Livro traz a vida de um menino pelas vilas de Londrina
Singelo, comovente e afetivo, livro de estreia do jornalista Ney Inácio traz memórias da cidade de ontem que ecoam ainda hoje
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de setembro de 2026
Singelo, comovente e afetivo, livro de estreia do jornalista Ney Inácio traz memórias da cidade de ontem que ecoam ainda hoje
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 

Como vivia um garoto de 10 anos de idade na Vila Nova em 1964? Como brincava um moleque na Vila Brasil em 1964? Quais eram os dramas de um menino na Vila Recreio em 1964?
A resposta está no livro de estreia do jornalista londrinense Ney Inácio, “O Menino Que Virava do Avesso – Londrina 1964”. Após ser lançado na Bienal do Livro de São Paulo na semana passada, será lançado em Londrina na terça-feira (22), às19h, no Sesc Cadeião.
A obra traz um velho senhor, nos dias atuais, sentado na varanda de casa narrando suas memórias de infância pelas vilas de Londrina no ano de 1964. Além de retratar as memórias de infância do autor, “O Menino Que Virava do Avesso” também resgata a história da família que chegou em Londrina sonhando com o “ouro verde” e acabou povoando, como muitos, a periferia da cidade.
O relato de Ney Inácio preserva a vivência do moleque e, ao mesmo tempo, traz a reflexão do adulto visitando as memórias. O personagem principal, Kiko, aos 10 anos, experimenta a cidade através de uma coleção de amigos, das brincadeiras, das rebeldias, da dificuldade financeira dos pais, das aventuras dos irmãos mais velhos, das maluquices dos tios, das peripécias na escola, das quermesses e muito mais.
Segundo o autor, a obra é uma homenagem aos pioneiros anônimos de Londrina: “Todos aqueles que não viraram nome de rua, nem nome de praça, e nunca foram homenageados nas comemorações da cidade. São os seleiros, sapateiros, padeiros, carroceiros, tropeiros, pedreiros, charreteiros, carpinteiros, bucheiros e verdureiros. São as lavadeiras, domésticas, cozinheiras, parteiras e catadoras de café que criaram seus filhos com a garra de mulheres fortes e guerreiras.”
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Para Ney Inácio, “O Menino Que Virava do Avesso” foi criado para ser abraçado por qualquer tipo de leitor: “É livro popular. Escrevi como se fala, utilizei a oralidade do cotidiano. Traz histórias vividas por pessoas simples. Gostaria que as pessoas lessem o livro como se estivessem assistindo a um filme. Imaginando lugares, cenas e personagens. Imaginando uma Londrina antiga retratada num grande e lindo filme.”
A seguir, Ney Inácio fala do livro e da memória de uma cidade que não está registrada na história oficial.
Por que, em seu primeiro livro, você resolveu mergulhar nas memórias de infância?
A vida inteira eu ouvia as histórias que aconteciam em casa, toda a família sabia dos fatos. A gente ria, a gente se emocionava e o tempo passou. Dois anos atrás eu pensei muito bem no que meu pai falou pouco antes de morrer: “Nós viemos de Minas pra Londrina, tentamos a vida, não deu certo como a gente queria, não ficamos ricos, não ficamos milionários, igual nós um monte de gente. Será que valeu a pena? A gente nunca é convidado pra nada, nunca é chamado pra homenagens, só os ricões, né? A gente não deu certo nessa missão.” Minha mãe que estava ao seu lado, respondeu: “Olha Zé, eu acho que a gente tentou plantar café, tentou plantar milho, tentou plantar um monte de coisa. Mas nossa maior colheita foram nossos filhos. Nossos filhos são a nossa melhor safra. Tudo deu gente do bem, tudo, meninos e meninas assim, da melhor qualidade.” Depois comecei a pensar sobre isso. Por que não resgatar a história deles? Por que não contar a nossa história?
E que família era essa?
A história da nossa família é muito parecida com a de muita gente. Muitas famílias têm a mesma história, os que não deram certo. Famílias de pioneiros que vieram para Londrina ficar ricas com o “ouro verde” e acabaram perdendo tudo. Essa coisa ficou na minha cabeça. Aí, infelizmente, eu fui diagnosticado com câncer. E queria ocupar a mente com algo que não me levasse a pensar muito numa doença mortal, incurável. Então resolvi aproveitar e fazer coisas que nunca tinha feito na vida. A primeira coisa que pensei foi: não vou passar por essa vida sem deixar nada do legado da nossa família e de outras famílias parecidas com a nossa. Vou escrever um livro. Não fiz nenhum roteiro, não fiz nada. Eu só pegava o celular e ia para os bairros onde eu morei, em frente às casas que morei. Vila Recreio, Vila Nova e Vila Brasil. Sentava na sarjeta e ficava imaginando, lembrando das histórias. Colocava uma música antiga dos anos 1960 e daí começavam a vir as imagens, as falas, as pessoas.

Aos olhos de um garoto de 10 anos, como era Londrina em 1964?
Londrina era um grande parque de diversões e, ao mesmo tempo, um lugar triste. Na infância que retrato, o menino vive os dramas que a família passava por não ter dinheiro, não ter uma casa bonita, não ter roupa, não ter nada. Iguais a ele, nas vilas, existiam centenas e centenas de crianças nas mesmas condições, com os mesmos anseios, com as mesmas vontades, acreditando em Papai Noel, brincando na rua com liberdade, desobedecendo a mãe... O Kiko do livro é um menino que brincava com vagalumes, que pescava nos brejos de taboas da Vila Brasil, que brincava na enxurrada, que se escondia da mãe em lugares improváveis e que, ao mesmo tempo, queria ser alguém na vida, queria visitar o cinema. Era capaz de dar tudo na vida para entrar no Cine Ouro Verde. Porque ele queria ser um artista de cinema. Olha só que loucura.
No livro você retrata personagens da cidade pouco conhecidos. Que figuras eram essas?
Não retrato os personagens oficiais da cidade porque todo mundo já fez isso. As pessoas lembram do Caruso, do Circuito, todo mundo sabe deles. Então escolhi mostrar que existiam na época outros personagens como o Prefeito da Vila Nova, um personagem folclórico da época, ou o Diamante, que era um outra figura folclórica.
A música popular e o cinema são marcantes em “O Menino Que Virava do Avesso”. Existe um motivo especial?
A gente só tinha como diversão a rádio. A gente não tinha televisão. Meu pai chegava em casa e ligava o rádio. O velho rádio sempre, no alto da prateleira da sala, como se fosse um troféu. As paredes cheias de capas de discos do Nelson Gonçalves. Fui criado ouvindo rádio, ouvindo a Rádio Nacional e a Rádio Mayrink Veiga. Então a música foi fundamental. O cinema porque na Vila Brasil tinha o que eles chamavam de “Cineminha”. Era uma Kombi que toda terça-feira, às 19h, parava na rua e projetava filmes na parede de uma quitanda. Comecei a gostar de cinema ali. Meus avós, que eram pipoqueiros, trabalhavam em frente ao Cine Londrina, depois em frente ao Cine Ouro Verde. Meus irmãos, meus tios, eram todos viciados em cinema, chegavam em casa e começavam a contar o filme que tinham visto e eu ficava louco. Queria ver os filmes, mas não podia entrar no cinema pela idade. Depois que eu vi a primeira vez, depois de muita tentativa, fiquei apaixonado. Logo pensei: quero fazer aquilo que está lá na tela. Era aquilo que eu queria fazer. Pois é, não fiz, mas fiz televisão, que é um cinema pequenininho.

SERVIÇO:
“O Menino Que Virava do Avesso – Londrina 1964”
Autor – Ney Inácio
Prefácio – Rogério Fischer
Editora – Kan
Páginas – 398
Quanto – R$ 98 e R$ 69 no dia do lançamento
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Lançamento:
Quando – terça-feira (22), às 19h
Onde – Sesc Londrina Cadeião (Rua Sergipe, 52)





