O inverno deste ano me leva à infância. Fazia tempo que o frio não se impunha nas frestas daquela janela mal fechada nos fundos do apartamento. O ar gelado me levou de volta à casa de madeira dos meus pais em Cornélio Procópio, onde as ventanias deixam o inverno mais frio ainda, cortante como uma lâmina de ar, invisível como o fantasma das baixas temperaturas.

O vento quando vem forte tem um som afinado como uma orquestra de sussurros, daí essa impressao fantasmagórica de árvores cantando nos quintais e folhas espalhadas como pensamentos perdidos, coisas que não voltam mais, a não ser que se escreva sobre elas, o texto tem esse poder de recaptura.

Nas noites de inverno, o pai levava o termômetro para fora de casa, queria ter a certeza de que os 5 graus anunciados pela previsão climática eram um fato, vendo o mercúrio baixar naquele pequeno tubo de vidro. As crianças também queriam ver o filetinho de mercúrio despencar como se encolhesse de frio. Meu pai adorava medições precisas, tinha vocação de cientista e comparava as temperaturas quando havia dias extremos nas estações.

As tardes de inverno também tinham as especulações de minha mãe que olhava o poente. Se o horizonte estivesse alaranjado, ela decretava: "amanhã vai ter sol." As nuvens em céu de inverno, invariavelmente se transformam em "carneirinhos", às vezes mais crespas, com tons rosados quando há essa previsão de um amanhecer ensolarado.

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Todos esses pequenos mistérios faziam parte dos costumes lá de casa e se fixaram na minha memória pela beleza das observações incomuns, uma sabedoria popular que meus pais, pessoas de outro tempo, passaram aos filhos com a naturalidade de quem cozinha a sopa.

Os alimentos também faziam parte do ritual de inverno em família. Depois da sopa, quando o relógio da sala marcava 9 horas, a panela de pipoca já estava no fogo com aquele cheiro amanteigado que despertava de novo o apetite transformando qualquer segunda-feira em noite de São João.

Havia também noites de comer pinhão cozido em água com sal e que saia quentinho da panela para ser descascado com uma pequena faca, de modo a remover a parte grossa e chegar àquela iguaria que fazia todo mundo se sentir mais paranaense.

A habilidade de descascar pinhão era mais fácil para os adultos, mas crianças também manejavam a faquinha com o mesmo cuidado com que aprendemos a descascar laranjas tirando a casca inteira, sem quebrar, para depois rodopiar no ar falando as letras do alfabeto até ela se romper no L ou no V.

Brincadeira antiga que sumiu no tempo e hoje, talvez, as crianças nem descasquem mais laranjas nem pinhões, não preguem os olhos no termômetro para ver o inverno despencar como essas memórias que no dia 24 de junho acordaram minha mente como se emergissem de um tempo perdido como naquele do livro de Proust em versão nacional, sem "madeleines", mas com amendoim torrado.

Memórias dos cafundós do Norte do Paraná, onde cresci e permaneço vendo outro inverno passar acreditando que, se o poente alaranjar, amanhã vai ter sol.

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