Denise Fraga arrebata o público com "Eu de Você"
Com o Teatro Ouro Verde lotado em duas sessões, espetáculo trouxe à plateia do FILO a força da convergência entre a vida e arte
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Com o Teatro Ouro Verde lotado em duas sessões, espetáculo trouxe à plateia do FILO a força da convergência entre a vida e arte

Assistir ao espetáculo "Eu de Você" é ver a entrega absoluta da atriz Denise à sua arte: sua pulsação é teatro e vida.
Apresentado no Filo 2026 em duas sessões - na terça (16) e quarta-feira (17) - a montagem marca esta edição do festival como uma produção que equilibra a força das delicadezas.
O espetáculo, que estreou em 2019 e já percorreu o País, é consagrado pela crítica e o público. Mas, para além das informações de praxe, o espectador precisa entrar no teatro com o espírito livre, como os pés descalços de Denise Fraga em cena.

A movimentação da atriz arrebata como a metáfora de todas as emoções que atravessam o palco. Há uma mistura indissolúvel entre o texto e o corpo, a emoção e a reflexão, entre o cult e o brega.
O espetáculo se desenvolve a partir das narrativas de pessoas comuns como eu e você. Pessoas que amam e cantam a dor e o prazer de estarem vivas, sujeitas à rotina ou à imprevisibilidade do cotidiano.
São situações no trabalho, dessas que te obrigam a chamar o chefe de "gestor" ou "líder" em tempos de coachs de coisa nenhuma.
São memórias pessoais, dessas que se aprofundam como dedos na pele nem sempre macia das nossas relações com o Outro, são relatos simples e cheios de humor como contar aos amigos sobre as aulas de geografia na infância ou como é passar a noite num karaokê.
Tudo é pontuado pelo amor, esse sentimento que, dizem, todo mundo tem. Será?
Em tudo há a indicação de que viver é se relacionar com o Outro, aquele que se faz espelho de nossas emoções nos transformando no Eu de Você.
A interpretação da atriz é a síntese daquilo que comove, daquilo que dói, daquilo que incomoda, daquilo que transforma. Cantar "É o Amor", de Zezé Di Camargo exige nos gestos o baque da paixão, a expansão do choque amoroso, o tropeço da perda. Tudo está corpo, como está no texto, e pulsa. Denise Fraga canta esta canção e mais nove neste espetáculo.

Suas saídas do palco, para encenar junto com a plateia, é um espelhamento da arte na vida de pessoas comuns, como aquelas que deram depoimentos para serem transmutados no teatro sem que suas identidades se percam. As narrativas de Wagner, Fátima, Márcia ou Felipe estão ali representadas pela atriz e também nos telões onde eles aparecem contando suas histórias
'NÃO É SOLO'
Até por isso, Denise Fraga disse em entrevista à FOLHA que não considera o espetáculo um solo e tampouco um monólogo. Nem poderia.
Há uma banda de mulheres que a acompanha ao vivo, há todas aquelas vozes de pessoas que deram depoimentos para a montagem criada por Denise Fraga, pelo diretor do espetáculo Luiz Villaça e pelo produtor Zé Maria que, por sinal, estudou em Londrina, na UEL, como contou a atriz ao final do espetáculo ao agradecer ao público que lotou o Teatro Ouro Verde em duas sessões.
A "fila do Filo" para este espetáculo começava no saguão do Ouro Verde e se estendia até a rotatória da rua Minas Gerais. Não foi pouca coisa, foi muita, foi a prova calorosa de quanto Londrina ama o teatro.

UMA COLAGEM PODEROSA
"Eu de Você" é uma colagem poderosa de memórias, música e poesia, com composições tão diferentes quanto as de Zezé Di Camargo e Chico Buarque, fragmentos de Drummond, Paulo Leminski, trechos de Clarice Lispector que descrevem o ato de escrever como o ato de compartilhar, ideia que permeia toda a relação deste espetáculo como o "eu de você".
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Há várias maneiras de sair de um espetáculo: é possível que você saia e vá compartilhar com os amigos a emoção do viu, dividindo imediatamente sua experiência sobre aquela celebração entre os atores e o público.
E é possivel que você não saia do espetáculo imediatamente, voltando para casa com aquela carga de emoção, os volts criativos que alimentam sua própria pulsação, sua bateria de sensibilidades, para dar um tempo, refletir sobre o que assistiu como quem guarda o encantamento, procurando a reverberação total da emoção puxada por uma cena, uma mudança de voz, uma alteração de luz.
Essa foi minha experiência ao assistir a Denise Fraga em "Eu de Você" - ou seria Você de Mim?
Então, o jeito é guardar esse sopro, a inspiração criativa, a expiração do que o teatro faz emergir, porque o teatro provoca. E redigir o texto na manhã seguinte porque a gente escreve para compartilhar, mas para isso é preciso, primeiro, mergulhar.
"Eu de Você" é um mergulho no ponto em que vida e arte, definitivamente, se encontram.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.





