“O Homem que Sussurra” (The Whisper Man, 2025), longa recém lançado pela Netflix, é um filme de gênero aparentemente impecável e tecnicamente competente, mas que não corre nenhum risco. O diretor neozelandês James Ashcroft opera dentro de regras limitadas – aquilo suficiente e necessário para alcançar um resultado aceitável.

No entanto, acumula clichês em um ritmo constante e tranquilo, sem jamais surpreender ou brilhar. Certas ideias convencionais que transitam por outros gêneros acabam enfraquecendo a premissa poderosa que a história apresenta inicialmente. O filme não oferece nada de pessoal ou marcante; e não há um único momento capaz de fazer a diferença. Corrijo: há, sim, um grande momento. É quando, lá pelas tantas, Michael Keaton assina o livro de presença. E contracena com De Niro, em personagem entediado (mas só na ficção...).

O diálogo-duelo eleva sensivelmente a temperatura do policial.

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ROMANCE HOMÔNIMO

O filme é baseado no romance homônimo escrito por Alex North, publicado em 2019. Tom Kennedy (Adam Scott), um escritor e pai viúvo, muda-se com o filho para uma cidade tranquila que, anos atrás, foi aterrorizada por um serial killer apelidado de "Whisper Man&quot" (o homem dos sussurros), no momento cumprindo pena. A calmaria dura pouco: o menino desaparece, e tudo indica que o caso antigo e o novo estão conectados.

O escritor recorre então ao pai (Robert De Niro), o detetive Pete Willis, policial aposentado e responsável por investigar o caso original. Pai e filho estão afastados há anos, mas o desejo de resgatar o garoto os une novamente. A responsável pela investigação atual é a detetive Amanda Beck (Michelle Monahan), que terá de lidar com esses dois homens empenhados em resgatar seu familiar a qualquer custo.

O problema surge quando o filme começa a resolver sua interessante premissa inicial. Cada reviravolta acontece exatamente no momento em que o manual do gênero dita o que deve acontecer. O assassino errado, o suspeito que não era o culpado, a pista falsa, a revelação final: tudo segue uma precisão de relógio, e essa mesma precisão acaba sendo o limite do filme. Rotineiro, porém ineficaz. Sustentado, em certa medida, pelo lado mais sinistro e inquietante da trama e pelo sempre angustiante desaparecimento de uma criança. Nada diferente daqueles modelitos streaming-nórdicos que o espectador home office, a esta altura, já se cansou de acompanhar.

O menino Jake (Acston Luca Porto) e o pai Tom Kennedy (Adam Scott) em "O Homem Que Sussurra:"
O menino Jake (Acston Luca Porto) e o pai Tom Kennedy (Adam Scott) em "O Homem Que Sussurra:" | Foto: Divulgação

GRANDE ELENCO

Há um elemento que ajuda em parte o desenrolar da trama: é o trabalho de interpretação do elenco. Adam Scott encontra, no papel do pai desesperado, um registro dramático que se distancia de sua faceta habitual em papeis com menor carga dramática.

Michelle Monaghan é uma detetive clássica, implacável e profissional, que não teme nada e nem ninguém. Robert De Niro, com a economia de gestos que tem sido marca registrada de seus últimos cinco anos, funciona como uma espécie de fio condutor da narrativa, e atua mais ou menos no piloto automático. (Mas deixo aqui registrada minha mais calorosa solidariedade e minha merecidíssima homenagem a ele (não pela carreira brilhante, que de resto todos conhecemos): quero exaltar é a bravura, a honestidade e a comoção no papel cívico que o ator vem mantendo publicamente contra os absurdos antidemocráticos do governo de Donald Trump, especialmente em pronunciamentos em eventos, protestos em todos os cantos dos EUA, no exterior e em redes sociais, quando se coloca contra aquilo que ele chama de tirania e ameaça global.)

Mas quem realmente sabe extrair o máximo de seu personagem é Michael Keaton. Embora seu papel seja secundário, ele constrói um assassino encarcerado que causa inquietação sem precisar de nenhum artifício dramático exagerado: bastam o olhar e a calma de quem já não tem nada a provar. Desde o início de sua carreira, Keaton soube explorar muito bem esse lado insano, inclusive quando interpretou um super-herói. Com mais tempo em cena teria roubado todo o filme.

"O Homem Que Sussurra" já teve mais de 55 milhões de visualizações na Netflix em todo o mundo.

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