subvenção que o governo não honrou por falta de recursos, gerando o cancelamento das apólices. “Aqueles que pagam não têm recursos para quitar o seguro da safra de verão”, explica.
A FOLHA entrou em contato com a assessoria do Ministério da Agricultura e da Pecuária mas não obteve resposta até o fechamento da edição.





