Em "Criaturas Criadoras", a escritora e multiartista paranaense une palavra, colagem digital e fios reais para investigar a maternidade, o julgamento social e a violência contra as mulheres

Com este trabalho, a escritora e multiartista paranaense Edra Moraes conquistou o primeiro lugar na categoria 11, Artes Visuais, do Concurso BELO 2026, uma das principais iniciativas internacionais que usam a arte para combater o estigma da saúde mental.

Promovido pela Fundação Europamundo, com apoio do Rotary, o BELO (Brillando en la Oscuridad) recebe obras de participantes de todos os países, em espanhol, português, inglês e árabe, distribuídas em 22 categorias, que vão de relatos e artes visuais a música, audiovisual e redes sociais.

Em 2026, os finalistas vieram de 20 países de América Latina, Europa e África. Só em Artes Visuais, as obras classificadas até as fases finais representavam 12 países. A premiação aconteceu em 8 de outubro, em Madri, com transmissão ao vivo pelo YouTube.

A obra vencedora, "Criaturas Criadoras", é uma colagem digital impressa em papel algodão (40 x 60 cm), finalizada com elementos reais, como fios vermelhos, o que torna cada cópia única. Na imagem, uma figura feminina de manto branco e rosto coberto por um adorno de contas carrega, no lugar do ventre, um ovo ornamentado, cercada por anjos barrocos sob um céu de tempestade. Ao redor da cena, os versos do poema correm na vertical, em colunas separadas por linhas vermelhas.

"Criaturas Criadoras", colagem digital em papel algodão com fios vermelhos, 40 x 60 cm: obra de Edra Moraes vencedora da categoria Artes Visuais do Concurso Belo 2026
"Criaturas Criadoras", colagem digital em papel algodão com fios vermelhos, 40 x 60 cm: obra de Edra Moraes vencedora da categoria Artes Visuais do Concurso Belo 2026 | Foto: Divulgação

A obra parte de um poema em forma de ladainha. A cada repetição do refrão "Bendita somos nós! Parir é a nossa sina!", o louvor à maternidade vai se transformando em denúncia: o mesmo ventre sacralizado como origem da vida é responsabilizado por quem a destrói. A colagem traduz essa tensão em imagem, entre o sagrado e a ameaça, a mulher venerada e a mulher culpada.

POEMA EM LIVRO

O poema integra o primeiro livro da autora, "Da Divina, da Humana e da Profana", realizado com apoio do PROMIC - programa Municipal de Incentivo à Cultura - no projeto Tríade (2010). Nele, Edra partiu de experiências pessoais de violência e do julgamento social sobre a maternidade para falar do que havia sido silenciado, num gesto em que o discurso vinha antes da forma. Dessa estreia ao reconhecimento atual, a artista construiu um percurso que passa por "Para Ler Enquanto Escolhe Feijão" e "Sem Alarde, os Poemas Sangram", livro em que, segundo ela, emergiu a poeta e escritora.

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Hoje, a pesquisa de Edra circula entre poesia, colagem digital, livro-objeto, videoarte, instalação e performance poética, com foco em narrativas silenciadas, corpo político, memória, trabalho das mulheres e saúde mental. A palavra segue central, mas não é a única possibilidade: o trabalho atual é de aprofundamento de uma linguagem própria, construída no trânsito entre plataformas e materialidades.

"Há coisas que a gente não consegue explicar. Então, a gente cria. Escreve. Recorta. Cola. Desenha. Inventa outras formas de dizer. A escrita e a arte são ferramentas fundamentais do meu trabalho. É o que chamo de escrita curativa: não como promessa de cura, mas como possibilidade de elaborar o que me atravessa, encontrar palavras para aquilo que ainda não tinha nome e transformar experiências em linguagem."

* Com assessoria.

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