Jéssica Teixeira, atriz de 'Monga', fala sobre o espetáculo premiado
Espetáculo apresentado no sábado (27) no festival, revisita a história de Julia Pastrana, a "mulher-macaco", e questiona a exploração de corpos
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domingo, 28 de junho de 2026
Espetáculo apresentado no sábado (27) no festival, revisita a história de Julia Pastrana, a "mulher-macaco", e questiona a exploração de corpos

“Monga”, espetáculo escrito, dirigido e interpretado pela cearense Jéssica Teixeira, convida as pessoas a mergulharem em suas vidas em busca de desatar alguns nós. Por meio de múltiplas ferramentas teatrais e recursos psicanalíticos, a atriz soma forças com a história de Julia Pastrana, mexicana conhecida vulgarmente como “mulher-macaco”, que vivia com hipertricose terminal, uma condição que cobria todo o seu corpo e rosto com pelos grossos. Julia se tornou uma das grandes inspirações para os 'freak shows', também servindo de influência para a atração circense “Monga”, uma bela mulher que se transforma em gorila por meio de truques de iluminação.
Vencedora do Prêmio Shell de Melhor Direção em 2024, Jéssica traz “Monga” aos palcos do FILO, sendo apresentado no sábado (27) e com reapresentação neste domingo (28), às 18h30, na Divisão de Artes Cênicas - DAC/UEL. A classificação é 18 anos, o espetáculo conta com recursos de acessibilidade, como LIBRAS e audiodescrição.
Em conversa com a equipe de comunicação do FILO, a multiartista explicou por que a acessibilidade se tornou um elemento indissociável de sua criação: “Eu vivi tanto a exclusão que hoje eu não faço sem. Eu vejo a Língua de Sinais, por exemplo, como uma grande coreografia. É um recurso muito criativo, antes de qualquer coisa”.
Jéssica Teixeira passou a infância toda escutando que só viveria por mais um ano em razão de sua deficiência. Hoje, aos 33 anos, ela segue apostando na vida e nos palcos como um revide feito de autoafirmação e criação: “É naturalizar mais o meu corpo. E não deixá-lo na desumanização, em que todo mundo tem um poder de me dizer como se vive bem. Meu corpo me fez entender as coisas e virou uma reflexão de mundo. Virou política, filosofia, arte… Tudo parte do corpo, com toda a relação que tenho com ele, todo cuidado e brincadeira a partir dele também”, relata ela.
Munida da força da figura de Julia Pastrana, Jéssica se propõe a também dançar, performar e cantar: “A Julia era uma mulher inteligentíssima, poliglota, no século XIX. Era bailarina, cantora, intérprete. Tão genial, tão brilhante. Então comecei a me perguntar: por que todo mundo a retrata da forma mais pavorosa possível apenas por causa do seu aspecto físico? Fiquei pensando nesse mercado da arte, do entretenimento, em quantos abusos foram cometidos e quantos lucros foram gerados a partir da exploração de determinados corpos e identidades para produzir entretenimento. Foi daí que surgiu a vontade de trazer essa discussão, para que a gente abra um pouco os olhos e perceba o que ainda reproduz, muitas vezes sem perceber”.
Ao público que assistirá “Monga” neste domingo, Jéssica adianta que não poupa esforços para propor uma experiência mágica: “A população que vai ao teatro é muito pequena. A pessoa sai de casa para ver um outro ser humano… E a pior coisa é ver um ser humano desinteressante. Como é que eu faço para isso tudo ser interessante e mágico?”, questiona ela.
Ao que parece, no FILO, o público vê uma transformação. Não só no palco, mas também em si mesmo: “Eu quero que as pessoas lembrem que a vida é uma só, mas que os modos de viver a vida são vários”, provoca ela.
Um dia antes de sua estreia em Londrina, conversamos com Jéssica Teixeira sobre corpo, criação, psicanálise e o direito de imaginar outros futuros. Confira a entrevista:
Como é se apresentar no FILO pela primeira vez?
Eu estou muito curiosa! Em “Monga” me propus a arriscar tudo que eu nunca tinha arriscado antes. Acho que tenho um trabalho de dramaturgia que envolve ficções e o que muita gente chama de ‘autobiografia’, mas não é. É tudo fruto da imaginação, com reflexões críticas de um passado, obviamente, mas também com direito à imaginação e à criatividade. É uma estética arriscada, um terror psicológico, que envolve humor ácido e outras reflexões que perturbam o juízo da gente… Ao mesmo tempo, abordo tudo de uma forma muito leve. Sou cearense, de Fortaleza, então trago muito esse humor mais ácido de lá.
A psicanálise aparece como uma referência importante na construção de “Monga”. O que ela ofereceu para a criação do espetáculo?
Faço análise há mais de oito anos, e ela alimentou tanto a primeira dramaturgia (“E.L.A.”) quanto “Monga”. Na análise, eu podia deixar todas as minhas dores e ressentimentos. Acho que, na arte, não há espaço para o ressentimento. É o único sentimento que, de fato, não se transforma. Por isso acredito na psicanálise como algo transformador: para entender as dores, os ressentimentos, os traumas, o que quer que seja. Mas, na arte, preciso escapar de mim. Porque a obra deixa de ser minha quando a lanço no mundo. Ela passa a ser do outro, porque nós somos o outro. Em “Monga”, eu já não queria mais esse espelhamento. Queria que as pessoas simplesmente se percebessem. Que entendessem que estou devolvendo algo que colocaram em mim, mas que nunca foi meu. Essas viradas dramatúrgicas, que para mim são profundamente sociais e políticas, só entraram na minha dramaturgia depois de muita análise. Foi esse processo que me permitiu me divertir com tudo isso, viver uma vida mais leve e, inclusive, imaginar um futuro diferente daquele que tinham projetado para mim.
Você afirma que se recusa a repetir histórias já escritas, para que possa escrever outras histórias e futuros possíveis. Como essa diretriz orienta seu trabalho?
Eu acho que o futuro é “def”. A gente envelhece, adquire doenças, perde certas coisas, abre espaços de muita falta no próprio corpo. E isso vai revelando síndromes, doenças, deficiências. Por eu ter nascido assim, não tenho um outro ponto de vista. A deficiência é vista por muita gente como algo pesado, doloroso, mas ela define também minha inteligência, minha sensualidade, meu modo de estar no mundo, de ver o mundo e de me escrever no mundo. Então, acho que tem um outro jeito de olhar: como um corpo vivo, latente, pulsando desejo e vida.
“Monga” recebeu o Prêmio Shell de Teatro na categoria Melhor Direção em 2024. O que esse reconhecimento representa para você?
Eu me vi internacionalizando minha carreira e quis muito isso, gabaritando vários festivais internacionais aqui no Brasil e fora. Mas nunca tinha me visto ganhando um Prêmio Shell! Foi uma surpresa. Porque o Prêmio Shell, para mim, era muito desse eixo Rio-São Paulo. Vim de Fortaleza… Eu chego a São Paulo com o deleite de ser só mais uma. Então o Prêmio Shell chegar em mim também tem muito de chegar no Ceará, no Nordeste, em Fortaleza, e ver que é possível levar também esses holofotes para lá.
O espetáculo mobiliza elementos do terror psicológico, provocando riso e desconforto. O que você espera que o público leve consigo depois da experiência?
Quero que as pessoas lembrem que a vida é uma só, mas que os modos de viver a vida são vários. E que elas possam escolher o modo de vida — de estar nesse mundo — delas.

No seu Instagram, você se define como “Habitante de um corpo estranho. Interessada no impossível”. Que impossível é esse?
A sede de vida. Sede pelo desconhecido. Esses submundos me interessam muito. E, obviamente, me causam muito estranhamento. E acho estranhar maravilhoso. Se estranhar mesmo. Se estranhar no espelho. O estranhamento é uma das belezas da vida. E quero continuar vendo essas estranhezas.
Você já disse em entrevistas que seu corpo fala antes de você e que, em cena, a nudez acaba desnudando também o público. Em uma sociedade que insiste em classificar e controlar determinados corpos, o que significa colocar esse corpo no centro da cena e devolver o olhar para o espectador?
Para mim, é um alívio gigante. Porque adoro ficar nua — trabalho com nudez há muito tempo no cinema, no teatro, nas performances…. A acho que o que mais aterroriza as pessoas é que estou muito tranquila nua ali. E que elas talvez jamais conseguiriam estar. Mas conseguiriam, sim. Porque é sempre um convite! Se eu fosse definir “Monga” em uma palavra, seria comunhão. Estamos juntos. A gente vai dançar junto, vai beber cachaça junto, vai cantar junto. E vai ser um jogo de perguntas e respostas também. Estamos aqui, todos juntos, mas cada um no seu espaço. Ninguém vai invadir o espaço de ninguém. É tudo muito tranquilo. Não tem nada chocante — acredito! É uma comunhão, antes de qualquer coisa. É um convite a refletir sobre a vida. A operar de uma forma diferente no mundo… repensar a convivência com a existência de pessoas que são completamente diferentes umas das outras. Eu não vou enfrentar ninguém. Mas vou chamar para estar junto.
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O que Monga te ensinou sobre você?
Acho que me deu mais desejo de viver a vida. Eu me apaixonei mais depois que comecei a fazer “Monga”. Me apaixonei mais por pessoas, por lugares, por comidas, por muita coisa… Esse apaixonamento também é muito desse desejo de vida, uma dose cavalar de vitalidade. E espero que essa sensação escape nas pessoas!
O FILO 2026 é apresentado pelo Ministério da Cultura e pela Petrobras, que também é patrocinadora master do Festival. O evento conta ainda com patrocínio da Prefeitura Municipal de Londrina por meio da Secretaria Municipal de Cultura/Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
* Com assessoria.
SERVIÇO:
Monga – Jéssica Teixeira (Fortaleza/CE)
Quando: domingo (28), às 18h30. Com interpretação em LIBRAS.
Onde: Divisão de Artes Cênicas – DAC/UEL (Av. Celso Garcia Cid, 205)
Quanto: R$ 45,00 e R$ 22,50 (meia-entrada). Ingressos pelo site www.filo.art.br.
Classificação: 18 anos
* O FILO 2026 é apresentado pelo Ministério da Cultura e pela Petrobras, que também é patrocinadora master do Festival. O evento conta ainda com patrocínio da Prefeitura Municipal de Londrina por meio da Secretaria Municipal de Cultura/Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).


Da Redação
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