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Paraná tem maior quebra de safra de milho da história

Redução na produtividade chega a 58% no Estado e ameaça cadeia de produção de proteína animal; Região Norte foi a mais afetada, com perda de 63%

Simoni Saris - Grupo Folha
Simoni Saris - Grupo Folha

Estiagem, ataques de pragas e frio intenso. Essa combinação de fenômenos desfavoráveis ocasionou a maior quebra de safra de milho da história do Paraná em volume de produção. Com 2,5 milhões de hectares do grão cultivados no Estado, a expectativa de colheita no início da segunda safra 2020/21 era de 14,6 milhões de toneladas, mas a realidade deve ficar bem distante do que foi projetado. O último relatório do Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento indica uma redução de 58,2% sobre a estimativa inicial e o volume colhido não deve passar de 6,1 milhões de toneladas.  


 

Paraná tem maior quebra de safra de milho da história
Gustavo Carneiro
 


Os preços animadores, com alta significativa em relação a anos anteriores, incentivaram os produtores a investirem no plantio de milho. Alguns até se arriscaram e decidiram pelo cultivo fora do calendário de Zoneamento Agrícola de Risco Climático, sem financiamento. As adversidades, porém, começaram antes mesmo de o maquinário ir a campo para fazer a semeadura. “A estiagem prolongada (em 2020) atrasou o plantio de soja e encurtou o calendário de milho, que foi plantado mais tarde”, lembrou o chefe do Deral, Salatiel Turra.  


Com o milho já no solo, as condições climáticas continuaram sendo um fator agravante no desenvolvimento da cultura e causaram muitos estragos na produção. Primeiro veio a seca. Na sequência, as pragas, como a cigarrinha, e por fim, uma onda de frio intenso que atingiu as lavouras na fase mais crítica, quando 73% das plantas estavam na fase de floração e frutificação. O resultado será uma queda expressiva na produtividade e redução na colheita de 8,5 milhões de toneladas. 


Em termos financeiros, a quebra de safra representará uma perda de R$ 11,3 bilhões para o Paraná, mas a baixa na produção de milho deverá comprometer também a cadeia de proteína animal que tem no grão a base da alimentação para a criação de aves, suínos e peixes e irá afetar ainda a produção de leite. “Além disso, os preços recebidos pela saca de 60 quilos estão 124% maiores do que no mesmo período do ano passado. Não vai faltar milho, mas isso significa que o custo de produção para as cadeias de animais vai aumentar e o consumidor vai pagar mais pelo produto final”, explicou Turra, desenhando uma escala de consequências que começa no campo e termina nas gôndolas dos supermercados, atingindo toda a população.  


O consumo médio anual de milho do Paraná fica em torno de 12 milhões de toneladas e o Estado tinha uma produtividade de cerca de 17 milhões de toneladas, sendo autossuficiente na cultura do grão. Mas como todo ano a produção da cadeia de proteína animal cresce em razão do aumento da demanda pelo mercado externo, especialmente China e países árabes, a quebra na safra deixa o setor suscetível a utilizar os seus estoques. Para compensar o que foi perdido agora, as lavouras paranaenses terão que produzir três primeiras safras cheias nos próximos anos. “A gente tinha sobra, mas agora será o ano em que mais vamos importar milho para suprir a cadeia de proteína animal. Esses cinco milhões de toneladas a mais que produzíamos não era estoque porque o câmbio estava favorável e os produtores podem ter exportado”, disse Turra.  


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Uma solução é importar milho de estados vizinhos, mas a alta do dólar favorece as exportações e se o Paraná quiser comprar o grão de produtores internos, terá que pagar o preço de uma commodity bastante valorizada. Importar o grão do Paraguai e da Argentina seria outra opção, mas gargalos na logística dificultam o escoamento do produto para o interior do Estado e encarecem o processo. “Nós encontramos uma dificuldade porque nossa logística foi desenvolvida para exportar grãos, não para receber grãos do porto e levar para o interior. Isto terá que vir por caminhões. Além disso, poderá haver congestionamento nos portos, pois nesse período estão chegando fertilizantes para a produção da lavoura que será plantada nos meses de agosto e setembro”, disse o presidente do Sindiavipar (Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Estado do Paraná), Irineo da Costa Rodrigues, por meio da assessoria de imprensa. 


Para amortizar os impactos da escassez de milho no mercado, as indústrias avícolas propõem contratos de compra e venda a produtores como forma de incentivar o plantio de verão. A mobilização foi iniciada pelo Sindiavipar, por meio de reuniões. “Os produtores já fizeram esses seus pacotes tecnológicos para plantar soja, mas no momento, o milho está rentabilizando mais o agricultor que a oleaginosa. Sendo assim, nós, como setor, estamos conversando para oferecermos um preço, em contratos futuros, que seja estímulo para o produtor plantar milho em, pelo menos, uma parcela da sua área. Dessa forma, poderíamos ter, no verão, uma boa colheita do grão e amenizar um pouco a falta desse insumo”, destacou Rodrigues. 


A avicultura paranaense emprega 85 mil pessoas diretamente, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), e o segmento estima que a cada uma vaga de trabalho direto outras 17 indiretas são geradas, o que significa, de acordo com o Sindiavipar, que aproximadamente 10% da população paranaense seja impactada direta e indiretamente pela produção avícola do Estado. 




 

Paraná tem maior quebra de safra de milho da história
Gustavo Carneiro
 


Região Norte foi a mais afetada e quebra deve chegar a 63% 

Os prejuízos contabilizados nas lavouras de milho em algumas regiões do Paraná irão superar os 58% estimados para o Estado, aponta o relatório do Deral (Departamento de Economia Rural). Na Região Norte, a quebra na produção deverá ser a maior de todas, de 63%. A projeção inicial era colher 4,9 milhões de toneladas do grão, mas a última estimativa contabiliza 1,7 milhão de toneladas, podendo reduzir ainda mais. “Aconteceram geadas na semana em que a gente estava divulgando o relatório mensal, uns dois dias antes, e a gente não conseguiu mensurar. As consequências dessas geadas só aparecem de 15 a 20 dias depois”, disse o chefe do Deral, Salatiel Turra. 


Na Região Oeste, a previsão de colheita era de 4,8 milhões de toneladas, mas não deve passar de 1,8 milhão, com quebra de 61%. A região menos afetada pelas geadas foi a Sul, onde a área de cultivo de milho é a menor do Paraná. Os produtores esperavam colher 576 mil toneladas e o volume deve ficar em 337 mil toneladas, uma redução de 41%. 


Paulo Maciel é produtor rural na região de Londrina e, nesta safra, plantou uma área de 170 alqueires de milho. Na época do cultivo, a expectativa era colher 250 sacas do grão, mas agora ele calcula a produção em apenas 27 sacas, menos de 11% do volume estimado. Logo no início da safra, contou o agricultor, a estiagem atrapalhou a produção, mas ainda foi possível recuperar as perdas. Mas dos prejuízos das geadas Maciel não conseguiu escapar. “Além da queda na produção, a qualidade do grão também deixa a desejar. Queimou muito com a geada, perdeu totalmente a qualidade. Só dá para ser usado para ração animal”, contou. 


O agricultor calcula os prejuízos em R$ 1,8 mil a R$ 2 mil por alqueire, totalizando cerca de R$ 340 mil em perdas financeiras mesmo com o pagamento do seguro. “O seguro só cobre semente, adubo e um pouco do defensivo. O trabalho do maquinário, como colheitadeiras e caminhões, não tem cobertura. São R$ 1 mil para colher e isso o seguro não paga. O seguro vai pagar R$ 5,6 mil por alqueire, o que não cobre as minhas perdas.”  


O agricultor produz milho “há muitos anos” e conta que essa foi a primeira vez que viu a geada acabar com todas as lavouras. Em invernos anteriores, as temperaturas perto de zero queimavam as lavouras de baixada, mas neste ano, nenhuma se salvou dos prejuízos do frio intenso. A expectativa agora é com a safra de soja cujo cultivo deve ser iniciado entre setembro e outubro. “O plantio da soja já está planejado, com semente, adubo e esperamos tempo bom para plantar e colher. O agricultor nunca perde a esperança.” 


Presidente do Sindicato Rural Patronal de Londrina, Edson Dornellas disse que os agricultores esperam a emissão de um decreto de emergência pelo município para que os produtores tenham melhores condições de negociar nas empresas de revenda, bancos e cooperativas. “Se não, não vai ter recurso para o plantio de soja na safra de verão. Se for executado, o banco não vai liberar o próximo plantio”, disse o sindicalista. “Estamos tentando colocar para o prefeito que precisamos desse decreto. O município vive em cima do ICMS do agronegócio.” 


A reportagem entrou em contato com o secretário municipal de Agricultura, Regis Choucino, mas ele não respondeu aos questionamentos.  


SAFRA DE MILHO NO PARANÁ (2020/21) 

Área de cultivo: 2,5 milhões de hectares 

Expectativa inicial de colheita: 14,6 milhões de toneladas 

Volume estimado de colheita: 6,1 milhões de toneladas  

Quebra de safra 58,2% 

Perdas financeiras para o Estado R$ 11,3 bilhões 

 

QUEBRA DE SAFRA POR REGIÃO (em milhões de toneladas) 

Região      Estimativa     Colheita     Redução 

Norte          4,9                  1,7              63% 

Oeste          4,8                 1,8               61% 

Noroeste    1,4                  1                 59,9% 

Sudoeste    1,3                 0,959         58,6% 

Sul                 0,576          0,337            41,4% 

 

Fonte: Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento)


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