A literatura infantojuvenil contemporânea vive um momento de grande diversidade temática e inovação estética. Ao mesmo tempo em que dialoga com novas tecnologias e linguagens, enfrenta o desafio de formar leitores na era digital.

Para a professora Sonia Pascolati, docente do Departamento de Letras Vernáculas e do Programa de Mestrado Profissional em Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a produção atual destinada às crianças e aos adolescentes demonstra um amadurecimento significativo. “A literatura infantojuvenil contemporânea é de uma riqueza impressionante, uma diversidade temática muito grande, uma literatura que tem um respeito pela criança como ser pensante, o que acho fundamental”, afirma.

Segundo ela, as editoras também têm investido fortemente em projetos gráficos inovadores. “Há muitos livros que são livros sinestésicos. Eles estão trabalhando com o som, com a imagem em movimento, com a interação do leitor e tudo isso no formato impresso”, explica.

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Os recursos característicos do ambiente digital, como a interatividade e a possibilidade de escolhas por parte do leitor, vêm sendo incorporados ao livro físico.

Pascolati acredita que a leitura não deve entrar na disputa entre literatura e redes sociais. “A literatura não tem que competir com rede social. Ela é outra coisa”, disse.

Dados recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil apontam queda no número de leitores. “Pela primeira vez, infelizmente, o Brasil inverteu a proporção. Os não leitores têm um percentual mais alto que os leitores. Nós temos mais de 50% dos brasileiros entrevistados dizendo: ‘eu não leio’. Isso é preocupante”, afirma a docente.

Nesse contexto, a escola continua desempenhando papel central. A professora observa que o incentivo à leitura costuma ser forte na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, mas perde força ao longo da trajetória escolar.

“Quando a gente vai para o Fundamental II e para o Ensino Médio, isso vai morrendo gradativamente”, afirma.

Outro fator apontado por ela é o enfraquecimento das bibliotecas escolares. “Há muitas escolas em que o livro fica escondido da criança, o que já é um pecado mortal. E outras escolas em que a biblioteca tem desaparecido.”

LEITURA POR IMAGENS

As transformações na literatura contemporânea também modificaram o próprio conceito de leitura. Para Pascolati, a compreensão atual exige uma visão mais ampla do que significa ser leitor. Ela destaca que uma criança ainda não alfabetizada pode compreender uma narrativa por meio das imagens. “A partir da leitura das imagens, ela consegue fazer a leitura daquela narrativa. Ela constrói uma história a partir das figuras que vê desenhadas.”

Nesse sentido, ganha importância o conceito de multiletramentos, que considera diferentes linguagens e formas de produção de sentido. Livros que exploram texturas, sons e recursos visuais ampliam as possibilidades de leitura e interpretação. “O leitor é aquele que consegue olhar para um objeto e atribuir sentido a ele”, resume.

A combinação de texto e ilustração também passou por profundas transformações.

Segundo a professora, muitos autores e ilustradores desenvolvem seus projetos em parceria, criando obras em que palavra e imagem dialogam constantemente.

Ela cita a obra "Fita Verde no Cabelo", adaptação de um conto de Guimarães Rosa ilustrado por Roger Mello. Enquanto o texto sugere uma menina, a imagem apresenta uma personagem mais próxima da adolescência, ampliando os sentidos da narrativa e reforçando temas como amadurecimento e finitude.

Contação de hoistórias na Bibilioteca Infantil de Londrina: função essencial é formar leitores e garantir que novas gerações descubram o prazer da leitura
Contação de hoistórias na Bibilioteca Infantil de Londrina: função essencial é formar leitores e garantir que novas gerações descubram o prazer da leitura

TEMAS COMPLEXOS PARA LER O MUNDO

Outro traço marcante da literatura contemporânea é a abordagem de temas considerados delicados, como luto, separação dos pais, desigualdade social e diferentes configurações familiares. “Tudo que for da ordem do humano, da vida, é tema para a criança”, afirma Pascolati.

Ela destaca que a literatura pode ajudar crianças e adolescentes a compreenderem experiências difíceis e inevitáveis. “A criança perde um animalzinho de estimação, pode perder uma avó, por exemplo, e ela tem que lidar com o luto. A literatura pode ajudar muito nisso.”

A desigualdade social também aparece como tema relevante. “Trazer para a realidade da criança essa desigualdade social para ela começar desde jovem a entender qual é o lugar dela na produção dessa desigualdade, se ela é alvo dela ou se contribui para ela, eu acho isso muito interessante”, comenta.

Sonia Pascolati: “A literatura infantojuvenil contemporânea tem respeito pela criança como ser pensante, o que acho fundamental"
Sonia Pascolati: “A literatura infantojuvenil contemporânea tem respeito pela criança como ser pensante, o que acho fundamental" | Foto: Divulgação

Pascolati adota uma postura cautelosa em relação à literatura digital, apesar de reconhecer o potencial das novas tecnologias, “Tenho uma opinião mais conservadora a respeito dela”, admite. Segundo ela, os objetos literários digitais ainda não exploram plenamente as possibilidades do meio. “Percebo que eles ficam muito aquém, por incrível que pareça, daquilo que o livro impresso consegue realizar”, disse.

Ela avalia que a produção digital destinada ao público infantojuvenil ainda está em fase inicial de desenvolvimento. “Nós ainda estamos engatinhando muito na questão da literatura digital para crianças.” Para ela, o desafio está justamente em criar experiências que ultrapassem a simples reprodução das dinâmicas já presentes nas telas.

A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS RESISTE

Mesmo com a presença dos celulares, tablets e estímulos digitais, a contação de histórias continua despertando interesse e encantamento entre crianças e adolescentes. A pedagoga Renata Suzue Ogata, contadora de história da Biblioteca Infantil de Londrina, acompanha de perto a relação das novas gerações com os livros e afirma que “formar leitores desde a infância é um dos maiores desafios enfrentados pelas bibliotecas.

Para Suzue, o excesso de estímulos tecnológicos tem provocado cansaço mental e dificultado a concentração, mas há um movimento crescente de famílias que buscam alternativas mais analógicas para o desenvolvimento das crianças.

Renata Suzue Ogata, contadora de história da Biblioteca Infantil de Londrina: "Os livros oferecem experiências que as telas não substituem”
Renata Suzue Ogata, contadora de história da Biblioteca Infantil de Londrina: "Os livros oferecem experiências que as telas não substituem” | Foto: Divulgação

Ela destaca que profissionais da saúde, incluindo neuropediatras, têm recomendado o retorno a atividades como brincadeiras ao ar livre, brinquedos não estruturados e a leitura em papel. “O cérebro está esgotado de tanto estímulo. Voltar a escrever, desenhar e ler no papel ajuda a descansar a mente”, observa.

A contadora de história compara a formação do hábito da leitura à descoberta de novos sabores. Para ela, o mais importante é oferecer o contato com os livros. “Quando a gente oferece algo bom para a criança, não tem como não ver aquele olho brilhar”, diz.

O repertório apresentado inclui desde clássicos da literatura infantil até obras contemporâneas, sempre valorizando as referências que construíram a tradição literária.

A experiência diária na biblioteca reforça essa percepção. Crianças de diferentes idades participam das sessões de histórias e demonstram entusiasmo pelas narrativas.

O espaço também recebe visitantes de diversos municípios da região. “O que mais buscamos é desenvolver uma atitude de escuta. Quando a criança se envolve com a história, ela compartilha suas experiências e mostra o que sente de forma muito genuína”, afirma Suzue.

Para manter o interesse do público, ela utiliza recursos teatrais. Bonecos, marionetes, objetos reutilizados e elementos cênicos fazem parte das apresentações, mas deixam espaço na narrativa para a imaginação das crianças. Apesar dos recursos visuais, ela reforça que o principal protagonista continua sendo o livro. “A estrela é o livro. Se houver apenas uma toalha e um livro nas mãos, está tudo bem,” ressalta.

A pedagoga defende o papel da literatura contemporânea na formação cidadã. Para ela, os livros abordam questões éticas, sociais e filosóficas que estimulam o pensamento crítico desde a infância. Após as leituras, as crianças participam de debates sobre personagens, conflitos e escolhas apresentadas nas obras.

Segundo Suzue, um dos indicadores do sucesso do trabalho da Biblioteca Infantil é a participação das famílias. Ela afirma que muitas crianças e adolescentes fazem do espaço parte significativa de suas rotinas. “Isso é fazer cultura de verdade. As pessoas vêm porque desejam estar”, disse a contadora de história.

Em tempos de conexões digitais permanentes, ela acredita que “as pessoas estão sedentas por olhar nos olhos. Os livros ainda são procurados porque ajudam a criar vínculos, despertam a imaginação e oferecem experiências que as telas não substituem.” Para ela, a missão da Biblioteca Infantil permanece essencial, que é formar leitores, fortalecer a convivência e garantir que novas gerações descubram o prazer da leitura.

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