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Londrina

Folha 2

m de leitura Atualizado em 06/08/2022, 00:04

Filme londrinense traz anjos reflexivos no céu da cidade

Filme de Adriano Garib, " O Céu Sobre Londrina" estreia neste sábado (6) em duas sessões gratuitas no Espaço Villa Rica

PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de agosto de 2022

Marcos Losnak/ Especial para a Folha
AUTOR autor do artigo

Foto: Anderson Craveiro/ Divulgação
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O cinema poder ser o melhor instrumento para revelar as relações entre o visível e o invisível. Com esse intuito, “O Céu Sobre Londrina” coloca dois anjos circulando pela cidade durante a pandemia de covid.

“O Céu Sobre Londrina” marca a estreia do ator Adriano Garib como cineasta. Totalmente realizado em Londrina, o filme estreia neste sábado (6), em duas sessões gratuitas no Espaço Villa Rica às 19h30 (com lotação esgotada) e às  21h.

"O Céu Sobre Londrina": inspirado livremente em "Asas do Desejo", de Wim Wenders, filme é uma reflexão sobre os impactos da pandemia da Covid-19 "O Céu Sobre Londrina": inspirado livremente em "Asas do Desejo", de Wim Wenders, filme é uma reflexão sobre os impactos da pandemia da Covid-19
"O Céu Sobre Londrina": inspirado livremente em "Asas do Desejo", de Wim Wenders, filme é uma reflexão sobre os impactos da pandemia da Covid-19 |  Foto: Anderson Craveiro/ Divulgação
 

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O média-metragem de 35mim narra a trajetória de dois anjos que pousam em Londrina durante a pandemia de covid-19. Possuem como missão acompanhar dois habitantes angustiados: um professor aposentado que possui os olhos voltados para o passado e uma jovem estudante que possui os olhos voltados para o futuro.

Ao acompanhar o cotidiano dessas duas figuras imersas no desamparo causado pela pandemia, os anjos chegam a conclusão que não existe julgamento possível para as ações humanas: “Nas desgraças há mais coisas a admirar do que a desprezar nas pessoas”.

Com direção de Adriano Garib, o filme possui roteiro do próprio Garib em parceria com Maurício Arruda Mendonça. Integram o elenco os atores Cláudio Müller, Luli Rodrigues, Raquel Santa'nna e Garib.  Unindo imagens da cidade e diálogos entre anjos, “O Céu Sobre Londrina”

procura revelar como cada ser humano faz parte determinante do mundo. E que o mundo, como o consideramos, não pode existir sem cada um nós. Ou como nas palavras atribuídas a Buda que aparece no final do filme: “Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos nosso mundo.”

A seguir, Adriano Garib, que integra o elenco da série “Bom Dia, Verônica” que acaba de estrear sua segunda temporada na Netflix, fala de seu primeiro filme. 

“O Céu Sobre Londrina” é livremente inspirado em “Asas do Desejo”, filme de Wim Wenders de 1987. Que relação você estabelece entre os dois filmes?

A motivação! O Wenders provavelmente foi levado a ideia pelo fato de a sociedade civil alemã na década de 1980 ainda estar brutalmente afetada não somente pela Segunda Guerra Mundial, um trauma coletivo difícil de superar para os alemães, como também pela divisão ideológica ocidental-oriental ainda em vigor no país quando ele fez o filme. É uma sociedade visivelmente deprimida a que Wenders retrata no filme. Portanto, a “presença” dos anjos é quase inevitável, pois quando cresce demais o sentimento de desamparo, essas figuras celestes – tão estimadas por nós, humanos, por razões óbvias e independentemente de fé ou religiosidade – se justificam quase como

uma consequência da aguda crise coletiva. No nosso caso, o contexto me pareceu flagrantemente similar, pois em função de uma crise sanitária, econômica e também política, me pareceu muito adequado versar sobre a presença dos anjos sobre a cidade, mostrá-los cuidando mais das crises existenciais dos habitantes do que propriamente dos doentes. Os doentes já têm anjos o bastante cuidando deles. O SUS é uma legião de anjos. Basta acompanhar o dia a dia de uma unidade do SUS para saber o quanto essa gente se sacrificou para segurar a onda de um governo irresponsável. Ademais, versar diretamente sobre a pandemia nos pareceu espinhoso, pois não há como expressá-la artisticamente! Um trauma coletivo muito violento e recente é quase um impeditivo, pois nada é capaz de expressar dor tão profunda e recente.

Apesar de você fazer uso de figuras angelicais, “O Céu Sobre Londrina” não possui nenhum elemento religioso. O que isso representa?

Ainda bem que você se deu conta disso, é fato! Apesar disso, é inevitável que muitos espectadores tenham uma leitura religiosa, ou cristã, do filme. Isto é inevitável por causa do estigma predominantemente cristão dos anjos. Acontece que uma articulação muito religiosa reduziria o filme a um tipo específico de crença ou prática religiosa, e isto nos pareceu empobrecedor do ponto de vista da fé – sentimento

fundamental em crises como a que a gente atravessa. A fé não é exclusividade de uma ou outra religião. Tampouco Deus, ou o conceito de Deus. Por isso, nos pareceu mais adequado evitar um tipo específico de iconografia religiosa ou uma abordagem específica de determinada religião.

O elenco e a equipe de produção de "O Céu Sobre Londrina". filme marca a estreia de Adriano Garib como diretor O elenco e a equipe de produção de "O Céu Sobre Londrina". filme marca a estreia de Adriano Garib como diretor
O elenco e a equipe de produção de "O Céu Sobre Londrina". filme marca a estreia de Adriano Garib como diretor |  Foto: Mariana Boligian/ Divulgação
 

O filme revela que quando o desamparo ganha grandes proporções, os anjos aparecem para apaziguar o coração dos humanos. Para você esse seria o papel dos anjos?

Não sei qual é a papel dos anjos, tampouco se existem de fato! Para mim a figura dos anjos, do ponto de vista cinematográfico, representa a fé necessária (em si mesmo e no destino do mundo) para seguir em frente, apesar das desgraças e dificuldades. De outro lado, acho esse tema, a relação entre o visível e o invisível, um motivo muito rico para o cinema. Se o cinema não ousar revelar, de uma ou outra forma, as relações possíveis entre o visível e o invisível, quem o fará? A ciência, via de regra, se ocupa do visível. A religião se ocupa do invisível. À arte, neste caso, resta a espinhosa responsabilidade de estabelecer conexões entre essas duas dimensões.

“O Céu Sobre Londrina” pode ser considerado um retrato subjetivo da pandemia?

Nossa intenção foi fazer, antes de tudo, um relato documental deste período, um retrato objetivo da pandemia, porém sem entrar no drama dos hospitais e dos doentes, pois isto seria, além de extremamente espinhoso e artisticamente irrepresentável, reducionista demais do ponto de vista de todos os outros profundos impactos que a pandemia teve em nossas vidas. A  Covid não matou apenas milhares de pessoas, ela virou do avesso nossas vidas! Nos fez pensar em nosso presente de um modo nunca antes refletido. A Covid também nos atirou ao passado e ao futuro, na tentativa de tentar dar conta de um presente tão inapreensível e complexo. Isto é o essencial no filme! A subjetividade no filme fica por conta da presença dos anjos, que representa muito mais nossos próprios anseios, medos, desejos, pressentimentos e pensamentos do que qualquer outra coisa.

SERVIÇO

“O Céu Sobre Londrina”

Quando – Sábado (6), às 19h30 (ingressos esgotados) e às 21h em sessão extra

Onde – Espaço Villa Rica (Rua Piauí, 211)

Duração – 35 minutos

Quanto – Gratuito (retirar ingressos no local uma hora antes)

Patrocínio – Promic - Programa Municipal de Incentivo à Cultura

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