Você já teve a impressão de que as compras do supermercado rendem cada vez menos? Nem sempre a explicação está apenas no aumento dos preços. Muitas vezes, o consumidor é afetado pela chamada reduflação, prática que consiste em diminuir a quantidade do produto sem uma redução proporcional do valor cobrado.

O exemplo é conhecido. O pacote de biscoito mantém praticamente a embalagem, as mesmas cores e aparência, mas passa a conter menos produto. Quem não observa atentamente acaba levando para casa uma quantidade menor pelo mesmo preço de antes.

Outro fenômeno cada vez mais comum está nas prateleiras de laticínios. Embalagens muito semelhantes às de leite condensado ou creme de leite tradicionais escondem uma diferença importante: em vez do produto original, o consumidor encontra “mistura láctea condensada” ou “mistura de creme de leite”. Embora a comercialização seja legal, a semelhança visual pode dificultar a identificação da diferença, especialmente na correria do dia a dia.

O resultado é que muitas pessoas só percebem a alteração depois da compra ou ao utilizar o produto em uma receita. É o velho ditado: levar gato por lebre.

O Código de Defesa do Consumidor não proíbe a redução do conteúdo dos produtos nem o lançamento de novas versões no mercado. O que a lei exige é transparência. O consumidor tem direito à informação clara, adequada e ostensiva sobre aquilo que está adquirindo.

Esse direito vai além da simples presença da informação na embalagem. Ela precisa ser facilmente percebida e compreendida. Quando a comunicação é confusa ou insuficiente, a escolha do consumidor deixa de ser plenamente consciente.

Por isso, tornou-se essencial observar peso, volume, composição e preço por unidade de medida. Pequenos detalhes podem representar economia significativa ao final do mês e evitar compras que não correspondam à expectativa do consumidor.

Também é importante que práticas que possam induzir o consumidor a erro sejam comunicadas aos órgãos de defesa do consumidor. O Procon e a plataforma Consumidor.gov.br são canais acessíveis para registrar reclamações e relatar irregularidades. Mais do que buscar uma solução individual, o consumidor que denuncia contribui para um mercado mais transparente, equilibrado e respeitoso com os direitos de todos.

Em tempos de orçamento apertado, cada grama e cada informação fazem diferença. O consumidor não pode ser transformado em um investigador de embalagens para descobrir o que realmente está comprando. Transparência não é um favor das empresas, mas um dever legal. Quando a informação perde espaço na embalagem, quem acaba pagando a conta é sempre o consumidor.

Jussara Ferri - advogada, presidente da Comissão de Direito do Consumidor

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