A variedade de soja geneticamente editada pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) que promete ser altamente produtiva e resistente à seca e ao calor pode ser introduzida no mercado em até três anos. Os avanços da empresa na área da genética foram um dos destaques da 63ª ExpoLondrina, em um painel realizado na última quinta-feira (10).

Uma primeira variedade desenvolvida a partir da técnica de edição gênica CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas) já havia sido considerada convencional e não transgênica pelo CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) em 2022. No ano seguinte, a nova variedade conquistou o mesmo resultado.

De acordo com o chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno, foram levados os genes de uma soja com maior tolerância à seca para uma das melhores variedades da empresa, o que possibilitou a junção das duas características para garantir maior resiliência da cultura no campo.

“O que nós queremos é reduzir as perdas do produtor. Durante a seca, a soja aborta a vagem, a flor. Quando ela sente a falta de água, ela sinaliza para as células que estão segurando o legume no pecíolo. Se eu atrasar esse processo, eu aumento a chance de vir uma chuva”, exemplifica Nepomuceno, que ressalta que não se trata de “fazer um cacto que produz soja”. “Isso não existe, porque são muitas variáveis. Se ficar quatro meses sem chover, vai morrer, não tem jeito.”

MESMA ESPÉCIE

A transgenia e a edição gênica têm diferenças importantes. A primeira, que já existe no mercado, consiste em adicionar genes de outras espécies na soja, mas trata-se de uma tecnologia ainda envolta em polêmicas e muito cara. A segunda, por sua vez, limita-se aos genes de uma única espécie.

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“No caso dos transgênicos, cada país criou uma regra e ficou extremamente caro, tanto que só tem grandes empresas trabalhando com transgênicos. Para colocar uma soja transgênica no mercado custa US$ 100 milhões”, explica o chefe-geral.

“Junto com a nova tecnologia do CRISPR vem uma legislação mais assertiva, porque fazemos o que a natureza já faz. Essa diversidade de plantas que já toleram a seca existe dentro da soja, mas normalmente são materiais que não produzem muito. E o CTNBio olhou e disse que não é transgênico, seria possível conseguir isso cruzando a soja A com a soja B. Já temos esse parecer em nível de pesquisa", acrescenta.

MESMAS FERRAMENTAS

Os avanços da Embrapa vêm em um momento importante para os estudos da genética. O chefe-geral lembra que o primeiro sequenciamento do DNA humano ocorreu em 2003, após 20 anos de pesquisa e com custo bilionário. Hoje, é possível sequenciar o mesmo genoma em algumas horas por US$ 500.

Com a nova variedade de soja desenvolvida pela Embrapa, os cientistas esperam reduzir as perdas do produtor
Com a nova variedade de soja desenvolvida pela Embrapa, os cientistas esperam reduzir as perdas do produtor | Foto: Marcos Zanutto/Arquivo Folha

“Essas são as mesmas ferramentas que nós usamos para sequenciar o genoma de variedades da soja, do milho, do algodão e da biodiversidade. Existe uma corrida grande para conhecer os genes que geram essa biodiversidade, o que gera cada espécie do planeta. O que cria a vida daquele ser vivo diferenciado? A base está no DNA, então entendê-lo e sequenciá-lo é importante”, explica Nepomuceno.

TESTES EM CAMPO

Com a confirmação de que a soja editada geneticamente continua sendo convencional, a empresa vem realizando testes em campo e multiplicando sementes. A previsão é ampliar os testes nas próximas três safras para as propriedades parceiras da Embrapa.

“Precisamos pegar a seca, o ambiente real, e se realmente confirmar [a resistência e a produtividade], podemos lançar [no mercado]. Selecionamos uma variedade altamente produtiva para fazer essa manipulação do DNA com o CRISPR, então a variedade está pronta. Agora, só temos que provar que a nossa hipótese está funcionando em campo e em diferentes regiões”, afirma Nepomuceno, que estima que esse processo vai levar de dois a três anos.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

O chefe-geral da Embrapa Soja ressalta que a seca é um fenômeno complexo que vem dando prejuízos para os agricultores. Nos estados do Sul, na safra 2021/22, as perdas foram de US$ 15 bilhões em soja não colhida, no que foi a maior seca nos últimos 90 anos. Foram US$ 6 bilhões só no Paraná.

O volume das perdas depende de quando a falta de chuva ocorre. Se é durante o crescimento da soja e há chuva depois, é possível se recuperar. Se ocorrer no momento da produção da vagem ou da flor, as perdas se intensificam.

“Se eu pegar uma seca de dez dias, é uma coisa; se for de dois meses, como foi em 2021/22, despenca. Depende muito do momento, da intensidade e da duração, porque não é só a falta de chuva, mas também o calor”, pontua.

“Se eu tiver uma variedade com essa característica que introduzimos e ela realmente produzir sob uma situação de seca, seja em um plantio direto bem feito ou em uma lavoura que não é tão caprichosa, mas com redução das perdas, vai valer a pena colocá-la no mercado”, reforça.

Em meio a esse cenário, a genética passa a fazer parte de uma estratégia que também depende do SPD (Sistema Plantio Direto), que prevê o revolvimento mínimo do solo, a rotação de culturas e a cobertura do solo.

“Quando vem uma seca e você não está preparado, já era, você perdeu a produtividade. É importante fazer um bom perfil de solo, com rotação de culturas e com um bom plantio direto”, finaliza Nepomuceno.

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