George Clooney é, em certo sentido, a escolha ideal para a reflexão que o diretor Noah Baumbach faz em “Jay Kelly” (estreia na Netflix) sobre os descontentamentos recentes deste astro de cinema americano. "É como um filme em que eu interpreto a mim mesmo", diz o galã do título. Bem, sim, é isso mesmo. Clooney, por algumas décadas, pareceu o ideal platônico do grande astro. Em outra parte do filme, Jay Kelly – não George Clooney, entenda bem – pronuncia seu próprio nome ao lado dos nomes de Clark Gable e Cary Grant. Parece que o personagem é realmente um sucessor desses mitos intocáveis; mas, ao contrário deles, Clooney sempre foi mais famoso por ser um astro de cinema do que por ser o astro dos filmes.

Mais a ver com tapete vermelho, menos com conhecer o ofício. Uma investigação desse dilema poderia ter rendido um filme mais interessante. Baumbach preferiu algo mais convencional: uma sátira de como o estrelato separa o "talento"; da realidade.

O filme realmente reflete como o estrelato funciona. O roteiro, do diretor e de Emily Mortimer, acumula ironia com admirável diligência. Mas isso é tão inovador quanto zombar de Donald Trump por ele ser alguem tão estúpido. Mas apesar deste e de outros senões, “Jay Kelly”, filmado em grande parte em locações europeias, oferece do início ao fim entretenimento de certa classe.

George Clooney em "Jay Kelly): filme é uma sátira de como o estrelato separa o "talento" da realidade
George Clooney em "Jay Kelly): filme é uma sátira de como o estrelato separa o "talento" da realidade | Foto: Netflix/ Divulgação

Em meio a correrias, alvoroço e muita conversa entre lamúrias existenciais, familiares e acertos de contas e dores/culpas afetivas, o que temos é uma longa aventura picaresca que oferece alguns destaques interpretativos. Em meio a muita conversa e alvoroço, Adam Sandler se destaca como o leal agente/gerente de Kelly, o sujeito que o ajudou a sair de quase nada e a receber alguma insuficiente gratidão de seu empregador.

Como todos ao redor do astro, ele se comporta como se estivesse cuidando de uma criança bonita e muito rica. Afinal, dinheiro gera submissão.

O próprio Clooney se sai relativamente bem com aquelas centenas de olhares de surpresa e sobrancelhas arqueadas, mas nunca transmite a sensação de que esteja se esforçando, além de seu olhar de galã. O ator não faz o suficiente para transformar o filme no “8 e 1/2” felliniano ou no “Stardust Memories” de Woody Allen que ele gostaria. Ainda assim, “Jay Kelly” serve como passatempo.

UM FILME VALIOSO

São raros, os filmes que parecem retratar a totalidade de uma vida, atingindo a essência do que significa ser uma pessoa. Mas se tornam excepcionais quando conseguem dar esse recado com eficácia. “Sonhos de Trem/Train Dreams”, oferta preciosa também da plataforma Netflix, é um desses filmes, o tipo de obra com uma beleza que impressiona porque deixa o espectador absorto no relato que acabou de assistir e refletindo sobre a própria vida.

“Sonhos de Trem": uma história sublime e poderosa sobre um homem vivendo sua vida no início do século XX
“Sonhos de Trem": uma história sublime e poderosa sobre um homem vivendo sua vida no início do século XX | Foto: Netflix/ Divulgação

Este segundo longa-metragem de Clint Bentley (“Sing Sing”) é um primor, uma história ao mesmo tempo sublime e poderosa sobre um homem vivendo sua vida no início do século XX nos Estados Unidos. É uma vida simples, sem luxos, e ainda assim, a história de Bentley atingirá profundamente a sensibilidade do espectador e deixará uma marca como poucos outros filmes deste ano. É uma história passada no início do século XX sobre o Oeste americano, uma crônica lírica e pungente que se desenrola com a graça, o poder e a tragédia naturalista de um romance de Thomas Hardy. Esta é uma adaptação reflexiva, literária e visualmente suntuosa, um esplendor fotografado pelo brasileiro (paulista) Adolpho Veloso.

mockup