“As mulheres vivem em entornos hostis. Sempre estamos em um lugar onde nos sentimos em permanente ameaça. Lendo sobre a vida das mulheres, aprendi que o lugar mais perigoso não eram os parques de madrugada. O lugar mais perigoso para uma mulher é a sua própria casa.”

Essa fala foi pronunciada pela escritora colombiana Pilar Quintana durante sua passagem pelo Brasil para o lançamento de seu novo romance, “Noite Negra”. Ela participou de um debate na Feira do Livro que aconteceu em São Paulo na primeira semana de junho.

“Noite Negra”, lançado pela editora Companhia das Letras, traz a história de Rosa, uma mulher bem sucedida que resolve trocar a cidade grande para viver em uma pequena e isolada vila de pescadores. Ao lado do namorado, um gringo, compra um pedaço de terra e começa a construir um barraco no meio da natureza selvagem.

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Em pouco tempo o sonho de comunhão com a natureza, na beira da praia, com uma vida simples, se revela um pesadelo. Durante alguns dias o namorado se ausenta do lugar para renovar seu visto de permanência na Colômbia. Rosa permanece sozinha em um barraco precário em construção, sem portas ou janelas, sem energia elétrica, em dias de lua nova.

A natureza se torna hostil e brutal. Chuvas incessantes, pernilongos, formigas, cobras, aranhas, morcegos, cupins, lagartos, tempestades, calor e lama fazem da vida de Rosa um tormento. Ela não tem um minuto de tranquilidade. Paralelamente, homens que residem na região, ao vê-la sozinha, começam a assediá-la com intenções de abuso.

Pilar Quintana ficou conhecida no Brasil em 2020 quando seu romance “A Cachorra” foi publicado aqui, a obra aborda a maternidade de maneira desconcertante
Pilar Quintana ficou conhecida no Brasil em 2020 quando seu romance “A Cachorra” foi publicado aqui, a obra aborda a maternidade de maneira desconcertante | Foto: Carlos Zárrate/ Divulgação

NOVA ESCRAVIDÃO

A narrativa de “Noite Negra” começa como um dia de sol e lentamente vai escurecendo. A tensão que envolve Rosa ganha progressivamente tamanho e densidade.

Ao se sentir constantemente vulnerável e acuada, desenvolve a matéria prima para a paranoia. Não seria exagero dizer que Pilar Quintana cria uma atmosfera próxima de “Coração das Trevas”, clássico romance de Joseph Conrad: “Refugiada em uma selva horripilante, em uma casa sem portas, em uma noite sem luz, o tempo toda curvada de dor e com as mãos sobre um rombo que os homens abriram para evitar que suas entranhas se derramem.”

No meio de uma batalha psicológica, as atividades cotidianas se tornaram uma nova escravidão. Rosa percebe que sua é lavar louça, arrumar comida, lavar roupa, varrer a casa, tampar goteiras, carregar água, tudo diante de uma natureza exuberante: “A vida é tirar pó para que ele volte a se acumula outra vez.”

Encurralada diante de tantas ameaças, Rosa começa a pensar aquilo que toda mulher foi induzida a pensar: “Quem sabe tudo não passa de coisa da cabeça dela. Ou, quem sabe, não percebeu corretamente os sinais, ou fez alguma coisa errada, ou está ficando louca.”

TRAJETÓRIA DA AUTORA

Nascida em 1972, em Cali, Pilar Quintana ficou conhecida por aqui em 2020 quando a editora Intrínseca publicou seu romance “A Cachorra”, uma obra que aborda a maternidade de maneira desconcertante, trafegando entre a beleza e a brutalidade.

Clubes do livro de todo o país transformaram a obra em fenômeno literário. Em seguida, em 2022, a Intrínseca publicou “Abismo”, um romance em a passagem da infância para a vida adulta é desenhada como um precipício para as mulheres.

As páginas finais de “Noite Negra” estão carregadas de uma tensão contagiosa. O ambiente opressivo atinge seu ponto máximo e o leitor pode pensar em algum momento de paz. Mas não há a possibilidade de sossego. Como mulher, Rosa sempre viveu em um ambiente hostil, assim como sua mãe e sua avó. E a casa pode ser de madeira e tijolo, ou o próprio corpo.

Imagem ilustrativa da imagem 'Noite Negra" mostra mulheres sem refúgio num mundo hostil
| Foto: Divulgação

SERVIÇO:

“Noite Negra”

Autora – Pilar Quintana

Editora – Companhia das Letras

Tradução – Elisa Menezes

Páginas – 208

Quanto – R$ 69,90 (papel) e R$ 29,90 (e-book)

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