Seria só uma receita de "feijão-roxinho com batatinhas", uma refeição simples feita pela mãe, se não fosse o olhar de Adélia Prado atravessar aquele prato e tirar, do fundo da panela, a obra-prima "Solar", um de seus poemas que soa como epígrafe de um modo sensível de ler o mundo:

"Minha mãe cozinhava exatamente:

arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas.

Mas cantava."

Mineira de nascimento, do dente extraído aos ossos que agora rangem como as janelas de Divinópolis (MG), sua terra natal, Adélia Prado completou 90 anos no último dia 13 e - ainda que dezembro rompa o ano com uma pressa que nos atordoa - nunca é tarde para falar de sua poesia e celebrá-la como uma das coisas mais belas e profundas da literatura brasileira.

Não têm sido poucas as comemorações aos 90 anos de Adélia, dos quais cerca de 50 foram ofertados à poesia farta, já que publicou seu primeiro livro aos 40, apadrinhada por ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade, e não parou mais.

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Dos jornalões, que trazem matérias há mais de uma semana, às meninas do Ensino Médio de Divinópolis, que gravaram nove vídeos com seus poemas, Adélia é celebrada por todo o País, incluindo sua cidade onde a população a reverencia por seus versos, às vezes, motivados por um lugar tão pequeno mas que dão a dimensão de como a palavra faz tudo crescer.

(...)"Me lembrei de meu pai

corrompendo a palavra

que usava só para trens,

dizendo ‘cumpusição’.

O último vagão na curva

e passa o pobre friorento

de blusa nova ganhada.

Aquiesci gozosa,

a língua muda,

a folha branca,

a mão pousada."

(Poema "Divinópolis")

PREMIADA E INCANSÁVEL

Ganhadora dos prêmios Camões - uma das maiores honrarias concedidas a escritores da língua portuguesa - Jabuti e Machado de Assis, entre outros, a poeta tem mais de 20 livros publicados entre prosa, poesia e antologias. O mais recente, "O Jardim das Oliveiras" (Editora Record), tem 105 poemas inéditos e sai doze anos depois de sua última obra publicada. O título remete ao episódio bíblico em que Jesus se retira para o jardim, depois da Última Ceia.

Filha de um ferroviário e de uma dona de casa, ela nasceu em 1935 e começou a escrever poemas nos anos 1950 quando perdeu a mãe. Em 1955, ela se formou no Magistério e se tornou professora, profissão à qual se dedicou durante 24 anos, com uma peculiaridade: dava aulas com uma modernidade incomum para a época abordando, sem tabus, a sexualidade, segundo a declaração de uma de suas ex-alunas em matéria recente do G1.

SEM MORALISMOS

Não por acaso, sua obra traz um viés de religiosidade e sexualidade, de corpo e Deus. Uma junção que Adélia realiza sem pregação e sem moralismos.

Mesmo tendo nascido e vivido numa cidade pequena - mora em Divinópolis até hoje - ela se consagra como uma poeta cosmopolita que trata o papel da mulher sob diferentes aspectos, abordando o feminino em seus lugares culturais, sociais e históricos.

Sobre essa dimensão avançada de Adélia, sempre à frente de seu tempo, a professora, escritora e diretora do Londrix - Festival Literário de Londrina -, Chris Vianna declara:

"Na obra de Adélia Prado, o erotismo e a religiosidade se entrelaçam como expressões de libertação e plenitude feminina. Sua poesia une, celebra corpo e alma, sagrado e profano, transformando o cotidiano em espaço de revelação espiritual e sensorial. Ao tratar o prazer e o desejo como caminhos para o divino, ela rompe com a tradição judaico-cristã repressora e apresenta uma visão de fé vivida pelos sentidos, onde o corpo é um templo e o amor, a força central da existência."

Chris Vianna: "Na obra de Adélia Prado, o erotismo e a religiosidade se entrelaçam como expressões de libertação e plenitude feminina"
Chris Vianna: "Na obra de Adélia Prado, o erotismo e a religiosidade se entrelaçam como expressões de libertação e plenitude feminina" | Foto: Divulgação

Ela complementa: "é importante lembrar que, até a década de 1960, a visibilidade da produção literária foi dominada amplamente por vozes masculinas. O patriarcado, a cultura machista, o analfabetismo e a exclusão das mulheres de posições de poder imperavam completamente. Mas sua escrita desafia o patriarcalismo e afirma o feminino como território de criação e transcendência. Em Adélia, erotismo e fé se fundem em uma experiência poética que acolhe tanto a dúvida quanto o êxtase, celebrando a vida em sua totalidade. Adélia ressignifica o feminino ao valorizar o corpo, o amor e a fé vividos pelos sentidos, revelando um Deus íntimo, humano e presente na vida comum, que acolhe a dúvida e celebra o prazer como forma de comunhão com o sagrado."

'ESSA ESPÉCIE ENVERGONHADA'

A ressignificação do feminino e do lugar da mulher - "essa espécie envergonhada" - encontra-se em vários poemas, como no conhecido "Com Licença Poética", referência ao "Poema de Sete Faces", de Drummond de Andrade, com o qual estabelece um diálogo intertextual:

(...)"Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir."

A POETA QUE CANTA O 'MUSO'

Samantha Abreu, escritora e programadora cultural nas áreas de Literatura, Educação e Cinema, no Sesc Londrina Cadeião, destaca a inversão de papéis que Adélia Prado faz para tomar a autoria e cantar ao muso em sua dissertação de mestrado, defendida na UEL - Universidade Estadual de Londrina - em 2019:

"A poesia adeliana foi uma inversora de papéis: ela deu voz a uma trovadora que canta a um muso. Em minha pesquisa, intitulada “Poema começado do fim: Adélia Prado e a tomada da autoria para cantar ao muso” tive, inclusive, que justificar o uso do termo “muso”, tendo em vista que se trata de uma palavra que nomeia as entidades femininas inspiradoras dos poetas homens. Em muitos poemas, sobretudo nos livros “O Pelicano” (1987) e "A Faca no Peito" (1988), o eu-lírico de Adélia toma para si a autoria e canta ao muso Jonathan."

Samantha Abreu: "Ela foi uma inversora de papéis, deu voz a uma trovadora que canta o muso"
Samantha Abreu: "Ela foi uma inversora de papéis, deu voz a uma trovadora que canta o muso" | Foto: Divulgação

Ela também destaca o quanto Adélia é profana:

"Na religiosidade ela consegue ser muito profana. Em alguns poemas destinados a Jonathan, ela admira o corpo do muso como o de Cristo na cruz, ela deseja seu amor da mesma forma que professa o amor de Deus. A paixão do corpo é, também, um tipo de salvação."

No poema ‘A Terceira Via’, a poeta compara isso declarando sua paixão: "

“(...) adoro Cristo na Cruz

Meu desejo é atômico.

minha unha é como meu sexo.

Meu pé te deseja, meu nariz.

Meu espírito — que é o alento de Deus em mim — te deseja (...)”.

Também no poema 'O Sacrifício', diz Samantha Abreu, ela sentencia

(...)“sangue invisível pulsando na presença Santíssima.

"Eu canto muito alto: Jonathan é Jesus”.

UM LUGAR NA LITERATURA

A potência da obra de Adélia e o lugar que ela ocupa na literatura também são enfatizados pela poeta londrinense Karen Debertólis:

"A poesia de Adélia Prado marca posição importante na literatura escrita por mulheres pela produção em si, estética e temática, mas também como forma de incentivar mulheres a se assumirem como escritoras, um ato que pode ser banal, mas não é, por conta do silenciamento ao qual as mulheres foram e, em certa medida, ainda são submetidas na sociedade contemporânea. Ter uma voz feminina e potente como referência faz toda a diferença para jovens escritoras, especialmente se forem poetas."

DO INTERIOR DO BRASIL PARA O MUNDO

Mulheres que fazem literatura passaram a ter mais reconhecimento e a ocupar lugares de destaque depois de uma reivindicação que, há alguns anos, começou a ecoar de forma mais forte e clara, quando se observou que elas nem sempre eram convidadas para grandes eventos, pelo menos na mesma proporção que os homens, nem eram vencedoras contumazes dos principais prêmios literários, realidade que foi transformada aos poucos.

Pode-se dizer que no Brasil, Adélia foi uma pioneira ao furar este bloqueio há muito mais tempo, como uma pedra rara, a exemplo de Clarice Lispector, Hilda Hilst e outras autoras que foram suas contemporâneas.

Um ponto de interrogação é como uma mulher interiorana, que nasceu em 1935 e vive até hoje fora dos eixos culturais das grandes metrópoles, fazendo de Divinópolis um centro de irradiação de uma poética que ganhou o mundo, conseguiu tal feito nas décadas em que a poesia ainda não havia ganhado asas pela internet furando bloqueios não só de gênero, mas também geográficos.

Karen Debértolis: "Com a tecnologia, o cenário literário mudou e se deslocou geograficamente, na minha opinião"
Karen Debértolis: "Com a tecnologia, o cenário literário mudou e se deslocou geograficamente, na minha opinião" | Foto: Natália Lima Castro/ Divulgação

Karen Debertólis arrisca uma resposta;

"Eu considero que a questão geográfica é relativa, depende sempre mais da potência do trabalho, da escrita, e das articulações no círculo literário como um todo - entre pares, com instâncias curatoriais, contatos que possam levar à publicação da obra. Certamente para a geração de Adélia foi mais complicado porque não se estava em rede, a tecnologia tem ajudado a quebrar barreiras nesse sentido. O cenário literário mudou e se deslocou geograficamente, na minha opinião."

Assim, em mais de meio século de obras e mudanças culturais, a voz poética de Adélia Prado, mais que um eu-lírico, foi abrindo caminhos para um "nós-líricas" que merece ser celebrado como desafio, ousadia e conquista em seus 90 anos.

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