'O Morro dos Ventos Uivantes': um filme sem coerência
Filme sem dimensão emocional ou psicológica, investe num erotismo rústico, em clima de romance sombrio
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Filme sem dimensão emocional ou psicológica, investe num erotismo rústico, em clima de romance sombrio
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA
E quem esperava algo mais consistente neste filme (bastante irregular), além de cenas que podem provocar suspiros e às vezes risinhos, com belas imagens, porém redundantes, e um enredo básico, mas às vezes assumidamente semidivertido, mesmo com alguns momentos razoavelmente bem executados?
“O Morro dos Ventos Uivantes”, no momento injustificadamente dominando as bilheterias universais, sobrevive em suas duas horas e quinze por conta de provocações baratas pela via de erotismo rústico e obssessivo na tentativa de criar um romance sombrio, mais ou menos gótico à força, visualmente impactante e bonito: mas resulta em espetáculo superficial e irregular.
Em cartaz em Londrina, a pretensamente audaciosa adaptação de Emerald Fennell da novela de 1847 de Emily Brontë conseguiu uma versão com inédita perspectativa mórbida que nenhuma das versões anteriores demonstrou. E isto graças ao seu cuidado nos detalhes e na pirotecnia visual. O papel principal, a personagem Catherine Earnshaw, é interpretado por Margot Robbie, produtora dos dois filmes anteriores de Fennell, com quem compartilha o desejo de refletir a emancipação feminina no cinema. A escolha da atriz que interpretou Barbie foi criticada pelos puristas, pois no livro Catherine é uma adolescente morena, enquanto a atriz australiana é loura e está com 35 anos.
Margot Robbie também apoiou com veemência a escolha de seu conterrâneo Jacob Elordi (a criatura do ótimo “Frankenstein” de Guilhermo del Toro) para o papel de Heathcliff, descrito no texto de Brontë como um “cigano” de “pele escura” – outra versão para o cinema, de 2011, e de outra diretora (Andrea Arnold), muito superior a esta, pela primeira vez entregou um Heathcliff adotado como descrito no original (o ator negro James Olson), com ilações não apenas sociais mas também raciais.
Longe de tentar uma adaptação mais fiel, a diretora oferece uma releitura contemporânea que tenta sem sucesso redefinir o clássico através de uma sensibilidade moderna.
Na concepção da Emeral Fennell, a história acompanha Cathy (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi), dois jovens que crescem juntos na mansão Earnshaw. Com o tempo, o vínculo entre eles se torna cada vez mais intenso, em especial fisicamente. Mas também repleto de obsessão, vingança e a pouco explorada divisão de classes sociais que os separa. Esse conflito estrutural, amor e ressentimento entrelaçados, serve como motor dramático da narrativa.
A paixão entre Cathy e Heathcliff finalmente explode, e eles embarcam em um caso tórrido e clandestino, caracterizado por sexo desenfreado em quartos, carruagens e nos próprios pântanos. Mesmo que a tal química entre a dupla de atores não compareça.
UMA PAIXÃO TÓXICA
Desde a primeira cena (um enforcamento na praça da aldeia, durante o qual várias mulheres fazem comentários de mau gosto sobre a ereção póstuma do condenado), Fennell brinca com um erotismo descarado abordado a partir de uma perspectiva feminina, uma resposta emocional a algo primitivo que, como ela mesma admitiu em entrevistas diversas, a cativou profundamente quando leu o livro pela primeira vez, aos quatorze anos. Os desejos e emoções implícitos no romance são continuamente expressos por meio de metáforas pouco sutis (gemas de ovo pegajosas, caracóis rastejando em sua baba brilhante e a massa esponjosa do pão) que aludem a secreções íntimas.
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A estética do filme é adaptada aos dias atuais por conta do figurino de Robbie, criado pela vencedora do Oscar Jacqueline Durran, que se inspirou nas eras elisabetana e vitoriana, e com uma clara homenagem ao vestido vermelho de Scarlett O'Hara em "E o Vento Levou”. Também incorpora criações da moda contemporânea; o design de rodução de Suzie Davies, que lembra “Barbie”; a trilha sonora de Anthony Willis; e o hiperpop questionável de Charli XCX. É evidente que propriedades intelectuais tendem a cativar o público, que aprecia histórias familiares, então o sucesso do filme entre o público jovem-adulto pode já estar garantido.
Ele desconstrói e reconstrói à vontade um livro que explorou com engenho e arte as profundezas do amor e da separação, e o florescimento de uma paixão tóxica e autodestrutiva, retratada neste filme com intensidade selvagem e grotesca. Nada muito diferente da habitual teledramaturgia à brasileira, mas com uma enorme vantagem: em vez de sete, oito meses ou até um ano de capítulos diários, aqui felizmente tudo se esgota em pouco mais de duas horas. E o espectador mais exigente sai da sala e volta a refletir sobre “Hamnet” e “Valor Sentimental”. E volta a acreditar no melhor cinema.