Guerra no Irã pressiona preços dos combustíveis
Litro do diesel já passa de R$ 7 na região de Londrina; altas atingem também gasolina e etanol
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de março de 2026
Litro do diesel já passa de R$ 7 na região de Londrina; altas atingem também gasolina e etanol

Onze dias depois do início da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, reflexos já podem ser sentidos no Brasil. Até agora, o efeito mais perceptível à população em geral é a elevação dos preços dos combustíveis, que estão mais caros em várias cidades do país. Segundo informações repassadas por empresários paranaenses do setor, as distribuidoras com bandeira começaram a remarcar os preços no dia 28 de fevereiro, primeiro dia de conflito no Oriente Médio. Desde então, o Procon em Londrina, órgão de proteção e defesa dos direitos do consumidor, identificou alta de R$ 0,10 no preço do litro da gasolina e de R$ 0,40 no diesel S-10, mas o aumento registrado em alguns postos foi maior, especialmente no diesel, que já chega a R$ 0,90, com o litro sendo vendido a mais de R$ 7.
A Petrobras tenta segurar os reajustes, mas analistas avaliam que isso não será possível por muito tempo em razão da disparada do preço do petróleo. O Estreito de Ormuz, por onde escoavam diariamente cerca de 20 milhões de barris do produto, foi fechado pelo Irã. O volume representa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e com a oferta menor no mercado, o preço subiu.
Em 27 de fevereiro, véspera da eclosão da guerra, o preço do petróleo Brent era cotado a US$ 72,48 por barril. A partir do início do conflito, a cotação começou a aumentar dia a dia e, na última segunda-feira (9), disparou e atingiu o ápice até o momento, com o preço do barril chegando aos US$ 120, acréscimo de quase 70% desde o final do mês passado. Nesta terça-feira (10), houve recuo para US$ 99, mas ainda assim, a alta se mantém acima dos 35%.
Nas quatro unidades do Autoposto Cupimzão, em Londrina, Cambé, Arapongas e Marilândia do Sul, o preço do diesel S-10 nas bombas saltou de R$ 6,39 para R$ 7,29 desde o início da guerra no Irã. Os R$ 0,90 de aumento são exatamente o valor do reajuste aplicado pelas distribuidoras sobre o produto no período, o que corresponde a um acréscimo de 14%. No mesmo intervalo, o diesel comum subiu R$ 0,70 nas distribuidoras e também nos postos.
O dono dos estabelecimentos, Diogo Decker, contou que os reajustes atingiram também a gasolina, cujo preço do litro já aumentou em R$ 0,10, e o etanol, reajustado em R$ 0,11. “Acredito que esses aumentos nos preços da gasolina e do etanol sejam por causa da logística. Tem a ver com a alta do diesel. Se for isso, esses aumentos vão atingir todo o mercado que depende do transporte rodoviário”, previu.

Embora as distribuidoras afastem o risco de desabastecimento em curto prazo, o empresário aponta a redução da oferta de combustíveis no mercado e se preocupa com uma possível falta. “Está tendo muito corte de combustível. Ontem (segunda-feira), consegui comprar 20 mil litros. Hoje (terça-feira), só sete mil”, disse Decker. “Ontem, vendemos o triplo do volume, principalmente para os agricultores, que não estão conseguindo combustível nos distribuidores ‘bandeira branca’. Eles estão em época de colheita e tem agricultores que chegam a carregar de dois mil a três mil litros do produto. Estão fazendo estoques.”
A Paranapetro, entidade representativa dos revendedores de combustíveis no Estado, divulgou nota nesta terça-feira reforçando que a alta dos combustíveis ao consumidor final foi efeito do reajuste praticado pelas distribuidoras. Os aumentos começaram na semana passada. A variação de preços, destacou a nota, ocorre conforme a porcentagem de produto importado que cada distribuidora utiliza. “Em alguns casos, passa de R$ 1 por litro no diesel.”
A entidade de classe informou ainda que como os postos são obrigados a comprar gasolina e diesel das distribuidoras, a dimensão e a velocidade dos repasses dependem das companhias de distribuição. “As distribuidoras costumam repassar as altas com grande agilidade para os postos. Já no caso das baixas, demoram ou não repassam na íntegra”, ressaltou.
Para justificar os reajustes, afirmou a Paranapetro, as distribuidoras se apoiam no fato de o Brasil não ser autossuficiente no refino de combustíveis, sendo necessária a importação de cerca de 30% do diesel e de 10% da gasolina comercializados dentro do país. “Vale salientar que o nível de produto importado comercializado varia muito entre as distribuidoras: algumas vendem 100% de produto importado, enquanto outras, apenas 10%”, disse a entidade.
Coordenador do Procon em Londrina, Bruno Lopes, destacou que se um revendedor compra o combustível de uma distribuidora que reajustou os preços, é natural que esse aumento chegue às bombas. Até o momento, disse ele, não foram identificadas práticas abusivas nem houve denúncias feitas ao órgão de defesa do consumidor.
As pesquisas de preços realizadas pelo Procon em Londrina nos dias 2, 6 e 9 de março, afirmou Lopes, indicaram uma alta média de R$ 0,40 no preço do litro do diesel S-10 e de R$ 0,03 na gasolina, embora em alguns revendedores o reajuste da gasolina tenha chegado a R$ 0,10. “Se a guerra se prolongar, a tendência é aumentar mais. O que observamos, nas últimas pesquisas, é uma grande variação de preços entre os postos. A gasolina variava entre R$ 5,19 e R$ 6,79 o litro, uma diferença de R$ 1,60. O preço do diesel variava de R$ 5,40 a R$ 7,74.”
É por meio desses levantamentos que o Procon acompanha a alteração dos preços em Londrina e região. Se o aumento for muito significativo, o órgão pode notificar o revendedor para que ele apresente os documentos referentes aos últimos três meses que comprovem a necessidade de reajuste.
Em relação às distribuidoras, o coordenador informou que o Procon oficiou o MP-PR (Ministério Público do Paraná) para que adotasse alguma medida fiscalizatória, mas com base na Lei de Liberdade Econômica, a resposta teria sido de que como a composição dos preços dos combustíveis considera uma série de variáveis internacionais, não caberia à promotoria intervir. “Temos esse gargalo de fiscalização nas distribuidoras”, disse Lopes.
Motoristas sentem no bolso
Em um posto localizado na região central, o destaque é o valor do diesel S-10 aditivado, com o litro custando R$ 7,49. A gasolina comum e a aditivada valem, respectivamente, R$ 6,29 e R$ 6,49 o litro.
Sara Ramos, que atua na área da saúde, disse que a ambulância que dirige é abastecida somente com diesel, e assim, ouviu no trabalho que o preço “já está pesando no bolso”. Nesta terça (10), ela foi até o posto para abastecer o carro da empresa com gasolina. Para encher o tanque, que comporta cerca de 44 litros, geralmente paga quase R$ 400. “A gente coloca entre 20 e 25 litros, porque é regra da empresa não abaixar mais de 3. Hoje foram 21 litros e já senti o valor mais pesado, foram R$ 154. Tem vários preços, mas tem gasolina que o carro não 'vai', aí não compensa pagar o barato”, considerou a mulher.
Disse ainda que, quando há um aumento geral e considerável nos preços, seus chefes realizam uma “conta maluca” para ver qual combustível compensa mais para os funcionários solicitarem em postos. Há mais de dois anos, todos abastecem com gasolina, deixando o álcool de lado. Contou que brincou com a gerente do posto sobre o valor pago, pontuando que “o negócio é você trabalhar, comprar arroz, feijão e um ovo frito, o resto é pra gasolina. É pra isso que a gente está trabalhando hoje”.
Jefté Reghine, técnico de elevador, abasteceu o seu veículo particular no mesmo local, contando que prefere a gasolina aditivada, mas que ele e a esposa optam pelo tipo comum por ser mais acessível financeiramente. “Hoje eu percebi que o valor aumentou. Coloquei R$ 200 e sempre coloco a cada duas semanas, mas é bastante, todo mês vai uns R$ 450”, informou.
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Comparando com os litros que seus R$ 200 habituais bancaram na última vez que abasteceu, disse acreditar que, nesta ocasião, terá que retornar ao posto antes do previsto, em uma semana e meia. “É um carrinho de passeio simples, 1.0, não era nem pra consumir tanto”, riu.
Em outros postos também no centro de Londrina, o diesel S-10 segue como o mais caro, com placas de preços indicando R$ 6,29 e R$ 7,69. (Colaborou Heloísa Gonçalves)


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.




