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Londrina

Folha Rural

m de leitura Atualizado em 06/08/2022, 05:39

Criar abelhas em casa é prática ecológica e de importância econômica

Meliponicultura se destaca enquanto população natural desse inseto declina; interessados podem comprar colmeia pronta

PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de agosto de 2022

Lara Bridi/Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

Foto: iStock
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Você sabia que cerca de 75% dos cultivos alimentícios dependem total ou parcialmente de animais polinizadores? Os dados são da IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas), da ONU (Organização das Nações Unidas), de 2016. Em cifras, o valor das plantações afetadas diretamente por esses animais ao ano está entre os U$235 milhões e U$577 milhões (estimativa de 2016). Porém, o mundo assiste à progressiva diminuição da população natural de insetos desse grupo, e teme o comprometimento de lavouras e desequilíbrio da fauna e flora. Entra, então, o papel dos meliponicultores.

A meliponicultura é a criação de abelhas, mas se difere da apicultura por se tratar da criação desses insetos sem o ferrão ou com o ferrão atrofiado, os quais não apresentam risco à saúde humana. A prática, já desenvolvida pelos povos indígenas nacionais, agora divide espaço com plantações e muitos entusiastas a exercem em suas próprias casas. Segundo o IPBES, na Europa, o número de abelhas caiu 37% nos últimos anos, devido a um conjunto de fatores tais como a urbanização e monoculturas agrárias, que diminuem a diversidade do ecossistema, assim como o uso de pesticidas e plantas geneticamente modificadas. A tentativa dos meliponicultores é reverter esse quadro à medida que repõem a população de abelhas.

As abelhas da espécie  jataí são bastante encontradas no Norte do Paraná As abelhas da espécie  jataí são bastante encontradas no Norte do Paraná
As abelhas da espécie jataí são bastante encontradas no Norte do Paraná |  Foto: iStock
 

O zootecnista e professor da UEM (Universidade Estadual de Maringá) Cláudio Gomes da Silva Júnior Pedroso explica que não é preciso ser um especialista para criar as abelhas sem ferrão em casa, basta se informar de antemão acerca dos seus cuidados. O professor indica que se utilize material de qualidade e fontes confiáveis para tanto, a exemplo do manual Criação de Abelhas-Sem-Ferrão, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), disponível em seu site.

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ESPÉCIES DA REGIÃO

Em primeiro lugar, Pedroso afirma que é necessário que as abelhas escolhidas sejam endêmicas, ou seja, próprias da sua região. O Brasil dispõe de uma grande diversidade de abelhas sem ferrão nativas e, por esse motivo, há a indispensável manutenção do equilíbrio biológico. Pedroso explica que “quando a gente quebra esse equilíbrio, podem surgir os impactos. Hoje, a principal preocupação é essa: que a gente não importe abelhas de outros estados, de outras regiões; porque a gente pode diminuir uma espécie que era nativa daquela região, em decorrência de uma abelha exótica que chegou e se alimenta de um alimento que era próprio de outra espécie. Isso traz uma escassez alimentar para aquela abelha nativa.”

Uma variedade muito recorrente na região Norte do Paraná são as abelhas jataí. Para saber qual espécie de abelha tem ocorrência na sua região, acesse o manual da Embrapa. Não esqueça de conferir se o seu estado de residência exige autorização governamental para a produção de insetos.

A meliponicultura é a criação de abelhas, mas se difere da apicultura por se tratar da criação desses insetos sem o ferrão ou com o ferrão atrofiado A meliponicultura é a criação de abelhas, mas se difere da apicultura por se tratar da criação desses insetos sem o ferrão ou com o ferrão atrofiado
A meliponicultura é a criação de abelhas, mas se difere da apicultura por se tratar da criação desses insetos sem o ferrão ou com o ferrão atrofiado |  Foto: iStock
 

Mais do que proporcionar um benefício coletivo, “a abelha, dentro da cidade, é mais uma terapia para as pessoas”. Quem atesta isso é o meliponicultor Cléber Henrique de Oliveira. Ele é engenheiro agrônomo e proprietário de um apiário que realiza vendas de colônias de sete espécies diferentes. Ele conta que muitas pessoas procuram as colmeias inclusive para presentear outras pessoas.

Formar ou comprar?

Mas como as abelhas chegam até a casa dos meliponicultores? Existem duas formas de fazer a sua casa o novo lar das abelhas. A forma mais simples é por meio da compra de uma colônia já formada. Dessa forma, a colmeia já vem pronta para polinizar, entretanto, o seu valor pode variar de R$180 a R$5mil. A outra opção, mais em conta, é a captura de enxames. O professor e o engenheiro relembram que essa alternativa é mais trabalhosa, pois envolve a instalação de uma isca (feita em garrafa PET) para as abelhas e sua posterior transferência para uma colmeia definitiva. Além disso, uma vez que a colônia não está fortalecida, o manejo das abelhas requer mais dedicação, pois ainda serão mais sensíveis a predadores e mudanças de temperatura.

Detalhe de uma isca instalada para captura de enxames Detalhe de uma isca instalada para captura de enxames
Detalhe de uma isca instalada para captura de enxames |  Foto: Arquivo pessoal
 

Dentre os cuidados com as abelhas está o de alimentá-las durante o inverno, período em que há menor oferta de comida. Mas fique tranquilo: não é preciso ser nenhum chef de cozinha para dar conta das receitas! Encontre o passo a passo para elas nos vídeos disponibilizados pela Embrapa. 

Meliponicultura pode estar aliada a pomares e plantações 

A meliponicultura não está restrita aos produtores caseiros. A prática se mostrou uma grande aliada a pomares e plantações. Uma vez que as plantas não são capazes de se locomover, as abelhas têm a função fundamental de realizar sua polinização, permitindo, assim, que as plantas se reproduzam. O maracujá, por exemplo, apenas terá sua reprodução com a presença de mamangavas nos pomares. A polinização também resulta na produção de frutos mais vistosos e, portanto, mais rentáveis no mercado. Isso vale também para outras lavouras, como maçã, melão e soja.

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Esse fator é de extrema importância para acessibilidade dos alimentos, pois “quanto mais abelhas no ambiente, a gente vai ter um retorno, um ganho, até mesmo financeiro. Porque quando há maior oferta dos produtos no supermercado, a gente tem a diminuição dos preços.” – conclui Pedroso. Assim, fica evidente a importância das abelhas num cenário nacional em que cerca de 40% da população, ou 33 milhões de brasileiros, não têm acesso pleno à comida, segundo dados do 2º Inquérito Nacional sobre a Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia

No Estado do Paraná há outro fator que gera maior necessidade da preservação de abelhas: a intensa presença de monoculturas. Nesse modelo de plantação, há apenas um cultivo e “quando o ciclo da planta acaba, elas (as abelhas) ficam sem alimento disponível. Então, pensando no Paraná, que é um estado altamente agrícola e tem grande extensão territorial de monocultura, como soja e milho, é esperado que haja uma população de abelha menor do que quando a gente compara com a região Norte do Brasil, que tem uma diversidade de plantas mais preservada.”

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É preciso entender que a conservação da natureza acontece em duas vias: ao mesmo tempo em que se resguardam as plantas para que as abelhas sobrevivam, é necessário proteger as abelhas para que plantas não entrem em extinção.

Por outro lado, o Paraná tem a vantagem de ser um estado muito organizado em relação à criação de abelhas, segundo o professor. A presença de coletivos, como a Associação dos Meliponicultores do Norte do Paraná, e de órgãos públicos, como a Câmara Técnica Setorial de Meliponicultura, da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, fornece suporte para o produtor. É por meio desses grupos que se promove o contato entre meliponicultores, o intercâmbio de conhecimentos e o desenvolvimento de políticas públicas no setor.

Além dos conglomerados oficiais, existem também diversos grupos nas redes sociais que unem os produtores. É nesses grupos em que eles compartilham dicas, mas também avisos caso haja alguma ameaça às abelhas da região, tais como o uso de fumacê ou o corte de árvores.

Oliveira relatou ter presenciado um caso em que uma empresa terceirizada pela prefeitura de Londrina erradicou uma árvore que era lar de abelhas. “Eu perguntei para onde essas abelhas iam” – conta – “Essas abelhas vão todas para incineração, ninguém tira. Eu falei: ‘Deixa eu salvar’. Ele disse: ‘não, a gente não pode”. O ideal seria que houvesse o resgate dessa colônia antes da retirada da árvore. “Eles matam as abelhas e fica por aquilo, um negócio que é protegido por lei, é crime ambiental”, destaca o meliponicultor, em referência à Lei Federal no 9.605/98, que proíbe a eliminação de enxames de abelha.