Humor e drama num 'assalto à brasileira, meu bem'
Em podcast, Domingos Pellegrini fala de seu livro que se transformou em filmes e conta que o líder do assalto ao Banestado virou pastor
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 2025
Em podcast, Domingos Pellegrini fala de seu livro que se transformou em filmes e conta que o líder do assalto ao Banestado virou pastor

Um assalto que teve um líder que se comportava como uma galã. Um assalto que tem detalhes que parecem um programa de humor. Uma ação que se transformou em livro e filme chamados "Assalto à Brasileira", título inspirado na fala de uma travesti da qual pouca gente conhece a história.
Tudo isso está no enredo fantástico de "Assalto à Brasileira", livro que já inspirou o documentário "Isso (não) é um Assalto", dirigido por Rodrigo Grota, em 2018, e um filme, que teve gravações no centro de Londrina, em dezembro de 2024.
Desde então, quem trabalhou na cobertura das gravações de "Assalto à Brasileira", no ano passado, recebe dia sim dia não a mesma pergunta: "quando estreia o filme?"
A produção, dirigida por José Eduardo Belmonte, tem previsão de ser exibida na cidade nos próximos dias 25 e 26 de outubro, durante o Festival Kinoarte de Cinema, como já informou a FOLHA.
Com isso, chega a hora de puxar, outra vez, o fio da memória para saber como nasceu o filme. A resposta está no livro de Domingos Pellegrini que se chama, justamente, "Assalto à Brasileira." A obra, publicada originalmente em 1988, ano seguinte ao assalto à agência do Banestado, no Calçadão de Londrina, acaba de ganhar nova edição pela editora Faria e Silva.
Entre a história real e o filme, é recomendada a leitura do livro. Na obra estão detalhes hilários e eventos sérios que envolveram a ação que já nasceu como "coisa de cinema."
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LIVRO, FILME E PODCAST
Para falar sobre os desafios e descobertas reunidos no livro escrito como uma reportagem, a FOLHA convidou Pellegrini para um podcast, uma conversa com momentos de humor e papo sério sobre a contextualização histórica e social que desaguou num assalto histórico.
Assista ao podcast no canal da FOLHA no YouTube:
O autor ri até hoje quando se lembra das peculiaridades daquele fato que parou Londrina em 10 de dezembro de 1987. Na data, sob a liderança de Moreno, uma espécie de galã do crime, a agência do Banestado foi invadida por uma quadrilha que parecia viver uma encenação.
No livro há um registro completo dos improvisos encontrados na trajetória dos assaltantes desde o momento em que rendem um motorista de táxi, no centro da cidade, para roubar armas numa loja popular: o Armarinho Paulista.
Para conseguir as armas, Moreno assume um sotaque portenho, como se tivesse vindo diretamente de Buenos Aires, quando aborda um vendedor da loja: João Benedito Crivelaro. No podcast, Pellegrini relembra: "Ele se comportou como um ator e usou aquele sotaque na loja também para não ser identificado."
Mas Moreno entrou na pele do ator somente para o assalto ou era assim mesmo na vida real?
"Não acredito que Moreno fosse um leitor, mas um grande espectador de TV e cinema, por isso fazia o tipo galã. Olha essa foto no livro, já na cadeia, Moreno posava feito um galã", observa o escritor que fez várias entrevistas depois que a quadrilha foi presa.

PAULO UBIRATAN: AÇÃO ESPETACULAR
Até chegar à prisão, houve cenas rocambolescas. Dentre as mais conhecidas, a entrada dos assaltantes na agência do Banestado, quando clientes e funcionários tiveram que se deitar com a cara no chão sob a ameaça das armas roubadas do Armarinho Paulista.
No episódio, surge a figura de Paulo Ubiratan, repórter da Folha de Londrina à época e tido por Pellegrini como um herói da trama. "Ele entrou no banco sem camisa para mostrar que não carregava armas e retirou da agência uma grávida. Ubiratan foi um herói, comportou-se de forma oposta a de Moreno. Na sua ação não havia improviso, sabia o que estava fazendo, e o fez com responsabilidade e humanismo."
No filme (dirigido por Belmonte), o foco da narrativa está sobre Ubiratan, conta Pellegrini, que já assistiu a "Assalto à Brasiliera", que chegou às telonas com Murilo Benício no papel do repórter e foi eleito como "Melhor Filme" pelo júri popular do Festival de Cinema de Brasília, em setembro.
O escritor afirma que "Ubiratan sabia o que estava fazendo" ao comparar sua ação ao improviso dos assaltantes que saíram do banco num ônibus, levando reféns, sem saber para onde ir. A fuga provoca o riso porque os assaltantes nem sabiam se ficavam no Paraná ou seguiam para São Paulo.
No podcast, Pellegrini aponta a improvisação total de quem assaltou um Banco, a 50 metros de um módulo policial, e saiu num ônibus sem saber que caminho tomar.

FLERTE NO ÔNIBUS DA FUGA
Essa parte transforma uma das passagens mais dramáticas - a fuga dos assaltantes com reféns que formavam outro 'bando", incluindo um padre, o repórter, um advogado e até uma funcionária do Banestado que flertou com um dos assaltantes - numa cena cinematográfica. Os dois, bandido e mocinha, protagonizaram uma verdadeira Síndrome de Estocolmo durante a fuga. A síndrome é um fenômeno psicológico no qual a vítima passa a ter sentimentos de simpatia e afeto por seu agressor, buscando, até por medo ou tensão, a sua proteção. A funcionária do banco sofreu retaliações pelo flerte com Ismael depois que a quadrilha foi presa.
Durante a fuga, quando a quadrilha já havia saído do primeiro ônibus, trocado por outros veículos também assaltados na estrada, Moreno, com seu carisma de galã, como pontua Pellegrini, rastejava numa plantação para escapar da polícia e declarou :"isso parece coisa de cinema americano."
Mal sabia que quase 40 anos anos depois do assalto, sua ação seria mesmo "coisa de cinema", com Christian Malheiros interpretando seu papel de chefe do bando.
POBREZA E CRÍTICA SOCIAL
Entre passagens hilárias e outras nem tanto, o livro tem um aspecto crítico. Os anos 1980, no Norte do Paraná, sucederam à chamada "geada negra" de 1975, quando trabalhadores do campo migraram forçosamente para as cidades, com o fim do ciclo cafeeiro não havia mais trabalho nas lavouras.
A quadrilha que assaltou o Banestado era formada por pessoas muito jovens, o "caçula" do bando tinha apenas 17 anos. Eram filhos de lavadeiras, de antigos lavradores, pessoas que passaram do trabalho no campo à cidade. Pelegrini traça o perfil de cada um dos assaltantes e publica no livro as fotos dessas famílias pobres que tiveram seus filhos convertidos em "assaltantes à mão armada."
Estão lá Dona Luiza, mãe de Moreno e Valter; Dona Maria, mãe de Tiãozinho; Seu Luiz, pai de Rique e Ricardo. Seu Luiz tem uma trajetória inusitada que pouca gente conhece, a menos que leiam o livro. Ele era um funcionário humilde da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e viu os filhos bandearem para o assalto mais improvisado de Londrina e do Brasil, aquele que fez o maior número de reféns da história.
A perspicácia de Pellegrini oferece uma leitura crítica e também relatos da improvisação geral dos assaltantes que pareciam personagens antes mesmo de ganharem o cinema.

A TRAVESTI QUE DEU NOME AO LIVRO
A passagem mais inusitada do livro "Assalto à Brasileira" é a revelação da origem do título. Conta Pellegrini que na cadeia, os assaltantes eram objeto de deboche, uma verdadeira piada para os guardas que se reuniam para tirar um sarro da improvisação que levou todos para trás das grades. No meio da algazarra, quase fraterna entre guardas e bandidos, surgiam diálogos na hora de recolher a turma:
"Chamam João Henrique:
- Ex-milionário, cela 2!
Depois chamam Moreno:
- "Ídolo de barro, cela 4!
Depois Tiãozinho:
- "Billy Kid, cela 6."
Mas a piada mais criativa sobre os improvisos saiu da boca de uma travesti que estava por ali, na cadeia, "pinçando as sobrancelhas", e disparou:
" - Foi um assalto à brasileira, meu bem!"
O tiro cômico foi aproveitado por Pellegrini para batizar seu livro, definindo que do assalto - passando pela segurança, a fuga e até a captura - tudo foi mesmo "à brasileira."
No podcast, outro detalhe imperdível: conta o autor, que o líder do bando que assaltou o Banestado virou pastor.
SERVIÇO:
"Assalto à Brasileira", de Domingos Pellegrini
Editora Faria e Silva (2025, 2ª edição)
168 páginas (em livro físico ou e-book)
À venda nas livrarias e na Amazon


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.




