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Atualizado em 24/05/2019, 21:00

'O que mudou a minha vida foi o caminhão'

Mãe de quatro filhos, caminhoneira se divide entre família e a vida na estrada

PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de maio de 2019

Erika Gonçalves - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

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Sheila Marchiori, 36, tem mais de um milhão de seguidores no YouTube: "Meu caminhão é a prova de que eu não estava errada.” Sheila Marchiori, 36, tem mais de um milhão de seguidores no YouTube: "Meu caminhão é a prova de que eu não estava errada.”
Sheila Marchiori, 36, tem mais de um milhão de seguidores no YouTube: "Meu caminhão é a prova de que eu não estava errada.” |  Foto: Arquivo Pessoal

Desde criança a caminhoneira Sheila Rosa Marchiori, 36 anos, era apaixonada por caminhões e sonhava em dirigir um, que tivesse seu nome no baú. De família muito humilde, ela conta que foi trabalhando como faxineira que conseguiu o valor necessário para pagar por sua habilitação. “Não sei de onde veio isso, eu não tinha ninguém na família que fosse caminhoneiro. Aliás, até hoje minha família não aceita o mundo do caminhão, acha muito perigoso. Mas eu gostava e queria ser caminhoneira. Já comecei dirigindo um, há nove anos, na mesma empresa onde estou até hoje”, explica.

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. |  Foto: Arquivo Pessoal

Mãe de gêmeos de 19 anos, uma adolescente de 17 e um bebê de 2 anos, Marchiori divide com o marido a paixão pela boleia. Ele também é caminhoneiro e, fazendo rotas semelhantes, o encontro do casal acontece em casa e nas estradas. “Ele é autônomo, toda semana nos encontramos durante as viagens. Já andei por 70% do País, mas hoje faço Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais”, explica ela, que trabalha carregando frutas e verduras em um baú refrigerado. No dia da entrevista, uma sexta-feira, ela tinha parado para almoçar em Ribeirão Preto (SP) e estava a cerca de 1.200 quilômetros de casa.

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. |  Foto: Arquivo Pessoal

Morando no interior do Rio Grande do Sul, Marchiori afirma que fica até 30 dias longe da família e conta com o auxílio da cunhada para cuidar do caçula durante sua ausência. Não bastassem as viagens, depois de deixar o caminhão ainda é preciso vencer os 500 quilômetros que separam a sede da empresa de sua casa. A rotina dos filhos é controlada e vivenciada com a ajuda da tecnologia. “Hoje meu marido está em casa com o bebê e nos vimos por uma chamada de vídeo durante o almoço. Quando estou em casa ele fica o tempo todo comigo, se vou no salão ele está no meu colo”, diz, se referindo ao filho.

Buscando ficar mais tempo com os filhos ela acabou de comprar um caminhão e irá trabalhar de forma autônoma. “É uma vitória, quero poder ir mais para casa. Esperei por causa da crise, mas acho que o momento é agora. O medo não te leva a lugar algum”, filosofa.

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CANAL NA INTERNET

Foi também buscando aumentar a renda familiar que há cerca de dois anos Marchiori criou um canal no YouTube, seguindo o conselho de um amigo caminhoneiro. São mais de 1.200 milhão de inscritos, que acompanham seu dia a dia nas estradas. “Pensei que seria mais uma forma de ajudar minha família. Hoje me acostumei a fazer os vídeos. Cerca de 80% dos meus seguidores são crianças, adolescentes, pessoas de idade, pessoas que sonhavam em ser caminhoneiras”, diz.

Vivendo em um mundo bastante masculino, ela conta que é bastante respeitada e nunca teve problemas com assédio ou algo do tipo. Em nove anos de estrada, Marchiori fez várias amizades, tanto com outros caminhoneiros como pelos lugares em que passou e também pelas redes sociais. Ela conta que até ganhou um afilhado no Espírito Santo.

“Tem muitas pessoas que vou visitar, levo minhas roupas para lavar, elas levam janta para mim no caminhão. Nessa vida, sozinha a gente não é ninguém. Pena que alguns não consigo visitar mais, já que mudou a minha rota”, lamenta.

Apesar da rotina puxada e dos longos períodos longe da família, Marchiori não pensa em parar tão cedo. Com a filha prestes a entrar na faculdade e um caminhão para pagar, a caminhoneira sabe que serão muitos quilômetros a serem percorridos pelas estradas do Brasil. “Minha filha quer estudar Direito, quer ser delegada. Os meninos ainda não se decidiram. Sonho com eles trabalhando comigo, se não no caminhão, cuidando da empresa. Minha família era muito, muito pobre. O que mudou minha vida foi o caminhão, você tem que acreditar. Nada é impossível. Meu caminhão é a prova de que eu não estava errada.”