O aclamado clássico da literatura infantojuvenil brasileira, "A Bolsa Amarela", da autora Lygia Bojunga Nunes, adotado anualmente por educadores e lido por diferentes gerações, foi escrito em 1976, durante o regime militar. Conta a história de Raquel, uma menina de 10 anos que esconde em uma bolsa amarela suas três grandes vontades: crescer logo, virar escritora e ser menino.

O livro sofreu tentativas de censura em maio de 2026 no Colégio Militar Dom Pedro II, no Distrito Federal, com críticas distorcidas sobre seu conteúdo. Em março deste ano, ato similar ocorreu em Londrina , tendo como alvo o livro "O Bebê Vem com a Cegonha?", de Patrícia Engel Secco.

No caso de "A Bolsa Amaraela", o desejo de se tornar menino, por parte da protagonista Raquel, refere-se ao contexto vivenciado por uma menina inteligente que, no jogo social cotidiano, percebe que os meninos “podem tudo” e, as meninas, “nada”. Um tema, evidentemente, muito pertinente e plausível para crianças em idade escolar, ainda mais em contato com uma narrativa em que a personagem se emancipa, encontrando caminhos para lidar com seus problemas, com suas questões, o que, reitera-se, neste caso nada implica em uma decisão de gênero ou sexualidade.

De modo equivocado e descontextualizado, justamente em 2026, quando completa 50 anos, o título foi alvo de censura e críticas em razão do desejo da protagonista em ser menino.

No entendimento do Doutor e Professor Associado do Centro de Letras, Comunicação e Artes (CLCA), da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Thiago Alves Valente, o cartão-vermelho e a contestação à obra da autora não são inéditos.

O professor recorda o tema do livro "Literatura Infantil e Juvenil na Fogueira", de 2024, composto por ensaios críticos e análises de casos de censura a obras literárias para crianças e jovens - em um contexto diverso de outros momentos de nossa história, inclusive daqueles em que vivenciamos - frente a regimes ditatoriais, restrições institucionalizadas.

Nesta obra, elaborada por membros do grupo de trabalho “Leitura e Literatura Infantil e Juvenil”, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL), Valente - que é um dos autores - - explica que os associados constataram a existência de uma onda de manifestações contra a leitura literária que, em geral, tem como elemento central de sua prática um modo equivocado de se ler literatura, o que, embalada por questões ideológicas diversas, acabam sustentadas por uma “não leitura” das obras literárias.

PROMOÇÃO CONTRA A LEITURA

Do ponto de vista dos estudiosos, em um país marcado pelo crescimento de “não leitores”, como demonstrado pela edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024/2025), discursos de pânico moral acabam se alastrando rapidamente pelas redes sociais, atingindo os responsáveis por crianças e jovens em idade escolar. "Sobre isso, é importante reconhecer, ao menos, dois grupos: um é formado por pais ou responsáveis não acostumados à leitura de literatura , que, frente a vídeos e comentários apelativos, tornam-se alvos fáceis de pânico, de uma indução a conceitos equivocados sobre leitura e literatura. Outro, mais instruído em termos de escolarização, realiza a leitura integral ou parcial de uma obra, mas não consegue ler o livro como literatura, ou seja, embora decodifique a linguagem e compreenda o enredo, não consegue realizar o “pacto da narrativa”, analisa Valente.

Nesta perspectiva, esse segundo tipo de “não leitor”, segundo o professor, não adentra o texto como literatura, em outras palavras, não acessa o texto como ficção, como poesia, suspendendo juízos de valor do mundo real, que o cerca e no qual está imerso, o que bloqueia sua experiência de leitura. "É essa experiência que o levaria a vivenciar situações e emoções suscitadas pela linguagem, o que, por sua vez, poderia ampliar sua compreensão de mundo".

Assim, quando uma obra literária importante como a "A Bolsa Amarela" é colocada como um problema moral para a formação de crianças, há uma censura. "Notoriamente estamos diante de argumentos muito frágeis, de 'não leitores' que passam a criar uma pseudopolêmica – no caso específico desse texto, torna-se evidente a incapacidade de compreensão tanto da natureza do texto literário quanto do processo de leitura de literatura, porque a preocupação com uma suposta questão de gênero sequer é plausível na obra", esclarece.

"Se há algum impacto ou influência em uma obra como "A Bolsa Amarela", isso não está no tema em si, mas no modo, nos recursos de linguagem, de estilo, com os quais o texto é construído. A literatura não se apresenta como uma carta de instruções sobre a vida, antes, como arte, convida à percepção da própria vida, de suas questões, de suas contradições, traz à luz.

O professor doutor considera que o maior perigo a que esses grupos de pais expõem crianças e adolescentes é a mutilação de sua formação intelectual, de sua integridade. "O ímpeto de encontrar vilões ou de enxergar uma “guerra cultural” pode levar, ainda, a um comprometimento altamente lesivo a essas mesmas crianças e jovens que acreditam proteger".

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