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Economia

m de leitura Atualizado em 07/03/2022, 06:00

Sentir-se bonita mesmo quando ninguém vê

Mercado de lingeries tem aos poucos se modificado para melhorar a autoestima das mulheres e o ato de sentir-se bem consigo mesma

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de março de 2022

Isabella Alonso Panho - Especial para a Folha
AUTOR autor do artigo

Foto: iStock
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A mulher que nunca comprou calcinhas no leve 3 pague 2, que atire a primeira pedra. Da mesma forma, muitas já vivenciaram a curiosidade de procurar uma peça rendada, ou com um apelo mais sensual. Essa diferenciação tem raízes culturais: desde pequenas, é ensinado às mulheres que a lingerie precisa ser discreta, e que as peças variadas – com rendas, de cores diferentes e modelagens menores – ou são para satisfazer ao olhar de alguém ou estão ligadas a uma série de estigmas pejorativos.

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|  Foto: iStock
 

Contudo, têm despontado no mercado da moda íntima novas vertentes que propõem a quebra dessa lógica. O resultado disso é um público crescente de mulheres que têm descoberto a potência de sentir-se bonita aos próprios olhos.

Luciana Rabelo tem 25 anos, é mãe há quatro e trabalha em uma cafeteria. “Eu sempre comprava aquelas lingeries básicas, sempre com bojo, porque eu tinha uma insegurança muito grande. Era sempre branca, bege, preta”, afirma ela. “Eu me olhava e não gostava do que via”, relembra.

Ela conta que, há pouco tempo, quando teve as primeiras experiências em comprar lingeries diferentes, sentiu a relação consigo mesma mudar. “Porque a gente quando é mãe, amamenta, o corpo não é a mais a mesma coisa. E a primeira vez que eu provei uma peça de lingerie mesmo foi amor à primeira vista. Você coloca no corpo e vê ‘caramba, que mulherão eu sou’”.

A cafeteria em que Luciana trabalha é perto da loja Mana Lingerie, negócio das irmãs Mariana e Amanda Cunha Silva. “Desde sempre nossa prioridade foi vender lingerie para a mulher. Até hoje tem muita gente que vem na loja e dá a entender que está procurando algo porque o marido, o namorado ou a namorada pediu. E às vezes não é nem o que ela gosta”, conta Amanda. “Já passou do momento da história em que a lingerie era uma coisa para agradar o outro, ou para usar com o outro. É para usar para você, o resto é consequência”, conclui.

Bojo: ter ou não ter?

Um dos aspectos mais marcantes das peças desse novo mercado é a abolição do bojo do sutiã, artifício que surgiu nos anos 30 para modelar o busto das mulheres, dando um formato pontudo, mais arredondado, mais arrebitado, sem marcar nada, conforme a moda determinasse.

O bojo também se transformou em uma espécie de zona de conforto para muitas mulheres, como conta Luciana: “eu tinha uma insegurança muito grande. Desde sempre, nunca fui acostumada a usar lingerie sem bojo”. Contudo, nessa nova fase, o sutiã com bojo virou apenas uma lembrança de desconforto.

Gabriela de Mari é proprietária da De Mari Handmade, uma confecção de lingeries sob medida. Ela conta que um dos propósitos da marca ao tirar o bojo das peças é valorizar o formato natural do corpo da mulher: “os modelos que a gente faz realmente não modificam o corpo feminino – isso (o bojo) é uma coisa feita para agradar o olhar masculino”.

A quebra das perspectivas mais tradicionais, contudo, ainda é recente. “Há cinco anos, usar sutiã sem bojo era inaceitável, marcar o bico do seio na roupa era inaceitável”, conta Mariana.

Mercado plus size

Outra demanda que essa nova linha do mercado de lingeries busca atender é a variedade de tamanhos. Como publicado recentemente pela FOLHA, o mercado de numerações além da grade tradicional é uma tendência em consolidação, cuja clientela tem ficado cada vez mais exigente e criteriosa.

“Uma coisa chave que fez a marca ter uma boa aceitação é a possibilidade de as clientes encomendarem sob medida. Porque o nosso corpo não segue um padrão de tamanho de costas, de busto. Ter essa possibilidade de personalização faz a pessoa se sentir especial, que a cliente se sinta especial ao comprar uma lingerie que cabe perfeitamente nela”, pontua Gabriela.

Na Mana Lingerie é possível encontrar alguns modelos até o tamanho 56. “A gente os compra mais caro que o normal, mas diminuímos nossa margem de lucro para deixar o valor mais acessível. A indústria da lingerie infelizmente não é democrática. A gente tem muita dificuldade de encontrar lingerie plus size para revender. Mas temos um público muito considerável de tamanhos GG para cima”, conta Amanda, uma das proprietárias.

O que os números dizem?

A pedido da FOLHA, a Junta Comercial do Paraná levantou algumas estatísticas sobre o setor, enumerando, conforme a classificação do CNAES (Classificação Nacional de Atividades Econômicas), a quantidade de empresas que foram abertas no atacado e no varejo de lingeries de 2015 para cá.

Em 2015, havia quase o triplo de mulheres comandando esse mercado: enquanto 2.324 empresas foram abertas exclusivamente por homens, 6.097 o foram por mulheres. Essa proporção se manteve até 2019, quando, além dos números de novas empresas caírem drasticamente, o mercado ficou mais paritário. Em 2021, foram registradas 1.834 novas empresas de homens e 1.507 de mulheres. Os dados de 2022 ainda são incompletos, contemplando apenas os primeiros meses do ano – 186 empresas deles e 157 empresas delas. A estatística não contempla, por exemplo, as empresas que confeccionem ou vendam outras categorias de roupas juntamente com moda íntima.

Apesar da mudança recente, a percepção é de que o mercado ainda é comandado por mais mulheres. “Eu tenho uma visão de que é mais feminino, mas eu vejo muitas com uma cabeça mais antiga”, “Não vejo que seja muito comandado por homens, mas é comandado por mulheres que não estimulam o amor-próprio. Então, apesar de feminino, tem resquícios do machismo”, analisam as irmãs Mariana e Amanda, respectivamente.

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