Atualmente ela é a escritora brasileira mais lida no país. A literatura da mineira Carla Madeira conquistou uma enorme legião de leitores e leitoras. Seus romances “Tudo é Rio” (2014), “A Natureza da Mordida” (2018) e “Véspera” (2021) já venderam mais de 1,4 milhão de exemplares. Algo extremamente raro na literatura brasileira.

Seu novo romance, “Quando”, que acaba de ser lançado pela editora Record, saiu com tiragem inicial de 100 mil exemplares e está na lista dos livros mais vendidos.

Não seria arriscado afirmar que se trata de sua obra mais elaborada. Traz uma narrativa que deixa de lado a simplicidade para dar um passo além em matéria de linguagem. A homofobia, com suas pequenas e grandes violências, ocupa lugar de destaque.

Como em seus romances anteriores, “Quando” está mergulhado no universo familiar e nas conturbadas questões da maternidade. Narra a história de Viridiana, uma mãe que, diante de um crime brutal realizado pelo filho adolescente Tito, assume a decisão de denunciar o próprio filho à polícia.

Após passar uma noite na cadeia, Tito foge de casa e desaparece no mundo. Viridiana amarga a ausência do filho por 20 anos, quando acontece uma tentativa de reaproximação. Dentro desse eixo, trafegam as outras duas filhas de Viridiana, Valquíria e Margarida, além no neto Francisco. Também trafega o elemento da discórdia, a jovem Maria: “Se essa história fosse uma música, Maria seria a nota mais comovente; se fosse sobre a existência, seria a faísca no instante preciso da fecundação; e, sendo uma história sobre o amor, e também sobre o desamor, que a tudo é dado o peso de seu contrário, Maria é eclipse total entre começo e fim, entre luz e pó.”

A trajetória de Viridiana, ambientada no Brasil da década de 1980, é permeada pelo machismo e pela homofobia. As pequenas violências funcionam como uma xícara de café que queima os lábios todas manhãs ao lado do pão com manteiga. Carla Madeira expõe as pequenas violências que acontecem cotidianamente no seio da família e da sociedade. Aquelas pequenas crueldades em que o sujeito praticante não considera como violência. Mas o objeto que a recebe, tem a vida perturbada – e pode precisar de anos ou décadas para tentar curar as feridas provocadas por essas pequenas violências.

Carla Madeira lança "Quando" com tiragem inicial de 100 mil exemplares, repetindo o fenômeno editorial de outros livros
Carla Madeira lança "Quando" com tiragem inicial de 100 mil exemplares, repetindo o fenômeno editorial de outros livros | Foto: Marcia Charnizon/ Divulgação

SIMILARIDADES NA OBRA

Os leitores de Carla Madeira devem encontrar em “Quando” proximidades com o romance anterior da autora, “Véspera”, publicado em 2021 pela editora Record. O universo familiar é semelhante, com um pai de família machista, a presença de dois irmãos antagonistas, as violências invisíveis que deixam marcas indeléveis, a reflexão sobre a peso da maternidade.

Se em “Véspera” existe uma mãe que abandona o próprio filho de cinco anos na rua, em “Quando” existe uma mãe que entrega o próprio filho à polícia. Mas os dois romances não são sobre abandono e delação. Na verdade, são sobre afetos. E como os afetos podem assumir a forma de um travesseiro aconchegante ou de uma tábua cheia de pregos.

Em “Quando”, Carla Madeira estrutura a narrativa em engramas. Na definição utilizada na neuropsicologia, engrama é “um traço permanente deixado no tecido nervoso por um estímulo marcante; diz respeito não apenas a um acontecimento memorável, mas a uma experiência capaz de alterar para sempre a matéria senciente.”

O romance traz uma estrutura que utiliza narrativa polifônica (diversas vozes), diálogos internos, junção de primeira e terceira pessoa numa mesma frase e outros recursos narrativos que fogem ao feijão com arroz característico da literatura best-seller.

A AUTORA

Como escritora, Carla Madeira está oferecendo novos desafios de linguagem aos seus leitores. Ignorada pela crítica especializada e desprezada pelos prêmios literários, Carla Madeira não se tornou a romancista mais lida do Brasil da noite para o dia, nem através de uma massiva campanha de marketing. Após décadas atuando como diretora de agência de publicidade em Belo Horizonte, publicou seu primeiro romance, “Tudo é Rio”, em 2014. O livro ganhou repercussão somente 17 anos depois, em 2021, através de um intenso boca a boca e da atuação de centenas de clubes de leitura espalhados pelo país.

A literatura de Madeira, nascida em 1964, está focada em uma temática contemporânea que oferece um retrato de mulheres diante de impasses afetivos, familiares e sociais. E a identificação dos leitores e leitoras é imediata. O cinema e o streaming já abraçaram suas histórias. “Tudo é Rio” está sendo transformado em filme com direção de Julia Rezende com estreia prevista para o segundo semestre de 2027. “Véspera” está sendo transformado em minissérie de 8 episódios pela Max HBO com estreia prevista para o primeiro semestre de 2027.

Imagem ilustrativa da imagem As pequenas e as grandes violências do cotidiano
| Foto: Divulgação

SERVIÇO:

“Quando”

Autora – Carla Madeira

Editora – Record

Páginas – 280

Quanto – R$ 69,90 (papel) e R$ 44,90 (e-book)

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