O poema Operário em Construção, de Vinicius de Moraes, começou a redimir a quase ausência e cultivar a presença de trabalhadores na poesia brasileira, o que se consagra na música Construção, de Chico Buarque. É toda em rimas proparoxítonas ou esdrúxulas, como pomposamente no Hino Nacional (“margens plácidas”, “raios fúlgidos” etcétera). Esse tipo de rimas foi popularizado pela satírica música A Morte Trágica de Angélica (“Morreu Angélica /de um modo lúgubre”...), mas Chico não dá a tais rimas tratamento pomposo ou jocoso, mas sim dignamente trágico, acompanhando o dia de um operário desde sua casa até seu trabalho, com uma sequência de visões ou cenas como se num filme:

“Amou daquela vez como se fosse a última / beijou sua mulher como se fosse a última / e cada filho seu como se fosse o único / e atravessou a rua com seu passo tímido // Subiu a construção como se fosse máquina / ergueu no patamar quatro paredes sólidas / tijolo com tijolo num desenho mágico / seus olhos embotados de cimento e lágrimas”.

São versos de doze sílabas, os mais nobres da arte poética, muito usados para grandes temas ou exaltações, mas aqui focando rotina e alegre pobreza: “Sentou pra descansar como se fosse sábado / comeu feijão co´arroz como se fosse um príncipe / bebeu e soluçou como se fosse um náufrago / dançou e gargalhou como se ouvisse música / e tropeçou no ar como se fosse um bêbado”.

A construção civil é grande geradora de empregos e também de acidentes de trabalho, e nessa construção poética o acidente é focado com a mesma linguagem trágico-mágica: “E flutuou no ar como se fosse um pássaro / e se acabou no chão feito um pacote flácido / agonizou no meio do passeio público / morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

A partir daí, a letra vai trocando as rimas entre os versos, de modo que o filho “único” torna-se “pródigo”, como torna-se “bêbado” o passo “tímido”, as paredes “sólidas” passam a ser “mágicas” e comer feijão com arroz passa a ser “o máximo”. E “bebeu e soluçou como se fosse máquina”, como “dançou e gargalhou como se fosse o próximo” (o próximo a se acidentar?), e “tropeçou no céu como se ouvisse música” para morrer “atrapalhando o público”.

Essa cambiância ou troca-troca, como diria o caboclo, acaba sugerindo uma crítica ácida ao menosprezo tácito ou concordância implícita com o (felizmente decrescente) sacrifício usual dos trabalhadores na construção civil, com taxas de mortes ou ferimentos sempre previstos nas estimativas anuais. Chico contrapõe a essa visão conformática a visão marxista de valorização do operariado. Se, conforme o poeta Drummond de Andrade, de tudo fica um pouco, apesar do fracasso do marxismo socialista em todos os países onde foi instalado, dele ficou esse reconhecimento do valor humano dos trabalhadores, a serem vistos não apenas como peças apenas usáveis e descartáveis, mas como cidadãos merecedores de apreço público e direitos civis efetivos, essenciais na construção das civilizações.

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