Sistema revolucionário reduz riscos no cultivo de grão
Resultado de 15 anos de pesquisa da Embrapa, Antecipe consiste em intercalar o milho nas entrelinhas da soja, antes da colheita da oleaginosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de abril de 2025
Resultado de 15 anos de pesquisa da Embrapa, Antecipe consiste em intercalar o milho nas entrelinhas da soja, antes da colheita da oleaginosa
Douglas Kuspiosz - Reportagem Local 

Desenvolvido pela Embrapa Milho e Sorgo (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) ao longo dos últimos 15 anos, um revolucionário sistema de produção da soja e do milho safrinha deverá contribuir para a resiliência das lavouras e, consequentemente, para o aumento da produção dessas culturas. A tecnologia do Sistema Antecipe, que consiste em intercalar o milho nas entrelinhas da soja, antes da colheita da oleaginosa, foi um dos destaques da 63ª ExpoLondrina.
Além da técnica de plantio e colheita, a empresa também desenvolveu uma semeadora-adubadora exclusiva e um aplicativo para auxiliar o produtor na tomada das melhores decisões. No Paraná, foram realizadas pesquisas em áreas de atuação de cooperativas como a Coamo e a Cocamar. “Na prática, eu planto a segunda safra de milho antes da colheita da soja, nas entrelinhas. Isso me proporciona uma redução de risco climático [no final do período de verão e início de outono]. Trago para uma janela mais ideal, com menor risco climático, e isso favorece a produtividade”, explica o pesquisador Décio Karam, que ministrou uma palestra sobre o tema no evento.
Com a soja pronta para a colheita e o milho instalado no solo, o agricultor entra com a colheitadeira na lavoura para colher a oleaginosa e cortar o milho, que permanece apenas com um pequeno caule de cada planta, mas continua se desenvolvendo normalmente e em melhores condições, pois já está no campo e suas raízes estão bem estabelecidas.
As publicações da Embrapa afirmam que o Antecipe produz mais “em relação ao milho semeado tardiamente ou após a janela definida pelo ZARC [Zoneamento Agrícola de Risco Climático]”. Por isso, é sim uma estratégia de redução de risco, mas que não substitui o milho safrinha em toda a área. “O Antecipe é indicado onde, em função da capacidade operacional, o milho safrinha sempre foi semeado em condições restritivas à produtividade, como falta de chuva. Nessas condições, ao se comparar o milho semeado antecipadamente ao milho semeado nesta época restritiva, o milho no Antecipe tem maior produção, pois foi semeado em melhores condições”, diz a empresa.
Em comparação com o milho plantado em condições não apropriadas, o sistema da Embrapa representa um ganho médio de 63% a 76% em produtividade. “Ou seja, em torno de 1,5 a 2,3 sacas por dia de antecipação na semeadura do milho.”
EQUIPAMENTO
O pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo conta que foi desenvolvida uma máquina específica, capaz de entrar no espaçamento das plantas de soja para realizar o plantio do milho sem afetar o que já está no campo. A empresa desenhou e patenteou o protótipo, que foi construído a partir de uma parceria público-privada. “Não é exclusivo, qualquer empresa pode trabalhar conosco.”
Com isso, o único custo para o agricultor adotar o Antecipe é a aquisição do maquinário, que também pode ser utilizado no plantio tradicional. “Essa máquina planta soja, milho, trigo, feijão, algodão. Se eu tenho que comprar uma máquina, compro essa. Se eu fizer um planejamento, tenho uma possibilidade que nenhuma outra máquina permite.”
PLANTIO DIRETO
Segundo o pesquisador, o projeto da Embrapa foi concebido a partir do SDP (Sistema Plantio Direto), técnica que envolve o revolvimento mínimo do solo, a rotação de culturas e a manutenção da cobertura do solo. Um dos pioneiros dessa forma diferente de pensar a produção agrícola foi o agricultor Herbert Bartz, que começou a aplicá-la em Rolândia (Região Metropolitana de Londrina), em 1972. “O Plantio Direto veio e não volta para trás. Eu comparo muito essa tecnologia [Antecipe] com o Plantio Direto, porque o produtor demorou para aceitar. Com essa tecnologia, você precisa quebrar alguns paradigmas: eu tenho que entrar em uma cultura que está próxima da colheita, tenho que perder o medo de que vou perder a soja, que se eu cortar o milho ele não vai produzir. Tem vários conceitos que preciso mudar”, afirma Karam, que cita uma evolução mundial da agricultura. “Alguns produtores ainda falam: ‘Meu avô plantava dessa forma, meu pai plantou dessa forma, então vou continuar plantando dessa forma.’”
CUIDADOS
Ao associar duas culturas na mesma lavoura, o pesquisador ressalta que há alguns cuidados que o produtor deve adotar. O primeiro passo é plantar a soja, escolhendo a melhor cultivar e ajustando o espaçamento entre as plantas, para possibilitar a entrada do maquinário. Depois disso, a preocupação deve ser com o sistema de produção. “Aquela praga que seria secundária no milho, ou secundária na soja, eu tenho que começar a observar dentro do sistema como uma praga principal também, e aí fazer o manejo. Se eu fizer o manejo adequado desde a cultura da soja, eu entro na minha cultura subsequente de forma favorável”, esclarece.
Todo o desenvolvimento das técnicas e da máquina foi focado no milho, mas outras culturas podem ser associadas à soja, como sorgo, milheto, braquiária e plantas de cobertura. “Estamos testando com gergelim, com algodão… hoje, a máquina permite que o produtor tenha uma amplitude de possibilidades com as quais ele não está acostumado. Isso pode favorecer maior sustentabilidade, melhor rentabilidade e um manejo mais eficiente da produção”, finaliza o pesquisador.
Leia mais:





