Tenho curiosidade sobre os bastidores de uma campanha eleitoral. Tenho motivos para dizer que há excessos dentro e fora. Mesmo sendo editora de cultura, não me esquivo da política, afinal, não vivo em Marte nem em Nárnia, o território mítico criado pelo escritor irlândes Clive Staples Lewis.

Na vida real, em plena campanha eleitoral para eleger o presidente da República, sobre o que deve escrever uma jornalista sem que pareça viver em Nárnia? Sobre política, ainda que se pegue o tema pelas beiradas para não ofender as torcidas.

Soube, por exemplo, que o consumo de café tem um aumento significativo no período eleitoral. Nos bastidores, o café é o combustível dos candidatos, assessores e equipes de marketing. Mas fora as cafeteiras operando sem descanso, há outros excessos.

Divirto-me vendo candidato sisudo, engravatado o ano inteiro, fazendo dancinhas em palanques. Fico imaginando o esforço das criaturas para coreografar os jingles das campanhas enquanto se balançam como dançarinos de funk mal ensaiados. Periga deslocarem alguma vértebra.

Um dos pioneiros deste tipo de dança foi Donald Trump, balançando-se ao som de Y.M.C.A. do grupo Village People. Eu rio porque o Village People era um grupo de forte apelo gay, segmento da sociedade que não tem exatamente a simpatia do presidente dos EUA, um homem avesso à diversidade como demonstrou, mais de uma vez, cortando verbas em universidades para programas e pesquisas diversas. Mas em campanha vale tudo: até dançar Y.M.C.A. para tesourar as verbas da diversidade depois de eleito.

Javier Milei, adepto das micagens de Trump, também dançou em comícios ao som da música Panic Show, do grupo argentino La Renga. Milei sacudindo a cabeleira num palco, como fez em visita ao Brasil, lembra um personagem mal acabado, protótipo de um Frankenstein que descobriu o rock. Admiro a coragem desses homens da política que não têm medo do ridículo.

No Brasil os candidatos também dançam, um se achando favorito ao som de "Zero Um, Novo Capitão." Outro dançando forrós ou o "Hino da Vitória".

E vejam só como uma jornalista de cultura pega a crítica pelas beiradas, escreve sobre danças e músicas, para não dizerem que estou fora do meu papel, mas não vivo em Nárnia.

Vivo no Brasil no ano de 2026, a menos de dez dias da eleição e não posso deixar de registrar os excessos que vão de discursos falseados, para ganhar a simpatia popular, a mudanças de voto quando se trata do fim da escala 6X1, que teve aprovação recorde no Senado, na última quarta-feira, depois de muita enrolação.

Agora vale tudo: até a IA do Whats, da Meta, recusar-se a gerar imagens associadas à campanha de Lula, um recado explícito de Washington e das big techs. Mas como experimento de tudo, posso afirmar que o Gemini, do Google, ainda faz este tipo de conteúdo. Testem lá para ver.

Com os dedos coçando para não dar mais nomes aos bois, finalizo a coluna para sinalizar que não vivo em Nárnia e, neste momento, meu País precisa de mentes lúcidas, não de dancinhas para fingir juventude ou conexão com pautas progressistas. No Brasil, o modo de fazer política ainda é muito velho, vai de trapaças a compra de votos por alguns candidatos. E não adianta dançar fora da música. O mau ator não convence.

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