Ao recusar caminhos óbvios e apostar na inteligência do espectador, o longa-metragem “Nosso Segredo”, consagrado no último sábado (22) como melhor filme da principal mostra competitiva de cinema do Brasil, recusa uma narrativa de soluções óbvias e constrói sua trama sobre luto (a perda recente do patriarca de uma família de negros na periferia de Belo Horizonte) em experiencia poética e sensorial, transformando o que não é dito em silêncios acumulados sobre afetos e cicatrizes familiares.

A dinâmica doméstica parece comum nos primeiros instantes. Porém, aos poucos, detalhes inusitados quebram a sensação de normalidade. O aparelho de som segue ligado sem estar conectado à tomada, um líquido estranho escorre pelas paredes e a vizinha branca é deliberadamente impedida de entrar na casa.

ELEMENTOS LÚDICOS

Em vez de apostar no melodrama convencional, “Nosso Segredo” recorre a elementos lúdicos e fantásticos para materializar a dor que não encontra vazão em conversas. A casa que se deteriora, o surgimento inesperado de presenças simbólicas e as rupturas nas leis da física funcionam como manifestações do luto acumulado.

Para quem prefere histórias lineares e objetivas, o ritmo do filme pode parecer desafiador em vários trechos. Afinal, é uma proposta que exige abertura do público para absorver sensações sem a necessidade imediata de explicações didáticas para cada metáfora.

"Nosso Segredo": uma família tenta se reconstruir depois da morte do patriarca em drama que abraça o realismo fantástico
"Nosso Segredo": uma família tenta se reconstruir depois da morte do patriarca em drama que abraça o realismo fantástico | Foto: Divulgação

Em sua estreia na direção de longas-metragens de ficção, Grace Passô conduz um drama que flerta com o suspense e abraça o realismo fantástico para dar contornos físicos a essa dor reprimida. Um elenco afinado em sintonia, integrado por atores como Ju Colombo, Roberto Frank, Flip, Jéssica Gaspar, Marisa Revert, Juan Queiroz e o menino estreante Efraim Santos, carrega adiante uma trama que expõe os dilemas dessa família, assombrada por dificuldades econômicas e emocionais, pelos enfrentamentos da própria condição de negros e de inúmeras buscas que se manifestam de uma forma para cada um, homem ou mulher, jovem ou adulto.

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A EXPRESSÃO DO INCÔMODO

“Nosso Segredo” acerta ao articular essas dinâmicas sem ignorar que está narrando a história de uma família negra, permitindo que algumas questões sociais respinguem na família ou atravessem a narrativa porque não seria possível ser diferente. Mas o filme perde um pouco de seu elemento fantástico quando tenta materializar sua invenção de fábula. Mas há muito espaço para que “Nosso Segredo” seja um filme consistente e sensível, e que dialoga com a habilidade de Grace Passô de expressar incômodo e dor a partir dos espaços.

Atriz de filmes como “Praça Paris”, “No Coração do Mundo”, “O Dia que te Conheci”, “Temporada” e “O Filho de Mil Homens”, Grace entregou um filme denso, carregado de simbologia e capaz de gerar muitos debates. Essa complexa problemática humana, encharcada de uma peculiaridade brasileira, encontra uma tradução poderosa na trilha sonora especialmente composta pelo pianista e compositor pernambucano Amaro Freitas.

O filme estreia no Cine Villa Rica.

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