Era dezembro de 1964 e nosso pai, José Olegário de Castro, terminava sua gestão como prefeito de Sertaneja. Em seu lugar, tomava posse em janeiro do novo ano o nosso médico, amigo e compadre, Dr. Waldemar Scardazzi.

A cidade só contava com o primário - nas zonas urbana e rural - e com o curso ginasial. Os alunos que queriam continuar seus estudos, viajavam de Kombi todas as noites para Cornélio Procópio para fazer contabilidade. Em casa, éramos nove em idade escolar. Fazer o quê? Depois de muito pensar, conversar, discutir, nossos pais decidiram que mudaríamos para Assis (SP). Papai continuaria com todos os seus negócios em Sertaneja, porque era “um pulinho” a distância entre as duas cidades, 69 km.

Tudo acertado: o nosso caminhão estava em frente a nossa casa com a mudança coberta por encerado, pronto para sair. Mas caiu uma chuva tão forte que não teve jeito de viajarmos, uma vez que a estrada era de terra até a ponte do Rio Paranapanema, hoje Ponte Charles Naufal. Esperamos uns dois dias para o chão secar, o tempo firmar e, no dia 17 de fevereiro de 1965, mudamos para Assis. Eu me lembro bem porque fazia dois dias que o cantor Nat King Cole havia morrido. Que voz linda !! Ouçam “Fascination” e vão me dar razão.

A nossa casa ficava na Vila Xavier. A mamãe levantava cedinho e, com os documentos em mãos, ia procurar vagas nas escolas. Íamos juntos para revezarmos na fila. Ela conseguiu então, matricular o Sertão no segundo ano, os gêmeos Carlos e Beto no primeiro ano do primário; a Idivanda, o Édson e a Eliana no ginásio, todos no Ginásio Estadual da Vila Xavier. O ano letivo começava em março.

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No primeiro dia de aula, a mamãe levou os pequenos para a escola, que ficava a umas seis quadras de casa e explicou bem o caminho para eles. A escola não tinha muro e, quando bateu o sinal do recreio, o Carlos pensou que a aula tinha acabado, veio embora pra casa, mas se perdeu. Ficou caminhando a esmo pelas ruas a tarde toda, chorando. Quando terminou a aula, o Sertão e o Beto chegaram em casa sem o irmão. Saímos apavorados procurando o Carlos por toda Vila Xavier. E nada. Quando voltamos para casa, lá estava ele. Caminhara tanto e tinha ido parar perto de nossa chácara, cerca de um quilômetro dali. Uma senhora o reconheceu e levou-o de volta para nós. E nesse mesmo dia, a Eliana saiu do ginásio e foi parar num pequeno terminal de ônibus perto de casa. Mas seguiu andando pelo lado oposto. Andou, andou, voltou e chegando ao terminal, reconheceu a nossa rua e chegou em casa. Muita aventura para o primeiro dia de aula!

Demorou um pouco para acostumarmos com a rotina escolar e com a cidade grande (comparada com Sertaneja, é claro). Rimos muito quando recordamos aquele tempo.

icon-aspas "No primeiro dia de aula, a mamãe levou os pequenos para a escola, que ficava a umas seis quadras de casa e explicou bem o caminho para eles"

IDIMÉIA DE CASTRO, leitora da FOLHA

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