Um sonho para não esquecer com o fundador da Folha de Londrina
"Não vem com isso de me chamar de patrão, porque só me chamavam assim da boca pra fora, no mais muito me desobedeciam"
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sábado, 22 de agosto de 2026
"Não vem com isso de me chamar de patrão, porque só me chamavam assim da boca pra fora, no mais muito me desobedeciam"
Domingos Pellegrini 

Sonhei com João Milanez, o criador da Folha de Londrina. No sonho, chego à redação do jornal onde trabalhei lá nos anos 1970, com as pesadas máquinas de escrever sobre as escrivaninhas de madeira, e ali está datilografando ele que mal sabia escrever à mão, dizia com orgulho que era semiletrado “mas emprego um monte de escrevinhadores e até doutores”.
Pergunto o que está fazendo ali e com sua voz ranheta (“se eu tivesse voz bonita”, falou um dia, “tinha sido radialista”), ele responde:
- Tô aqui criando uma nova seção, Achados e Perdidos.
Falo que isso não é novidade mas ele pisca matreiro:
- Não são objetos achados e perdidos, são os perdidos na política e os que se acham redentores da república... Os perdidos na corrupção e os que conseguem achar mais burocracia pra infernizar a gente. Os achadores de soluções mágicas e os perdidos nos próprios problemas que criam, entende, inguinorante? Sabe o que é inguinorante? É quem tem tanta ignorância que chega a doer que nem íngua!
E ri que só, só fico olhando, e ele:
- Tá olhando o que? Pensa que fiquei louco, guri? Te vi entrar por aquela porta ali pra ser repórter aqui e depois virou escritor, mas não esqueça que aqui você teve seu primeiro emprego! E era de esquerda mas eu nunca empreguei ninguém vendo se era de direita ou de esquerda, só dizia que pra datilografar é preciso usar a mão esquerda e a direita, tá lembrado?
Me aponta seu dedo torto que quase foi cortado quando era carpinteiro:
- E sabe por que eu jogava bridge? Porque é jogo de gente inteligente! Você acha que um caboclo semi-arfabetado que nem eu ia conseguir parir um baita jornal se não fosse inteligente que só?
Ora, patrão, começo a falar, e ele:
- Não! Não vem com isso de me chamar de patrão, porque só me chamavam assim da boca pra fora, no mais muito me desobedeciam, uns escrevendo só com a mão direita, outros só com a esquerda...
E pisca:
- Assim o jornal dava voz a todo mundo, né, e pra quem me cobrasse a tal coerência eu podia me dizer traído por vocês... E fui patrão só do meu sonho de parir e tocar um grande jornal apesar de ser tido como inguinorante.
Ai suspira fundo e:
- Agora liga pro Walmor e diz pra ele chamar todo mundo que eu tenho umas ideias pra passar! Vamos lá, tá esperando o quê?!
Pego o telefone, um telefonão pesado e antigo de discar, ainda da antiga ITT antes dos telefones leves do Sercomtel, e ele volta a datilografar, logo parando pra perguntar se obsessão é com “b” sem “e”, né?
- Queria entender porque essa bestice das tais letras mudas, parece que só pra complicar, e você sabe, como diz o Celso Garcia, complicar é fácil, difícil é simplificar.
Volto a discar o telefone, ele volta a datilografar logo parando pra perguntar:
- E a danada da obsessão é com dois ésses ou dois cês?
Falo que não é secção, é sessão, portanto com dois ésses, e ele irritado:
- Ah, vou botar “mania” em vez dessa obseilaoquê, que tal? - e me mostra folha em branco, aí acordei, logo anotando tudo pra nada esquecer, quem diria, um sonho com João Milanez.


