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Folha Mais 5m de leitura Atualizado em 22/10/2021, 18:47

Tomada de poder pelos talibãs ameaça avanços e conquistas das mulheres no Afeganistão

PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de agosto de 2021

Marcos Martins - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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Entre 1996 e 2001, o movimento fundamentalista e nacionalista islâmico Talibã esteve à frente do poder no Afeganistão. O período foi difícil para as mulheres: o grupo impôs sua visão totalitarista da religião, que impõe uma série de censuras, como a proibição de estudar ou trabalhar. Na época, elas enfrentaram ainda punições brutais por violarem a Sharia, o sistema jurídico do Islã, formado por um conjunto de normas derivado de orientações do Corão, o livro sagrado. Como penalidade, eram açoitadas por mostrar um ou dois centímetros de pele sob sua burca de corpo inteiro, espancadas por tentarem estudar e apedrejadas até a morte se fossem consideradas culpadas de adultério. 

Mulheres afegãs conquistaram espaço nos últimos 20 anos

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Um certo alívio veio quando os extremistas foram derrubados do poder durante a invasão dos Estados Unidos no país, em 2001 – uma resposta aos ataques de 11 de setembro, com o objetivo de desmantelar o grupo Al-Qaeda, evitando uma base segura de operações dos terroristas no Afeganistão. No entanto, os radicais mantiveram controle e influência em grande parte do país, especialmente nas zonas rurais e montanhosas. A nova república afegã dependeu diretamente da ajuda econômica e militar dos americanos. Com o início da retirada dos Estados Unidos do país, em 2020, o exército afegão entrou em colapso e o governo começou a desmoronar. Aos poucos, o Talibã foi dominando novos distritos do país, até invadirem a capital Cabul, nas últimas semanas, reassumindo o poder.

Durante os 20 anos de permanência americana no território, as mulheres conquistaram grande espaço. A presença delas tornou-se comum nas universidades e nos postos de trabalho. No início do ano, 27% das cadeiras no Parlamento nacional eram ocupadas por mulheres. Mas, ainda em 2020, uma atmosfera de medo passou a pairar por lá. O Talibã e o governo afegão, apoiado pelos Estados Unidos, mantiveram negociações de paz no ano passado. Durante o período, mulheres trabalhadoras foram mortas em uma brutal onda de ataques. A situação piorou e, no último mês de março, três funcionárias de uma emissora de televisão e rádio foram baleadas na cidade de Jalalabad. A morte das jovens, que tinham entre 17 e 20 anos, ocorreu menos de três meses após o assassinato de uma das apresentadoras da mesma emissora. No início de julho, os escritórios do Banco Azizi, em Kandahar, foram invadidos e nove mulheres, que trabalhavam lá, foram obrigadas a sair. Enquanto eram expulsas, foram informadas de que parentes do sexo masculino assumiriam seus lugares. Com o país nas mãos do Talibã, as mulheres com carreiras profissionais temem ser punidas e até mortas em retaliação às conquistas das duas últimas décadas.

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Nas ruas, os efeitos da mudança de poder já são sentidos. Vitrines de lojas com imagens de mulheres sem véu, maquiadas e com vestidos de festa, foram arrancadas ou cobertas com tinta. Para saírem de casa, as mulheres são obrigadas a usar burca, cobrindo completamente o corpo, com uma treliça estreita à altura dos olhos, e têm de ser obrigatoriamente acompanhadas por um homem. Em uma entrevista ao site britânico “inews”, a prefeita da cidade de Maidan Shahr, Zarifa Ghafari, de 27 anos, primeira mulher a ocupar o cargo na história do país, falou do sentimento de apreensão. “Estou sentada aqui esperando eles chegarem. Não tem ninguém que possa ajudar a mim ou minha família. Estou aqui com minha família e meu marido. E eles vão vir atrás de pessoas como eu e me matarão. Não posso deixar minha família. Mas, para onde eu iria?”, lamentou. 

Em depoimentos às agências de notícias, jovens afegãs relatam pavor e desesperança. “Eu tinha muitos planos para o meu futuro, mas agora não posso trabalhar nem ir para a universidade. Não sei como será nosso amanhã. Isso me fez perder a esperança. Estou procurando uma maneira de sair do Afeganistão porque não há futuro para as mulheres aqui”, desabafou uma estudante de Ciências da Computação da Universidade de Cabul.

Ao assumir o poder, o grupo disse que as mulheres podem trabalhar, desde que “o façam dentro de uma estrutura islâmica”. O ceticismo internacional, no entanto, predomina, já que, entre as exigências do Talibã, está a de que homens e mulheres, que não são da mesma família, não podem ficar em uma mesma sala. Zabihullah Mujahid, porta-voz dos talibãs, afirmou, por exemplo, que as jornalistas ainda podem praticar sua profissão, desde que sigam ainda outras regras, como usar o niqab – um véu que cobre o rosto e só revela os olhos – e não se envolver com homens fora de sua família. Mas impedir que mulheres repórteres falem com homens, ou até que fiquem na mesma sala que eles, é algo que praticamente inviabiliza o trabalho das jornalistas. Ou seja, na prática, dizem que não proíbem, proibindo.

Um documento elaborado do Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos aponta que a visão do grupo insurgente não mudou muito desde a época que esteve no poder. “O Talibã permanece amplamente consistente em sua abordagem restritiva aos direitos das mulheres e atrasaria muito do progresso das últimas duas décadas se o grupo recuperasse o poder nacional”, traz o relatório. “Se o Talibã for novamente a potência dominante no Afeganistão, avaliamos que qualquer possibilidade de moderar as políticas do grupo em relação às mulheres residiria na capacidade das minorias étnicas de manter as especificidades locais e o desenvolvimento tecnológico, como a maior abertura ao mundo a partir do uso de telefones celulares”, continua o relatório, assinalando ainda que o progresso dos últimos 20 anos “é frágil e desigual e depende fortemente de pressões internacionais, o que sugere que está ameaçado pela retirada de forças estrangeiras”.

Desde a retomada do Talibã há um retrocesso nas conquistas de direitos das mulheres

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|  Foto: iStock
 

A socióloga Rosa Sanches ataca a postura dos Estados Unidos. “É revoltante elaborarem um documento assim e, mesmo concluindo que era grande a ameaça para as mulheres após a saída deles do país, nenhuma medida de apoio foi tomada. Lavaram as mãos, deixaram as afegãs à própria sorte. Elas são consideradas invisíveis, objetos para os radicais, e os americanos não se preocuparam com isso”, critica.

Pressionado devido à saída das tropas americanas do Afeganistão, apontada como um dos motivos do retorno do Talibã, o presidente dos Estados Unidos defendeu a medida. Em um pronunciamento, Joe Biden repetiu que uma hora a presença americana no Afeganistão precisaria acabar, e que os Estados Unidos não podem ser responsáveis pela “construção de um país”. O presidente americano também voltou a criticar um acordo feito com o Talibã pelo antecessor, Donald Trump, nos acordos de Doha, em 2019. Trump acordou com o Talibã que as tropas americanas sairiam do Afeganistão até maio de 2021 mas, antes disso, reduziu a presença dos militares no país.

Já a chanceler alemã, Angela Merkel, observou que todas as potências são responsáveis. “Todos nós, e eu também assumo a responsabilidade por isso, avaliamos erroneamente a situação. As coisas se aceleraram. O exército afegão não ofereceu resistência por alguma razão, ou ofereceu pouca resistência. Nós fizemos uma avaliação errada e não foi apenas uma avaliação errada da Alemanha, mas algo generalizado”, discursou Merkel. No entanto, nenhuma medida de apoio às mulheres foi anunciada. A ativista educacional Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz, usou as redes sociais para pedir ajuda das potências globais. “Assistimos em completo choque enquanto o Talibã assume o controle do Afeganistão. Estou profundamente preocupada com mulheres, minorias e defensores dos direitos humanos. Poderes globais, regionais e locais devem pedir um cessar-fogo imediato, fornecer ajuda humanitária urgente e proteger refugiados e civis”, escreveu Malala.

O porta-voz dos talibãs disse que a nova liderança não quer criar inimigos na comunidade internacional e que o movimento radical islâmico vai proteger o Afeganistão, garantindo que não são movidos por qualquer desejo de vingança. “Queremos a paz no Afeganistão. Aqueles que foram para o aeroporto por medo e ainda estão à espera de deixar o país não serão prejudicados se voltarem para casa”, prometeu Zabihullah Mujahid.

 

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Enquanto isso, o caos segue no país, com milhares de pessoas tentando fugir. Na última semana, militares americanos descobriram restos humanos no trem de pouso do avião invadido por afegãos em pânico, no aeroporto de Cabul. No entanto, a Força Aérea dos Estados Unidos não informou um número total de mortos, nem confirmou relatos de que uma pessoa teria sido esmagada pelas rodas da aeronave durante o procedimento de decolagem.

Preocupados com a segurança das mulheres de suas famílias, os afegãos fazem o que podem. Houve até uma corrida entre os homens para comprar burcas para esposas, filhas e outras mulheres próximas, já que pressentem que, daqui para frente, vestir o traje pode ser a única maneira de as deixarem seguras. “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. A vigilância deve ser constante”. O mundo prova cada vez mais que a frase da escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir, dita no século XX, permanece atual. “No Afeganistão, vemos os direitos das mulheres serem atacados com mais agressividade, aqui no Brasil temos a misoginia muitas vezes velada, muitas vezes escancarada. O fio condutor é o mesmo: o preconceito, a desigualdade, o machismo enraizado na sociedade. É triste, mas é a realidade. Precisamos continuar lutando, com força cada vez maior. E a sociedade como um todo precisa entender esse desafio, principalmente os homens”, afirma a socióloga Rosa Sanches.

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