A estreia de 'Hope' é opção a explorar
Tom Cruise perde a vaga para uma explosiva ação sul-coreana, mix de ficção cientifica, terror, humor negro e western rural
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de outubro de 2026
Tom Cruise perde a vaga para uma explosiva ação sul-coreana, mix de ficção cientifica, terror, humor negro e western rural
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Michael Fassbender e Alicia Vikander são as presenças de maior destaque no elenco deste explosivo e surpreendente “Hope – O Primeiro Impacto”, filme sul-coreano com lançamento nacional nesta quinta-feira (8) em Londrina e em todos país. De fato, eles nem sequer aparecem na tela como os conhecemos. Mas o que ninguém poderia adivinhar é que esta estreia viria substituir a expectativa que cercou a presença de Tom Cruise no malfadado “Digger” : pelo menos em um dos multiplex de shopping da cidade o pretensioso filme da dupla Cruise/Alejandro Iñarritu não resistiu à falta de bilheteria.
Na realidade, a grande estrela de “Hope” não é nenhum de seus atores, mas sim o diretor, Na Hong-jin, que, graças aos seus três longas-metragens anteriores (somente dois ,“O Caçador /The Chaser”, 2008, e “O Lamento/The Wailing”, 2016, foram lançados no Brasil) , tornou-se um autor cult devido à sua habilidade excepcional de combinar diferentes gêneros em um todo precisamente coeso e absolutamente original.
Primeiro filme dirigido por Na em uma década, “Hope” combina, com grande efeito e a mesma graça, elementos de mistério policial, terror, comédia sombria, cinema de ação tipo sucesso de bilheteria e até do faroeste. Sua premissa é das mais simples: os habitantes de uma pequena cidade precisam enfrentar um grupo de alienígenas gigantescos – dotados de força e velocidade sobre-humanas e aparentemente indestrutíveis (Fassbender e Vikander interpretaram dois deles utilizando a tecnologia de “motion capture”, ou captura de movimento) que devastaram a localidade e a deixaram repleta de cadáveres.
Ao observá-los, o filme convida os amantes de metáforas a interpretá-lo como reflexão sobre a destruição causada pela ignorância, mas mostra-se mais interessado em oferecer perseguições, tiroteios e outros momentos de violência repletos de “slapstick” ou pastelão, comédia fisica em cenas deslumbrantes por sua inventividade e plasticidade.
Haverá quem questione a inclusão de um filme tão comercial quanto este, que estava este ano entre os concorrentes à Palma de Ouro – opinião respeitável, embora é provável que ninguém mais faça cinema comercial como este coreano.
O filme nos leva a Hopo Port, uma pequena cidade portuária da Coreia do Sul onde a tranquilidade vai pelos ares após uma descoberta estranha na floresta. No início, não se sabe muito bem o que está acontecendo, e é aí que o filme funciona maravilhosamente bem. Na Hong-jin adia a aparição da ameaça e joga com algo óbvio mas sempre eficaz: o medo daquilo que não vemos. Os personagens correm, se escondem, ficam desorientados e tentam entender uma destruição que está além de sua compreensão. Há algo invisível devastando o local e transformando aquela cidade em um campo de batalha absurdo, brutal. E muito divertido.

Há uma primeira hora (o filme tem quase três) que é o ponto alto da narrativa. O diretor demonstra talento extraordinário para a tensão física. Tudo tem peso, tudo causa impacto, tudo dói. Carros voam, corpos caem, personagens tropeçam, gritam, erram tiros, reagem com atraso e sobrevivem quase sempre por pura sorte. A ação tem energia contagiante, filtrada pela comédia sombria coreana, com policiais rurais e moradores sobrecarregados por uma situação que ninguém os ensinou a gerenciar.
Um dos grandes acertos de “Hope” é seu senso de humor. O filme não se leva muito a sério, e pouco importa, porque isso lhe cai muito bem. Não porque abra mão do terror ou da violência, mas porque entende que o caos também pode ser ridículo. Os personagens não são heróis elegantes nem sobreviventes perfeitamente preparados. São pessoas comuns, bastante desajeitadas, lançadas em uma catástrofe gigantesca.
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Acima de tudo, é um filme físico. Não há muito subtexto, se é que existe algum. Na verdade, também não há muito texto. O filme não joga exatamente esse jogo. Seu interesse está em outra parte: no golpe, no grito, no susto, na perseguição, na risada histérica, no prazer quase infantil de ver tudo indo para o inferno. Até porque “Hope” é, na verdade, Hope. Sua sequência já está em projeto, e esta primeira parte não termina realmente.
De fato, abre novas vertentes que poderiam trazer aquele contexto e profundidade ausentes em Hope. “Hope” não é obra-prima, mas é, sem dúvida, um filme enorme, selvagem, tresloucado, ora brilhante, ora exaustivo, que transita entre o terror rural, a ficção científica, a comédia sombria e o blockbuster de destruição em massa como se tudo pertencesse ao mesmo ecossistema. Talvez...quem sabe ?





