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Folha Mais 5m de leitura Atualizado em 18/08/2021, 19:40

A nossa memória é confiável?

O Efeito Mandela está aí para confirmar que, nem sempre, pode apegar-se a uma lembrança

PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de agosto de 2021

Ana Júlia Gabas - Estagiária*
AUTOR autor do artigo

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Os Jogos Olímpicos de Tóquio trouxeram conquistas inéditas para o Brasil, entre elas, a primeira medalha olímpica da história na ginástica artística feminina com a atleta Rebeca Andrade. Ao ser anunciado esse feito, muitos ficaram surpresos em saber que a ex-ginasta Daiane dos Santos não havia conquistado uma medalha antes de Rebeca. Todos tinham claro em suas memórias que já haviam visto a ex-ginasta subir no pódio olímpico. Ver a Daiane campeã, de fato, aconteceu, só que, na verdade, o que viram foi ela indo ao pódio no mundial de ginástica, uma competição diferente dos jogos, mas que pelo fato dela ter ganhado e por ela ter sido uma excelente atleta, associaram isso a ela também ter levado uma medalha quando disputou as Olimpíadas em Atenas. Esse surto de uma memória equivocada não é um caso isolado e caracteriza o que pode ser chamado de Efeito Mandela.

Imagem ilustrativa da imagem A nossa memória é confiável?
|  Foto: iStock
 

O caso que deu esse nome ao fenômeno começou com Fiona Bromme, uma pesquisadora de fenômenos sobrenaturais norte-americana, que acreditava que Nelson Mandela havia morrido na prisão nos anos 1990 - na verdade, o ex-presidente da África do Sul morreu em 2013, por a uma infecção pulmonar. Em 2010, quando foi a uma Comic Con, Bromme compartilhou com seus amigos seu estranhamento de Mandela ainda estar vivo e ficou surpresa ao saber que alguns também acreditavam que o líder sul-africano havia morrido na prisão. Um outro exemplo brasileiro para o Efeito Mandela ocorreu em 11 de setembro de 2001. Muitos acreditam que a transmissão de Dragon Ball Z foi interrompida para dar lugar a cobertura da queda das torres gêmeas, porém, naquele dia, o plantão começou às 9h da manhã e a TV Globinho nem chegou a ir ao ar.  

Fiona Bromme criou duas teorias para explicar o fenômeno, uma delas é que esses fatos realmente aconteceram, só que em uma dimensão paralela e as pessoas podem transitar entre essas dimensões. É como se o episódio de Dragon Ball Z fosse realmente transmitido, só que em um universo alternativo, e não nesse de agora. Outra teoria é de que ocorreu uma “falha na Matrix”, que estaríamos em uma realidade controlada por máquinas e isso não passou de um bug. 

Apesar de serem teorias que dariam grandes roteiros de filmes, alguns até já consagrados nas telonas, existe uma explicação mais plausível na neurociência, e também na psicologia, para o Efeito Mandela: são apenas memórias falsas, uma combinação que o cérebro faz entre fatos que realmente aconteceram e informações modificadas. 

Antes de entender o porquê disso acontecer, é necessário entender como as memórias são formadas no cérebro humano. Quando se experiência algo, essa experiência é convertida em um pulso de energia elétrica que percorre uma rede de neurônios até chegar no hipocampo, uma das partes do cérebro responsável por distribuir esses pulsos de energia até as outras regiões corretas de armazenamento do cérebro. “O hipocampo funciona como uma memória RAM -  explica a neurologista e doutora em epilepsia Elaine Keiko Fujisao - ela é uma memória de trabalho e de curta duração, ela vai mandar esses pulsos para outros lugares do cérebro para formar a nossa memória de longa duração”. 

As falsas memórias são formadas no processo de buscar essas lembranças que estão em áreas específicas do cérebro. “Quando você vai acessar uma memória antiga, é como se você pegasse um xérox”, exemplifica a doutora Fujisao. A analogia do xérox feita pela doutora é excelente para explicar tal fato: é como se você buscasse a memória original, que foi do momento que aconteceu, e tirasse um xérox, só que esse xérox pode vir com defeito, pode ter uma falha, um buraco na folha e, para suprir essa informação que falta, é como se pegasse uma caneta e escrevesse o que você acha que está faltando. “Tanto o hipocampo quanto as outras partes do cérebro vão tentar preencher as lacunas desses xérox que não estão bem organizadas. E se tivermos, por exemplo, uma opinião externa de uma outra pessoa nos influenciando, ou se relacionarmos essa memória com uma outra semelhante, a gente pode, sim, modificá-la” - completa.

Quando interferem na realidade 

O problema das falsas memórias se dá quando elas influenciam algo mais grave, como em sentenças criminais. É o que explica Elizabeth Loftus, psicóloga cognitiva americana especializada na memória humana e quem, há mais de 30 anos, conduziu vários estudos sobre a memória humana. Em um TED Talk, Loftus mostra como o sistema de reconhecimento facial, utilizado pela vítima para reconhecer o criminoso em casos de assassinato ou estupro, não é 100% confiável e, na maioria das vezes, acaba condenando a pessoa errada. Isso porque, segundo a psicóloga, as nossas memórias podem ser alteradas de acordo com o  estado emocional do momento, do tempo decorrido do episódio, dos preconceitos e com a influência cultural. 

Nos Estados Unidos, existe um projeto chamado The Innocence Project (em português, “O Projeto da Inocência”) que é responsável por inocentar pessoas - que foram enganosamente incriminadas - com base em testes de DNA coletados em amostras de sangue ou outros fluidos corporais. Em mais de centenas de condenações anuladas em 2020 pelo teste de DNA, 69% delas envolviam reconhecimento ocular de suspeitos.

“Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, esta se dispersa e se recolhe, vem e vai”, já diria o filósofo Heráclito de Éfeso. E isso também vale para as nossas memórias, elas vêm e vão e podem mudar pelo caminho. O que resta é fazer como a doutora Fujisao e desapegar: “como eu trabalho com isso, eu já nem sou muito apegada a minha memória, porque eu sei que ela pode me enganar”.

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