NOSSO AR| Protagonista de vários debates, o oxigênio que respiramos nunca esteve tanto em pauta como nos últimos meses


Patricia Maria Alves - Grupo Folha
Patricia Maria Alves - Grupo Folha

Na última semana, o ex-policial Derek Chauvin foi condenado pela morte de George Floyd, homem negro sufocado durante uma abordagem descabida em maio do ano passado, em Mineápolis, nos Estados Unidos. Floyd teve o pescoço pressionado pelo joelho de Chauvin por 9 minutos e 29 segundos. Toda a ação foi filmada por pessoas que passavam pelo local. Durante parte do tempo, ex-segurança negro, de 46 anos, que teria tentado pagar uma conta em uma mercearia com uma nota falsa de US$ 20, reagiu com a frase: “I can't breathe”. Em português, “eu não posso respirar”. O momento chocou e causou indignação e protestos em vários países. A condenação do ex-policial em júri popular fez justiça no caso e foi considerada uma importante vitória contra a violência racista no mundo.


 

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Desde o início do ano, a segunda onda da pandemia do novo coronavírus elevou exponencialmente casos e mortes pela Covid-19. Como consequência, hospitais de várias regiões brasileiras ficaram sem um elemento básico: os cilindros de oxigênio. Manaus foi a primeira capital a sofrer com o problema. Documentos obtidos pelo Ministério Público do Amazonas indicam que 31 pessoas morreram por falta de oxigênio, ou seja, asfixiadas na cidade nos dias 14 e 15 de janeiro, quando a capital atingiu o ápice da falta do insumo. O Pará também foi afetado. Sete pessoas da mesma família morreram num hospital do estado, que ficou sem tanques de oxigênio. O alerta sobre o problema – que se alastrou pelo país – já havia sido dado meses antes, o que colocou diversas autoridades na mira de investigações sobre as responsabilidades. Assim como no caso americano, as mortes por asfixia poderiam ter sido evitadas. “Nesses tempos de pandemia, nós estamos vendo como a falta de solidariedade levou o Brasil talvez a chegar a esses tristíssimos números de mortos e contaminados”, afirmou a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia. Não só falta de solidariedade, mas também de planejamento.

 

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Em comum, nos dois casos, o terrível ato doloso de impedir alguém de respirar, seja por meio da violência ou pela negligência de autoridades. Os acontecimentos nos fizeram pensar no ar de forma jamais vista anteriormente. A matéria invisível e imperceptível, indispensável para nossa vida, transformada absurdamente em riqueza escassa e almejada. E quando se pensa no planeta, com desmatamentos, queimadas e poluição, talvez a humanidade esteja se colocando em um futuro perigoso. De acordo com o Banco Mundial, a poluição do ar custa à economia global mais de US$ 5 trilhões por ano em custos de bem-estar e US$ 225 bilhões em renda perdida. Um estudo de 2016 da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) prevê que, se a situação permanecer inalterada, até 2060 os custos anuais globais de bem-estar das mortes prematuras por poluição do ar externo seriam de US$ 18 trilhões a US$ 25 trilhões, com os custos da dor e do sofrimento provocados por doenças estimados em cerca de US$ 2,2 trilhões.


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Há ainda outros impactos indiretos. O nível do ozônio no solo pode derrubar o rendimento das culturas básicas de alimentos em 26% até 2030, gerando desafios de segurança alimentar e nutrição. “A qualidade do ar é refletida em diversos aspectos da nossa vida. Vai desde nossa saúde, no dia a dia, até outros impactos ambientais e ecológicos que podem nos ameaçar seriamente no futuro”, alerta a ambientalista Sônia Albuquerque. Parece filme de ficção, mas não é.


 

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Embora seja um problema do presente e do futuro, a poluição do ar vem dos tempos da Roma Antiga. Na época, por exemplo, as pessoas já queimavam madeira, o que trazia problemas para moradores de diversas vilas. Mas foi com a Revolução Industrial, no século XIX, que a ação do homem interferiu de vez na qualidade do ar. A intensidade da combustão de carvão aumentou de modo absurdo, principalmente na Grã-Bretanha, gerando toneladas de poluição atmosférica. Como resultado, a população sofria com doenças respiratórias que causaram milhares de mortes na época. 


No século seguinte, a ação do homem seguiu desequilibrando o meio-ambiente. Um dos episódios mais marcantes foi o “Nevoeiro de 1952”, também chamado de “Big Smoke”. Entre os dias 5 e 9 de dezembro de 1952, Londres ficou encoberta devido ao crescimento incontrolado da queima de combustíveis fósseis na indústria e nos transportes. O fenômeno foi considerado como um dos piores impactos ambientais até então, causado a morte de 12 mil londrinos e deixado outros 100 mil doentes. 


A poluição do ar afeta todos os órgãos do corpo, sendo hoje responsável por um em cada sete novos casos de diabetes. “Há problemas de curto prazo, como asma, bronquite e irritação da garganta e das mucosas, até outros problemas que podem ser decorrentes, como malformação de bebês em gestação, doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais e outras doenças respiratórias severas”, explica o pneumologista Afonso Alves. 


De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 7 milhões de mortes prematuras, a cada ano, podem ser atribuídas à poluição do ar. As crianças são grandes vítimas – em torno de 600 mil morrem anualmente. No mundo, até 93% de todas as crianças respiram ar que contém concentrações mais elevadas de poluentes do que a OMS considera seguras para a saúde humana. “É um problema sério e que torna-se ainda mais urgente a cada dia. Todos precisam se engajar na busca por soluções”, afirma Sônia Albuquerque.

 

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Mas como resolver o problema? A análise dos meses de pandemia pode apontar alguns caminhos. Enquanto as pessoas ficaram em casa para evitar a contaminação pelo novo coronavírus, a qualidade do ar apresentou melhoras significativas em várias partes do mundo. A Universidade de Toronto, no Canadá, divulgou um estudo em abril de 2020, revelando que o nível de poluição atmosférica diminuiu 40% em Wuhan, Hong Kong, Kyoto, Milão, Seul e Xangai. Em São Paulo, a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) detectou que a menor circulação de carros, motos e ônibus na capital paulista causou uma melhora na qualidade do ar. Entre os dias 20 e 30 de março de 2020, todas as 29 estações de monitoramento da cidade registraram qualidade do ar “boa” para poluentes primários, aqueles emitidos diretamente por fontes poluidoras, como os meios de transporte. Como uma grande parte dos veículos deixou de circular, ficou evidente a diminuição da concentração de monóxido de carbono e dos óxidos de nitrogênio.


Em Brasília, imagens de satélite evidenciaram queda de dióxido de nitrogênio. Belo Horizonte apresentou melhoras em PM 2,5 (formado por partículas cujo tamanho chega até 2,5 micrômetros e pode ser encontrado em nevoeiros e na fumaça) e dióxido de nitrogênio. Na cidade do Rio de Janeiro, o ar também teve reduções significativas nos níveis de monóxido de carbono e dióxido de nitrogênio. Já em Fortaleza, um levantamento conduzido por cientistas da UECE (Universidade Estadual do Ceará) apontou a redução de 50% nos níveis de gás ozônio.


 

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“A análise desse período nos indica pontos importantes e que podem ser explorados e aprofundados na busca da redução da poluição e melhora na qualidade do ar. Mas essa preocupação precisa ser uma política pública, de meio ambiente e de saúde, um dever de governos e sociedade. Uma ação conjunta desses atores com pesquisadores, para apontar soluções para os problemas que vemos hoje e para que os que podem surgir no futuro sejam mitigados”, opina Albuquerque. 


Preocupados com o tema, mais de 40 países participaram, esta semana, de forma virtual, da Cúpula de Líderes sobre o Clima, organizada pelo governo dos Estados Unidos. O evento faz parte dos esforços da gestão do presidente americano Joe Biden para cumprir promessas de campanha e recuperar a imagem do país após o governo de Donald Trump, que foi desastroso para o clima. Entre os temas debatidos, a volta dos EUA nas discussões internacionais sobre o clima, novas metas na redução de emissões dos EUA até o fim da década, financiamento para projetos de países em desenvolvimento e a preparação para a COP26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática), que será realizada em novembro. Para o Brasil, a Cúpula foi mais uma oportunidade para mudar a imagem de sua criticada política ambiental.



 

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