Domingos Pellegrini lança 'Terra Brava', uma antologia de contos
Livro publicado pela Pêssoa Editora revisita o universo masculino do interior brasileiro com histórias imperdíveis
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Livro publicado pela Pêssoa Editora revisita o universo masculino do interior brasileiro com histórias imperdíveis

O escritor londrinense Domingos Pellegrini está lançando um novo livro. Trata-se de "Terra Brava - Histórias de Homens", publicado pela Pessôa Editora, uma antologia de contos com 192 páginas. Com uma seleção feita toda pelo autor, os contos apresentam os homens como protagonistas. A proposta é parte de uma composição, "Rodando a Saia - Histórias de Mulheres", a ser lançada.
O livro revisita o universo masculino do interior brasileiro ao longo das décadas. Caminhoneiros, peões, camelôs, soldados e pais de família surgem ligados por um mesmo solo simbólico: o barro vermelho do trabalho, da colonização e da resistência. As seis narrativas reunidas formam um mosaico do Brasil rural-industrial, marcado por ética, desgaste humano, memória e oralidade. Uma obra considerada de maturidade literária, com linguagem precisa, densa e profundamente enraizada.
Em "Terra Brava", o leitor terá a oportunidade de ler "O Encalhe dos Trezentos", premiado no Concurso Nacional de Contos do Paraná em 1976, na categoria Revelação. Também compõe a publicação os contos "O Homem Vermelho" (antes com o título "Duas Perobas") e "A Maior Ponte do Mundo", publicados no livro "O Homem Vermelho", contemplado com o Prêmio Jabuti em primeiro lugar em 1977. Já os contos "Cachorros de Guerra", "Terceiro Turno" e "Viagem" são originários do livro "Tempo de Guerra", de 1997 e, segundo o autor, foram reescritos.
Leia a seguir a entrevista do autor concedida à Pessôa Editora, que distingue-se ao optar por vendas on-line, sem distribuição em livrarias e por primar por uma editoração gráfica que valoriza o livro como objeto cultural. A entrevista é parte do box da publicação. De forma atraente, a editora renova essa que é uma das maiores invenções da humanidade e considera que o livro de papel não só não morreu como renasce renovado.
Sua formação literária se deu em um período muito fértil da cultura brasileira. Os anos 60 em diante. Quais leituras e experiências moldaram o jovem escritor que você foi e ainda dialogam com o autor que você é hoje?
Comecei a escrever durante a ditadura de 1964/79, meu primeiro livro de contos, "O Homem Vermelho", foi publicado em 1977, e não teve qualquer problema com a censura pois, apesar da maioria dos contos focarem trabalhadores, o tom não era de denúncia ou ideologia, mas de compreensão e humanidade. Em toda minha literatura isso continuou, a procura por compreender as motivações e capacidades do ser humano.
Sua obra transita com naturalidade entre romance, conto, crônica e literatura infantojuvenil. Há algo que muda no seu processo criativo conforme o gênero, e o que permanece como núcleo estável da sua escrita?
O eixo é sempre o mesmo, a procura de compreensão, no sentido de entender a vida em sociedade. O inferno são os outros, disse Sartre, eu prefiro ver que o mundo são os outros. Assim, desde os motoristas de "O Encalhe dos Trezentos", primeiro conto de meu primeiro livro, meus personagens estão, como eu, tentando entender como viver melhor de corpo e alma, consigo mesmo e com os outros. Por isso “felicidade” é a palavra final de meu livro mais vendido, o romance juvenil "A Árvore Que Dava Dinheiro."
Ao longo de décadas de carreira, como você percebe a recepção de sua obra? Há livros seus que foram subestimados e que você gostaria que o público revisitasse?
O romance "Terra Vermelha" foi publicado por duas editoras que não promoveram o livro, que agora continua escondido numa terceira editora, apesar de elogiado como “obra-prima” pelos críticos Wilson Martins e Miguel Sanches Neto, tendo também merecido muitos comentários como o do jornalista Luís Nassif: “Um dos melhores romances de autor brasileiro”. Esteve para ser filmado mas o projeto não vingou. Espero que renasça, como uma fênix literária...
Ainda nesse sentido: você é um escritor que tem seis prêmios Jabutis, já escreveu pensando em prêmios ou isso acontece naturalmente?
Nunca inscrevi livro em concurso, os Jabutis vieram porque as editoras inscreveram. Eu só obedeço à vocação, que é um patrimônio genético, não pertence a mim, sou apenas o portador. Interessante é que essa vocação se manifesta como bem quer, praticamente me mandando escrever isto ou aquilo, de modo que tive fases de escrever haicais, juvenis, romances, quando Ela, como chamo a vocação, manda e obedeço, até por saber que se tentar escrever outras coisas além do que ela está mandando no momento, nada sairá bom. Por isso, jamais escrevi por encomenda ou pensando no que for além da própria história ou do próprio momento criativo.
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O mercado editorial brasileiro mudou profundamente desde o início de sua trajetória. O que, na sua visão, melhorou — e o que se tornou mais difícil — para quem escreve e para quem publica hoje?
As livrarias quase acabaram mas o mercado de livros continua na internet. O e-book não vingou como se previa, o velho livro de papel continua entregue a domicílio, mas a leitura na telinha também avança. Certo parece que nada acaba, tudo se transforma. Mas parece também inegável que o talento continua a moeda mais valiosa nas artes.
Você sabe dirigir caminhão?
Se a pergunta se deve ao conto "O Encalhe dos Trezentos", esclareço que só rodei de caminhão quando menino, na carroceria, em caminhão de amigo de meu pai que ia buscar areia no Rio Tibagi. Depois, menino e rapazola, viajando de jipe pelas estradas de terra do Norte do Paraná, vi atoleiros com muitos caminhoneiros esperando a chuva parar e o sol voltar para se desatolarem e continuar viagem. E num dia de chuva, aos vinte e poucos anos, comecei a escrever o conto, que se passa em sete dias e escrevi em sete dias, parodiando o Gênesis.
Como se deu a organização de "Terra Brava"?
Embora o livro "O Homem Vermelho" tenha ganhado o Prêmio Jabuti em 1977, não autorizei segunda edição, por querer reescrever, mas Dona Vocação foi me mandando escrever outros livros e o tempo foi passando, até que setentão resolvi reescrever apenas três dos contos do livro, juntando com outros dois contos publicados noutro livro, todos com protagonistas homens. Cada conto é dedicado a um de meus mestres narrativos, desde o camelô Chico Passarinho, que menino vi formar roda em frente à Pensão Alto Paraná de minha mãe, para “vender conversa” como ele dizia. Outro conto é dedicado a Sam Peckimpah, o diretor do filme "The Wild Bunch", O Bando Selvagem, idiotamente traduzido para "Meu Ódio Será Tua Herança", um filme tão violento quanto humano. "Terra Brava" é um livro sobre homens em transformação.
Há contos no livro "Terra Brava" que você reescreveu. É possível saber quando uma história já está pronta ou não?
Toda vez que releio o que escrevi tenho gana de reescrever, decerto porque me transformo, a visão e a prática da escrita se aprimoram. Que bom, penso, sinal de que continuo vivo.

SERVIÇO
Terra Brava, de Domingos Pellegrini - Pessôa Editora
O livro está à venda no site da Pêssoa Editora
Valor:R$ 101,82


Walkiria Vieira
Repórter de Cultura, Educação e temas sociais.





