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Londrina

Folha 2

m de leitura Atualizado em 17/06/2022, 08:50

Indígenas vão ao teatro pela primeira vez para assistir ao Filo

Kaingangs da aldeia Água Branca, da reserva de Apucaraninha, assistiram ao espetáculo "A Descoberta das Américas", com Julio Adrião

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de junho de 2022

Celia Musilli - Editora
AUTOR autor do artigo

Foto: Célia Musilli
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Na noite desta quinta-feira (16), o espetáculo "A Descoberta das Américas", com o ator carioca Julio Adrião, teve sua segunda e última sessão no Filo - Festival  Internacional de Londrina - e a plateia lotada contou com a presença especial de quatro indígenas da aldeia Água Branca, da reserva de Apucaraninha.

Acompanhados do vice-cacique Renato Kriri, eles assistiram pela primeira vez a um espetáculo no Cine Teatro Ouro Verde, a convite da organização do festival. A montagem em questão é uma sátira à descoberta das Américas pelos espanhóis e seu encontro com os nativos, um espetáculo solo magistralmente interpretado por Julio Adrião. O ator faz um monólogo veloz numa encenação em que seu próprio corpo, sob a luz do palco, constrói todo um cenário, descrevendo o mar, as matas, o choque cultural da chegada dos europeus às Américas num périplo divertido e, ao mesmo tempo, crítico.

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O espetáculo que está em cartaz há 17 anos, estreou em 2005 e deu a Adrião o Prêmio Shell de melhor ator pelo trabalho que já conta com mais de 700 apresentações pelo Brasil e outros países. O texto foi adaptado do clássico escrito pelo dramaturgo italiano Dario Fo, traduzido por Julio Adrião e Alessandra Vannucci, responsável também pela direção do monólogo.

A surpresa na apresentação desta quinta-feira no Filo, foi a presença dos indígenas que assistiram a uma versão europeia da descoberta das Américas, na qual a aventura, a cobiça, os interesses que permearam a história do descobrimento formam um espetáculo satírico, com a conquista dos descobridores sendo tratada como uma comédia de erros que leva o público ao riso, mas pontuada como denúncia. 

O vice-cacique Renato Kriri e mais três indígenas da Aldeia Água Branca no palco do Cine Teatro Ouro Verde, com o ator Julio Adrião e atores londrinenses, ao fim do espetáculo O vice-cacique Renato Kriri e mais três indígenas da Aldeia Água Branca no palco do Cine Teatro Ouro Verde, com o ator Julio Adrião e atores londrinenses, ao fim do espetáculo
O vice-cacique Renato Kriri e mais três indígenas da Aldeia Água Branca no palco do Cine Teatro Ouro Verde, com o ator Julio Adrião e atores londrinenses, ao fim do espetáculo |  Foto: Célia Musilli
 

EMOÇÃO E AGRADECIMENTOS

Ao final do espetáculo, aplaudido de pé, Adrião agradeceu ao público e, especialmente, aos kaingangs que também foram aplaudidos. A emoção do momento se completou com Adrião descendo do palco para conversar com o vice-cacique Renato Kriri. O diálogo que se deu entre os dois dispensou uma entrevista formal para saber o que ambos sentiram neste encontro que teve o teatro como local de uma conexão de culturas.

Segundo Adrião, ele interpreta a história sob o ponto de vista europeu e não se sente culpado por isso, mas afirma que espera, sinceramente, "que um dia os indígenas possam fazer sua própria interpretação da história," ali mesmo, no lugar dele no palco. 

O vice-cacique Renato Kriri disse que gostou do espetáculo, de ter ido ao teatro pela primeira vez, e destacou a importância da inclusão social e cultural dos indígenas em encontros como o que aconteceu nesta noite do festival, um encontro que, segundo ele, "vai desmanchando os preconceitos".

"Os jovens que vieram aqui comigo, voltarão para a aldeia e também vão contar aos outros o que viram", disse Kriri  que também  ressaltou  "a importância de encontrar o ator que veio do Rio de Janeiro para estar com a gente aqui em Londrina." Ele completou dizendo que é muito importante que os indígenas das novas gerações conheçam também a história do Brasil e do Paraná, segundo o relato de seus ancestrais.

Não foi a primeira vez que Adrião contou com indígenas na plateia para encenar "A Descoberta das Américas", o ator disse à FOLHA que já teve experiência semelhante no Acre e no Mato Grosso.  

Algumas pessoas permaneceram  mais tempo no teatro para acompanhar de perto o diálogo do ator com os indígenas. Ele depois voltou ao palco para uma fotografia com os kaingangs, com o também ator Alexandre Simioni, da organização do Filo, e a atriz Carin Louro, que desenvolve um trabalho cultural com os indígenas em Londrina.

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