A literatura como instrumento para compreender o mal-estar do mundo atual. A poesia como ferramenta para limpar as palavras de todas as mentiras, falsificações, mercantilização e esvaziamento do verbo. Este parecer ser o princípio da nova produção literária do poeta Ademir Assunção.

Dentro da programação do Londrix 2026 – 21º Festival Literário de Londrina, ele participa da roda de conversa “Quando o Poema Vê o Mundo”, na sexta-feira (18), às 20h, no Museu Histórico de Londrina, com mediação de Mauricio Arruda Mendonça.

Também lança dois novos livros, “O Jogo de Xadrez e Outros Poemas”, publicado pela editora Cobalto, e “Asas de Cera Entre os Escombros”, publicado pela editora Primitiva. Obras que revelam o beco sem saída em que a humanidade entrou ao olhar para o futuro e não saber se ele será maravilhoso ou apocalíptico.

Em 2013, Assunção ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria poesia, com o livro “A Voz do Ventríloquo”. É autor de “Zona Branca”, “Risca Faca”, “Pig Brother”, “Faróis no Caos” e “Deus Salve a Rainha e Evite Engarrafamentos”, entre outros. Ele é o autor homenageado no Londrix deste ano, que intensifica sua programação nesta quinta-feira (17) e segue até domingo (20).

A seguir Ademir Assunção fala de sua nova produção literária e do mal-estar do mundo atual

“O Jogo de Xadrez e Outros Poemas” propõe jogadas literárias para entender o colapso do mundo atual. Que jogadas são essas?

De fato, há nos poemas deste livro um esforço para compreender o mal-estar que estamos vivendo. Não sabemos muito bem que rumos estamos tomando. Estamos caminhando para um futuro luminoso ou para um pesadelo apocalíptico? Hoje temos maior expectativa média de vida, meios de transporte bem mais confortáveis, impressionantes possibilidades de comunicação e de difusão dos conhecimentos, mas não me parece que estamos vivendo mais tranquilos, mais relaxados, mais felizes. Ao contrário: vivemos uma época de alta ansiedade e baixo repertório. Muita gente deprimida, com fome, com medo. Luxo e conforto material de um lado. Miséria e matança de outro. Usando os termos da sua pergunta, a jogada literária que executo no livro é muito simples: tornar esse desconforto e essa perplexidade bem explícitos.

Ademir Assunção: "Há nos poemas deste livro um esforço para compreender o mal-estar que estamos vivendo; estamos caminhando para um futuro luminoso ou para um pesadelo apocalíptico?"
Ademir Assunção: "Há nos poemas deste livro um esforço para compreender o mal-estar que estamos vivendo; estamos caminhando para um futuro luminoso ou para um pesadelo apocalíptico?" | Foto: Divulgação

No prólogo do livro você coloca a pergunta: “Diante da banalização, falsificação, mercantilização e esvaziamento das palavras, estaremos todos nós numa calamitosa situação de xeque-mate?” O que realmente está em xeque?

Talvez nossa própria sobrevivência como espécie biológica. Estamos vivendo uma escalada desenfreada de produção e consumo – e isso está significando cada vez mais a depredação da nossa casa, em ritmo assustador. Considere essa escala de tempo: o planeta Terra tem 4,5 bilhões de anos. O homo sapiens apenas 350 mil anos. Precisamos de muito tempo para que aparecesse nosso primeiro parente com capacidade de desenvolver pensamentos, ainda de maneira absurdamente rudimentar. E eu pergunto: alguém é muito otimista quando pensa no mundo futuro, digamos, daqui a 200 anos? Compreende? Nós temos, ainda hoje, a palavra e com ela a capacidade de pensar, de inovar, de fazer de outro jeito. Se devastarmos também o mundo das palavras com mentiras, falsificações e esvaziamentos, creio que teremos poucas chances de sobreviver.

E a poesia teria a propriedade de remediar tudo isso?

Remediar, não, mas ajudar a compreender as pulsões humanas, sim. Um poema como “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, setecentos anos depois de sua publicação, continua reverberando o Inferno, o Céu e o Purgatório da experiência humana, assim como as peças de Shakespeare continuam nos revelando todo tipo de insanidade, traições e assassinatos que alimentam os bastidores do poder e do acúmulo de riquezas, seja nas mãos de reis e rainhas ou de banqueiros e trilionários controladores das bigh techs. As épocas mudam, mas a essência humana não se altera na mesma velocidade. Infelizmente. Gosto de pensar que “O Jogo de Xadrez e Outros Poemas” tem algum parentesco com obras de outras áreas, como “A Queda do Céu”, parceria do xamã yanomami Davi Kopenawa com o antropólogo Bruce Albert e “O Terceiro Inconsciente - A Psicoesfera na Era Viral”, do filósofo italiano Franco Berardi.

Os 13 poemas iniciais do livro formam uma “Fábula Escatológica”. Narram o poder das peças dentro de um jogo - uma alegoria social do poder. Os vencedores desse jogo sempre serão os mesmos?

Talvez a repercussão crescente que o livro vem alcançando deve-se particularmente a esta alegoria da sociedade contemporânea que consegui construir com o poema “O Jogo de Xadrez”. Mais do que as peças nobres do jogo – O Rei, a Rainha, o Bispo, o Cavalo, a Torre –, provavelmente os Peões têm um forte impacto no poema, pois com eles consegui caracterizar algumas forças da sociedade atual. O peão miliciano, por exemplo, comete seus assassinatos de aluguel, paga o tributo devido ao bispo neopetencostal e teme se tornar um arquivo morto. O peão robocop representa o policial atormentado com as mortes que carrega no fundo do inconsciente. E há o peão tranca-rua, que assiste a toda a degradação no reino, e não dá nenhum sinal de que vai aliviar a barra de ninguém. É como se perguntasse: não foi isso que vocês escolheram? Então, virem-se. Portanto, talvez seja mais pertinente a seguinte pergunta: alguém será vencedor neste jogo?

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Juntamente com “O Jogo de Xadrez e Outros Poemas”, você está lançando a plaquete “Asas de Cera Entre os Escombros”, que reúne dois contos protagonizados por personagens que não sabem quem são, nem o próprio nome. São histórias sobre a memória?

São histórias sobre o apagamento da memória perpetrado pela violência das guerras. Há um cenário de bombardeios e de ruínas em ambas. Mas pior do que as ruínas topográficas, há a ruína humana, a destruição da própria identidade. Imagino que seja muito difícil viver quando você não sabe quem você é e de onde veio. Os dois personagens, que não sabem sequer o próprio nome, vivem esse vácuo, esse não-lugar no mundo. Ambos têm algum parentesco com os personagens de Samuel Beckett.

SERVIÇO:

Imagem ilustrativa da imagem Ademir Assunção: homenageado no Londrix, poeta lança dois livros
| Foto: Divulgação

“O Jogo de Xadrez e Outros Poemas”

Autor – Ademir Assunção

Editora – Cobalto

Páginas – 128

Quanto – R$ 52

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Imagem ilustrativa da imagem Ademir Assunção: homenageado no Londrix, poeta lança dois livros
| Foto: Divulgação

“Asas de Cera Entre os Escombros”

Autor – Ademir Assunção

Editora – Primata

Páginas – 128

Quanto – R$ 30

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Lançamentos:

Londrix 2026 – 21º Festival Literário de Londrina

Quando – Sexta-feira (18), às 20h

Onde – Museu Histórico de Londrina (Rua Benjamin Costant, 900)

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