Não foi da noite para o dia que a demi-solista do Ballet Estatal da Baviera, em Munique (Alemanha) Ana Gonçalves, chegou aonde está. Aos 23 anos, a londrinense soma 20 de dedicação à arte e sua trajetória ímpar causa admiração entre quem almeja o reconhecimento e, sobretudo, em profissionais renomados - e que a aplaudem de modo ovacionado.

Sua iniciação no balé se deu aos três anos de idade, no Adanac - Centro de Dança e Artes. Aos cinco anos, foi para a FUNCART — Fundação Cultura Artística de Londrina, onde se formou aos 15 e, por muitos anos, a Fundação foi a sua segunda casa. Em 2019, a bailarina recebeu uma bolsa de estudos para a Escola Estatal de Ballet de Berlim, na Alemanha.

Jovem e determinada, Ana Gonçalves admite que o apoio da família foi essencial para concretizar os seus sonhos. Em entrevista à FOLHA, a bailarina e sua mãe, Fernanda Moura, narram como tudo aconteceu e de que forma o sucesso na Alemanha é acompanhado pela família - com zelo, apoio e a superação das barreiras físicas.

Ana Gonçalves em apresentação no Teatro Nacional de Munique: bailarina começou a estudar aos três anos, em Londrina
Ana Gonçalves em apresentação no Teatro Nacional de Munique: bailarina começou a estudar aos três anos, em Londrina | Foto: Nicholas Mackay/ Divulgação

A VIDA EM ALGUMAS MALAS

"Chegar à Alemanha com recém-completados 17 anos, depois de sempre ter morado com a minha família, e de repente carregar a minha vida inteira em algumas malas rumo ao completo desconhecido foi um grande desafio. Era uma nova cultura, uma língua completamente diferente e, além de tudo, eu precisava lidar sozinha com a distância, as burocracias e aquilo que, para uma brasileira, era desconhecido: a frieza alemã. Tudo isso em uma língua que, até então, eu não dominava. Eu diria que essa adaptação foi, sem dúvida, a parte mais difícil da minha trajetória".

Com maturidade, Ana Gonçalves descreve como foi desafiadora a sua escolha. À época, levou em consideração também o fato de, entre as bolsas que recebeu, escolher Berlim porque, além da formação artística, a escola oferecia também um bacharelado em Artes. Assim, em janeiro de 2020, aos 17 anos, mudou-se para a capital da Alemanha, dando início a seus estudos.

O seu desembarque em Berlim se deu no meio do ano escolar europeu e, para ela e sua família, era de extrema importância a conclusão dos estudos no Brasil. Assim, antes da mudança, no final de 2019, concluiu o Ensino Médio regular somado a um diploma americano. "Apesar de o ballet sempre ter sido o meu foco, minha mãe fazia questão de que eu também fosse uma boa aluna e levasse minha formação acadêmica a sério", expõe.

Hoje, depois de quase sete anos, ela considera que está devidamente adaptada à cultura e à língua. "E, por mais que a distância me mantenha fisicamente separada da minha família, sempre tive a certeza de que poderia contar com o apoio deles e de que, independentemente de qualquer coisa, eles estariam lá por mim. Foi, em grande parte, graças ao apoio da minha mãe e dos meus avós, que consegui chegar até aqui", agradece.

De modo sagrado, afirma que sempre faz questão de mantê-los informados e envolvidos na em sua vida. "Hoje temos a sorte de contar com a internet, que torna o mundo muito mais integrado e permite que, mesmo estando tão longe, eu continue compartilhando com eles momentos da minha vida", alegra-se a bailarina.

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UM LUGAR ESPECIAL

Para Fernanda Moura, mãe de Ana, a percepção sobre a seriedade da filha para com o balé aconteceu aos poucos. "Eu fui ginasta e fiz ballet na infância, mas nunca coloquei sobre ela a expectativa de transformar a dança em profissão. Durante muito tempo, inclusive, perguntava se não queria parar, mas ela sempre dizia que não. Com o passar dos anos, compreendi o lugar especial que o balé ocupava em sua vida. Ela queria estar no estúdio, ensaiar, dançar nos finais de semana e, principalmente, superar a si mesma. Nunca se comparou aos outros e sua maior cobrança era ser melhor do que havia sido no dia anterior", divide.

Recorda ainda que quando se decepcionava consigo mesma, às vezes chorava e dizia: “Mamãe, deixa eu chorar. Mas é só hoje. Amanhã eu sou uma nova pessoa para lutar novamente.” Essa frase traduzia muito de sua personalidade e da maneira como enfrentava as dificuldades", lembra.

Em todo esse percurso artístico e profissional, não faltam lembranças para Fernanda Moura. "No Brasil, sem dúvida, o espetáculo mais marcante foi a formatura dela na FUNCART. Ela completava 15 anos e interpretou Aurora, de 'A Bela Adormecida', personagem que também tem essa idade. Foi emocionante vê-la em um papel tão importante e reconhecer, no palco, toda a evolução que acompanhei desde os três anos. Mais tarde, depois que se tornou profissional, assisti a alguns espetáculos em Berlim e Munique. Entre eles, guardo com especial carinho a Triple Bill, em Munique, principalmente "A Sagração da Primavera", na versão de Pina Bausch, com Stravinsky executado ao vivo pela orquestra. A força da obra, a música e a presença dos músicos e dos bailarinos criaram uma experiência indescritível. Em contraste, Bella Figura, de Jiří Kylián, trouxe delicadeza, sensibilidade e uma reflexão sobre a condição humana", descreve.

Diante dos olhos de Fernanda, assistir às duas obras na mesma noite e ver a filha inserida naquele universo como bailarina profissional foi algo que guarda para sempre. "Naquele momento, eu via no palco o resultado de todos aqueles anos: a menina que começou a dançar aos três anos, formou-se pela FUNCART, e que hoje, depois de tantos caminhos percorridos, está mundo afora, vivendo profissionalmente daquilo que escolheu e levando consigo o sonho que começou ainda menina aqui em Londrina", declara.

Ana Maria Gonçalves, bailarina profissional do Ballet Estatal da Baviera, em Munique, começou a estudar dança aos três anos, em Londrina
Ana Maria Gonçalves, bailarina profissional do Ballet Estatal da Baviera, em Munique, começou a estudar dança aos três anos, em Londrina | Foto: Miljiana Bernal/ Divulgação

ARTE VALORIZADA

Uma das coisas que mais encantam Ana Gonçalves na Europa é a valorização da arte e da cultura. "Os teatros estão constantemente cheios de pessoas de diferentes idades, e é muito bonito ver o reconhecimento de uma profissão que, de onde eu venho, ainda é pouco compreendida como uma carreira profissional. Aqui, temos espectadores e fãs que fazem questão de acompanhar todos os espetáculos — ou pelo menos a maioria deles — e isso demonstra uma valorização muito especial do nosso trabalho", observa.

A bailarina reconhece que o balé como profissão é extremamente competitivo. "Para chegar ao nível profissional, não basta apenas ser talentoso ou trabalhar muito. É preciso, de certa forma, estar no lugar certo, na hora certa, ser a pessoa certa para determinada companhia e, obviamente, ser apaixonado pelo que faz — apaixonado a ponto de ser quase obcecado", pontua.

Sem que tenha tido uma adolescência convencional, sente-se realizada. "Mas não trocaria nada do que vivi e, principalmente, nada daquilo que deixei de viver — porque todas essas escolhas me trouxeram exatamente até onde estou hoje", ratifica. Com orgulho e amor pela rotina que construiu, descreve que seu dia de trabalho começa às 10 horas, mas geralmente chega pelo menos meia hora antes para se aquecer adequadamente antes da aula de ballet, que dura cerca de uma hora e quinze minutos. "Depois da aula, passamos o restante do dia em ensaios para os espetáculos, normalmente até as 18h, com as devidas pausas para o almoço e pequenos intervalos de aproximadamente 15 minutos", relata.

A bailarina Ana Gonçalves destaca que por se tratar de uma profissão de natureza muito específica e fisicamente exigente, a rotina pode variar bastante de acordo com a programação da companhia e dos espetáculos. "Ao mesmo tempo, os bailarinos profissionais são protegidos por leis trabalhistas específicas que levam em consideração as particularidades e as exigências da profissão. "No fim, apesar de todos os desafios, sacrifícios e renúncias, não consigo imaginar minha vida de outra forma. O ballet faz parte de quem eu sou e, hoje, poder viver profissionalmente daquilo que começou como uma paixão aos três anos de idade é algo pelo qual sou profundamente grata."

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