Sonhei com João Milanez, o criador da Folha de Londrina. No sonho, chego à redação do jornal onde trabalhei lá nos anos 1970, com as pesadas máquinas de escrever sobre as escrivaninhas de madeira, e ali está datilografando ele que mal sabia escrever à mão, dizia com orgulho que era semiletrado “mas emprego um monte de escrevinhadores e até doutores”.

Pergunto o que está fazendo ali e com sua voz ranheta (“se eu tivesse voz bonita”, falou um dia, “tinha sido radialista”), ele responde:

- Tô aqui criando uma nova seção, Achados e Perdidos.

Falo que isso não é novidade mas ele pisca matreiro:

- Não são objetos achados e perdidos, são os perdidos na política e os que se acham redentores da república... Os perdidos na corrupção e os que conseguem achar mais burocracia pra infernizar a gente. Os achadores de soluções mágicas e os perdidos nos próprios problemas que criam, entende, inguinorante? Sabe o que é inguinorante? É quem tem tanta ignorância que chega a doer que nem íngua!

E ri que só, só fico olhando, e ele:

- Tá olhando o que? Pensa que fiquei louco, guri? Te vi entrar por aquela porta ali pra ser repórter aqui e depois virou escritor, mas não esqueça que aqui você teve seu primeiro emprego! E era de esquerda mas eu nunca empreguei ninguém vendo se era de direita ou de esquerda, só dizia que pra datilografar é preciso usar a mão esquerda e a direita, tá lembrado?

Me aponta seu dedo torto que quase foi cortado quando era carpinteiro:

- E sabe por que eu jogava bridge? Porque é jogo de gente inteligente! Você acha que um caboclo semi-arfabetado que nem eu ia conseguir parir um baita jornal se não fosse inteligente que só?

Ora, patrão, começo a falar, e ele:

- Não! Não vem com isso de me chamar de patrão, porque só me chamavam assim da boca pra fora, no mais muito me desobedeciam, uns escrevendo só com a mão direita, outros só com a esquerda...

E pisca:

- Assim o jornal dava voz a todo mundo, né, e pra quem me cobrasse a tal coerência eu podia me dizer traído por vocês... E fui patrão só do meu sonho de parir e tocar um grande jornal apesar de ser tido como inguinorante.

Ai suspira fundo e:

- Agora liga pro Walmor e diz pra ele chamar todo mundo que eu tenho umas ideias pra passar! Vamos lá, tá esperando o quê?!

Pego o telefone, um telefonão pesado e antigo de discar, ainda da antiga ITT antes dos telefones leves do Sercomtel, e ele volta a datilografar, logo parando pra perguntar se obsessão é com “b” sem “e”, né?

- Queria entender porque essa bestice das tais letras mudas, parece que só pra complicar, e você sabe, como diz o Celso Garcia, complicar é fácil, difícil é simplificar.

Volto a discar o telefone, ele volta a datilografar logo parando pra perguntar:

- E a danada da obsessão é com dois ésses ou dois cês?

Falo que não é secção, é sessão, portanto com dois ésses, e ele irritado:

- Ah, vou botar “mania” em vez dessa obseilaoquê, que tal? - e me mostra folha em branco, aí acordei, logo anotando tudo pra nada esquecer, quem diria, um sonho com João Milanez.

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