Cillian Murphy é puro talento em “Steve”, uma estreia da Netflix
Filme é um dos melhores lançamentos do streaming trazendo um drama social sobre um reformatório para menores
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de outubro de 2025
Filme é um dos melhores lançamentos do streaming trazendo um drama social sobre um reformatório para menores
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

O velho ditado que diz “você não precisa ser louco para trabalhar aqui, mas ajuda”, nunca foi tão verdadeiro quanto para Steve, interpretado por Cillian Murphy (outra atuação soberba) como o personagem-título deste lançamento Netflix lançado há uma semana pelo streaming e disparado a melhor estreia da semana, seja na tela pequena ou grande. Ele é diretor de um reformatório residencial para adolescentes portadores – para dizer o mínimo – de graves problemas comportamentais. Stanton Wood é um estabelecimento controverso, um lugar de última chance para jovens para quem (quase) todo o resto do mundo desistiu. Com exceção de Steve e de sua assistente sem papas na lingua, vivida por Tracey Ullman.
As dificuldades dos alunos são espelhadas pelas de Steve: um educador motivado e assistente social, com abuso crescente de álcool e outras substâncias, que luta para manter não apenas o emprego enquanto tenta administrar sua saúde mental, o que lhe permite fazer inúmeras mágicas ao mesmo tempo enquanto tudo a seu redor desmorona. Neste meio tempo conturbado, Shy (Jay Licurgo, quase se nivelando dramaturgicamente a Murphy, o melhor elogio que um ator merece), um dos alunos problemáticos, lida com suas tendências violentas e sua fragilidade, dividido entre seu passado e suas perspectivas futuras.
Assim, o cenário se prepara para 24 horas cruciais, durante as quais o ambiente de pressão é testado ao limite neste pequeno grande filme poderoso onde o corrente humor negro mascara apenas parcialmente uma situação desesperadora, caracterizada por atuações memoráveis em todos os níveis. É um dia especialmente frenético no tal reformatório, em que uma equipe de televisão vai filmar (ou tentar) um pequeno registro documental para um programa regional de notícias, que circunstancialmente coincide com a visita de um pomposo e pretencioso deputado.
A trajetória de colisão individual do conflituoso Shy é pontuada por flashes de seus colegas (o valentão Luke Ayres e o maníaco Joshua J. Parker causam fortes impressões), frequentemente apresentados como entrevistas filmadas diretamente para a câmera pela equipe de TV – emocionantes e hilárias em igual medida. Eles podem ser influências difíceis e destrutivas, mas como a assistene Ullman diz sobre os desajustados sob sua responsabilidade: “I fucking adore all of them. /Eu adoro todos eles pra caramba". Os esforços acadêmicos/de babá de Murphy e Ullman são acompanhados pelo apoio de Emily Watson como uma terapeuta (em sua maioria) tranquila, compondo um elenco completo que pode sugerir que o filme é uma obra homogênea em seu conjunto original.
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No entanto, o poder de estrela e o carisma inegável de Murphy não conseguem deixar de dominar os acontecimentos, e é quase exclusivamente por meio dele que vemos Stanton Wood se desfazer, no início de sua trajetória, rumo a um futuro sombriamente incerto. Ele está em forma, digno de prêmios, com aqueles olhos brilhantes e expressivos atravessando um corpo perturbado e desgrenhado, enquanto seu compromisso com os jovens nunca vacila, apesar das reviravoltas sombrias em sua vida longe da escola, que são transmitidas aos poucos aos espectadores com um eufemismo elegante.
Uma cena em particular, perto da conclusão do filme, reforça o vínculo que inevitavelmente se forma entre professores e alunos; um instantâneo sem diálogos que umedece os olhos para diluir temporariamente a raiva acumulada no momento anterior sobre o tratamento insensível daqueles no poder para com uma subclasse quase esquecida. É um drama intenso do começo ao fim e nem sempre agradável de assistir, mas o diretor Tim Mielants (que também dirigiu Murphy no maravilhoso “Pequenas Coisas como Estas” , 2024) usa a tela para lançar luz sobre questões mais amplas do fracasso sistêmico social e educacional, mas sem tropeçar em sermões. Esta é uma produção cinematográfica responsável e inteligente, mais importante e questionadora do que dramas maias complascentes às vezes pontuam por aí.




