Se eu fechar os olhos, me lembro de cada detalhe. Todos os anos, agosto era o mês mais esperado do ano. Da tradicional festa na Colônia Esperança, na zona rural de Arapongas. Tempo de reunir os moradores em prol da igreja. Da união. Do amor.

Para o jantar no sábado e almoço e jantar no domingo, a preparação levava dias. A comida simples - arroz, salada de tomate, churrasco - mas preparada com tanto amor que sempre convidava todo mundo a voltar. A festa de agosto sempre atraiu milhares de pessoas.

Os homens, encarregados do churrasco, escolhiam os animais, abatiam, separavam, cortavam e preparavam o tempero - à base daquele vinagre castelo de embalagem pink, sal e pimenta - que seriam assados nos dias seguintes.

As mulheres, na cozinha, preparavam o arroz e a salada. Os mais jovens se revezavam em servir, no bar, no caixa, no aviãozinho - era uma roleta da sorte que nós, crianças, amávamos ficar girando e vê-la parar. Ali, naquele contexto, era apenas a divisão de tarefas. Não tinha essa de preconceito ou machismo. Era natural.

A Colônia Esperança nasceu Shin-Ai Shokuminchi (Colônia da Fé e do Amor), e é da época que as missas eram em latim. Depois, conforme as mudanças foram ocorrendo na igreja, ainda assim permaneceu uma “divisão” entre os moradores mais antigos. E cada um deles tinha lugar cativo. Mulheres assistiam à missa do lado esquerdo de quem entra pela porta principal, homens à direita.

Minha avó, a dona Ana - que achei quase uma infância toda que se chamava “Donana”, pelo jeito que as pessoas a chamavam - sentava no meio da igreja, perto do corredor central. Meu avô, seu Miguel, um pouco mais ao fundo. Os Makiyama, os Hasegawa... cada pessoa tinha seu lugar cativo.

Os filhos e netos, mais novos, assistiam à missa juntos, mais ao fundo. Meu pai tocava violão na equipe de liturgia. Ainda lembro, com alegria, das tantas vezes que ele ensaiava em casa, com a gente.

A igreja da Colônia Esperança é, de longe, uma das obras mais lindas do Brasil. Fruto dos esforços de uma comunidade que sempre lutou por ela - desde os esforços para a construção

As pessoas se dividiam em turnos para dar conta de todas as tarefas, mas, em geral, a semana antes da festa era dedicada à comunidade. Era sempre frio, mas quente em alegria. Muito trabalho e muito amor envolvido.

Quando pequena, a festa era a oportunidade de aproveitar o tempo para brincar com os amigos da escola e correr atrás das nuvens das paineiras. Como as propriedades nem sempre eram vizinhas, quase não tínhamos o costume de brincar com os amigos fora do horário escolar.

Muito tempo se passou. Anos e anos. E a festa não existe mais no mesmo formato. Muita gente se mudou de lá. Alguns foram para o Japão tentar a sorte. Outros foram estudar. Ou trabalhar. O fato é que a comunidade diminuiu muito. E não tem gente o suficiente pra organizar a mesma festa. E, também castigada pelo tempo, a antiga igreja de madeira, que era usada mais recentemente como salão de festas, também não existe mais.

A festa de agosto se tornou a Festa do Ovo e do Abacate, que valoriza dois dos produtos que são destaque por lá. Há mais opções de comida e bebida, pois restaurantes e lanchonetes variados vêm participar.

Ainda assim, com tanta mudança, a gente sempre volta. Faz 24 anos que não moramos mais lá. Mas é ali que a minha vida tem sentido. A vida pode dar muitas voltas. Mas quem vai, sempre acaba voltando para a Colônia Esperança, que surgiu como uma comunidade católica de japoneses no Brasil. E, desde sempre, é em torno da igreja que as pessoas se reúnem.

icon-aspas "Faz 24 anos que não moramos mais lá. Mas é ali que a minha vida tem sentido"

Larissa Ayumi Sato, jornalista do Grupo Folha

MAIS:

- 'É preciso trazer o conhecimento para dentro do erval'

- As matas não podem morrer!

- A importância do casqueamento em equídeos

mockup