O produtor Antonio de Oliveira Sampaio informa que na sua fazenda em Arapongas o solo encharcado impediu o início do plantio de soja. Na outra fazenda, em Guaraci, como a terra é mais arenosa e o maquinário consegue operar, o plantio está “lento e arrastado”, aproveitando as curtas janelas de tempo firme.

Vice-presidente da Sociedade Rural do Paraná, Sampaio explica que os agricultores tentaram iniciar antes do habitual o plantio para não prejudicar o calendário agrícola, mas as últimas semanas de chuvarada travaram o planejamento. “Em terras com mais argila, como em Arapongas, a secagem demora mais e os intervalos curtos de estiagem não permitem trabalhar. No arenito, a drenagem é mais rápida, e é possível avançar aos poucos”, explica.

A previsão de um último bimestre excessivamente chuvoso também é uma ameaça fitossanitária para as plantinhas de soja. O risco do aparecimento de fungos se torna bastante elevado sem o sol. Com a lama deixando os tratores e os pulverizadores na garagem, não são feitas as aplicações preventivas de defensivos no período correto e a soja fica desprotegida contra os patógenos.

De acordo com as medições feitas pelo Instituto de Desenvolvimento Rural (antigo Iapar), a região de Londrina registrou 259 milímetros de chuva em setembro, mais que o dobro da média auferida para o mês entre 1976 e 2025, de quase 109 milímetros.

A comparação com o ano passado impressiona: o volume de água foi seis vezes e meia maior. Mas ainda não foi um recorde, embora não tenha ficado muito distante de setembro de 1998, quando os registros apontam pouco mais de 316 milímetros.

CHANCE DE RECORDE EM OUTUBRO

Nos 14 primeiros dias de outubro, o acumulado alcançou quase 241 milímetros, já muito acima da média histórica para o mês inteiro, de 157 milímetros, e igualando os 31 dias do mesmo mês do ano passado. Se o ritmo for mantido na segunda quinzena, há chances reais de o mês quebrar o recorde de outubro de 2009, que bateu nos 396 milímetros.

Nos 22 primeiros dias da primavera, choveu em 13, contra 9 do ano passado. "O que realmente está acontecendo, a gente vem falando e constatando desde o mês de abril: é o El Niño de forte intensidade e chuva acima da média climatológica para toda a nossa região Sul”, afirma pesquisadora do IDR, Ângela Costa, uma doutora em agrometeorologia conhecida como a Voz do Clima e responsável pelo levantamento estatístico pedido pela reportagem da FOLHA.

O encontro da lida no campo e os efeitos do El Niño já estava agendado. Com isso, os produtores de soja anteviram o desenvolvimento mais lento da planta. “Menos insolação e temperatura mais baixa significam mais tempo para o desenvolvimento completo da lavoura”, explica o engenheiro agrônomo Edmar Gervasio, analista de mercado do Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento.

INÍCIO PRECOCE E QUEDA DE RITMO

A preocupação com a semeadura no período adequado do milho no verão, especialmente no Norte e no Oeste do Estado, acelerou o plantio da soja antes da virtual paralisação dos trabalhos por causa do encharcamento do solo. Uma coisa compensou a outra e no primeiro boletim do Deral de outubro a medição estadual já apontava para mais de um terço(36%) da área prevista já plantada. Na região de Londrina, o quadro também é de normalidade, com cerca de apenas um sexto de plantio consumado. Neste fim de semana, com expectativa de tempo seco, o percentual estadual deve ultrapassar os 40%, um valor bem semelhante às últimas safras, compara Gervasio.

A germinação prosperou com a umidade e as condições das lavouras são consideradas boas, embora a chuvarada dificulte os tratos culturais em algumas regiões que exigem mais manejo.

De acordo com o doutor em Economia Anderson Sartorelli, analista do Sistema Ocepar, a organização que congrega as cooperativas do Estado, a preocupação vai persistir até o fim do ano. “As expectativas não são as melhores e todas as regiões do Estado estão sofrendo. As cooperativas vêm orientando os produtores a aproveitarem bem o tempo firme e tomarem cuidado para não plantar com excesso de umidade ou fora dos níveis corretos.”

NO TRIGO, PERDAS IMPORTANTES

Sartorelli comenta que os 30% das lavouras de trigo que ainda faltam colher estão classificadas como regulares ou ruins. “Houve perda severa de qualidade no trigo e na cevada. No caso do trigo, o excesso de umidade afeta parâmetros como o falling number, fazendo com que o produto perca o padrão para panificação e precise ser destinado à ração animal”, informa.

O produtor Sampaio confirma que, no Norte do Estado, as perdas já são importantes. “Tanto o trigo, a aveia e o triticale estragaram muito. Afetou quantidade e qualidade. Os preços de venda também serão baixos. Com tanta chuva, o resultado financeiro vai ser bem prejudicado.”

Os entrevistados também frisaram que o excesso de chuva favorece o surgimento de doenças fúngicas, aumenta o risco de acamamento (tombamento das plantas) e gera custos adicionais com a secagem artificial nas culturas de inverno. No caso do trigo, o clima desfavorável justamente na colheita aumenta o desalento dos produtores, cada vez menos numerosos e que plantam áreas cada vez menores no Estado.

Doutor em Agronomia e professor de meteorologia agrícola na UEL (Universidade Estadual de Londrina), Marcelo Augusto de Aguiar e Silva mostra preocupação com a força do El Niño e suas consequências, como chuvas extremas, destruição de infraestruturas e severos prejuízos nas propriedades e no ambiente urbano como aconteceu em outro período de El Niño potente - 2016, um ano que os londrinenses guardam na memória pela fúria das enxurradas.

PACÍFICO, QUENTE COMO NUNCA

Ele alerta que, no último dia 26 de agosto, as águas do Pacífico Equatorial quebraram um recorde histórico de alta temperatura, chegando a mais de 21 graus centígrados. O efeito vai além do número maior de dias chuvosos na porção Sul do país. Os temporais superlativos também estão no horizonte.

“As nuvens verticais descarregam volumes massivos de chuva em curtos intervalos de tempo, provocando erosão severa. As enxurradas podem levar as sementes e a camada fértil do terreno diretamente para os rios”, observa.

Aguiar e Silva cita estimativas do Núcleo Paranaense de Ciência do Solo que apontam que o Estado perde cerca de 500 milhões de toneladas de solo por ano, o que equivale à perda de 8 milhões de toneladas de adubo e exige investimentos pesados em fertilizantes, elevando o custo final da produção.

LEIA TAMBÉM:

+ Em três anos, criação de rãs quadruplica no Paraná

Ele lembra que a enxurrada é parceira da compactação do solo, a vilã que impede a infiltração da água no solo. Os extremos climáticos exigem ainda mais a adoção de um tripé de resiliência contra esta armadilha.

O professor enumera: experimentar a rotação alternativa de cultura, que rompe com a mesmice “soja no verão e milho safrinha” e inclui culturas com raízes diferentes para quebrar as camadas compactadas e estruturar o solo; a manutenção da palhada sobre o solo absorve o impacto das gotas da chuva, prevenindo o selamento da superfície; por fim, a manutenção e a criação de novos terraços agrícolas, barreiras físicas que reduzem a velocidade da água.

mockup